• wytways

EP4 WYT

Atualizado: 8 de mai. de 2021

ūüĒĆ Este texto surgiu da conex√£o de ways! Leia aqui!


JOGOS OCULTOS


PARTE 1


Neste fim de ano, a "Disguise Games", uma empresa de jogos digitais, resolveu proporcionar uma experiência bastante inusitada aos seus funcionários: um encontro presencial.


Depois de tantos imprevistos, problemas t√©cnicos, noites em claro, brigas, vazamentos de dados e at√© invas√Ķes hacker, era justo que as conquistas fossem celebradas. At√© porque conseguiram a proeza de lan√ßar um jogo antes do deadline. E sem bugs.


O problema √© que para uma empresa criada por nerds que amam o isolamento social sobre todas as coisas, nada pareceu mais r√ļstico e fora de prop√≥sito do que um encontro face a face, em carne e osso, na mesma mesa, no mesmo ar, no mesmo metro quadrado.


Era como ser chamado a escutar vinil ou receber um desconto-rel√Ęmpago de curso de datilografia. Para qu√™ desenterrar ossadas antigas se o novo estava vicejando?

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PARTE 2


O chefe ousou nesta manhã tocar a campainha de cada um dos funcionários, em suas residências físicas mesmo, de alvenaria, não as de bits. Vestido de carteiro, entregou convites personalizados escritos à mão. Queria gerar uma experiência tão real que forçasse as pessoas a saírem do conforto das telas.


A performance fazia refer√™ncia ao √ļltimo game da equipe: ‚ÄúCartas Marcadas‚ÄĚ. Nele, um carteiro resolve interceptar as cartas dos moradores para reescrever. A fraude √© descoberta e considerada imperdo√°vel pelos locais. A cidade ent√£o se fecha para ca√ßar o impostor. Agora ele deve decidir em que contexto e para quem se revelar. Ou apostar na sobreviv√™ncia √† custa de disfarces.

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PARTE 3


Mas o jogo mais dif√≠cil de todos √© o jogo da vida real. Esse √© realmente dif√≠cil de zerar. O frio na barriga foi un√Ęnime mas curiosamente todos confirmaram presen√ßa no jantar.


Manu foi a primeira a chegar, seguida de S√©rgio, J√ļlia e Greg√≥rio. O gar√ßom deu as boas vindas com um sorriso acolhedor. Mostrou as mesas reservadas e fez um gesto de cumprimento caricatural, rodando a m√£o direita tr√™s vezes, em giros no sentido hor√°rio. Depois puxou um len√ßo de pano do bolso e sacudiu num espano grave e sonoro. Em seguida curvou-se para baixo e estendeu uma das pernas e os dois bra√ßos at√© se equilibrar na exc√™ntrica pose.


Os 4 se entreolharam segurando o riso o quanto puderam.


O garçom levantou com altivez, ajeitou sua roupa e foi atender outra mesa.


NORGU: Bela introdução, não? Vamos beber alguma coisa? O momento definitivamente está pedindo.

GEMMA: (riso exagerado) Já quer aquecer as turbinas né Gregório? Eu vou esperar mais um pouco o pessoal chegar, senão acabo bebendo demais. Sou mais lenta pra essas coisas.

OATIX: Vai no seu ritmo, J√ļlia... Eu vou acompanhar o Greg na breja.

ZIMAK: Acho que vou tomar só uma água com gelo e limão por enquanto.


Zimak destrava o celular e come√ßa a passar as telas repetidamente em loop. L√™ as mensagens pendentes e digita alguma coisa. Ajeita um pouco o penteado usando a c√Ęmera como espelho.


NORGU: Grande! Duas cervejas e uma √°gua com gelo e lim√£o, por favor!

GARÇOM: Claro!


O garçom desabotoa o colete. Pressionando com uma das mãos, mantém um lado do colete rente ao corpo e abre o outro lado, revelando na parte interna vários bolsos contendo uma variedade de bloquinhos de notas de todos os tipos.


GARÇOM: Por favor, escolha o que mais lhe agrada.


Os 4 se entreolharam novamente, agora um pouco assustados, julgando o garçom um tanto insano.


Norgu fez a escolha mais óbvia. Optou pelo bloco com estampa de dinossauro, que lhe remeteu ao mascote da "Disguise". Aquele que ele mesmo tinha ajudado na concepção, principalmente no desenho do logo, em que o simpático dava uma piscadela com um dos olhos e fazia um sinal de positivo com o polegar, envolto no pescoço por uma guirlanda estilizada de fios de cobre.


O garçom abotoou o colete e começou a anotar o pedido por uma duração estendida, nada condizente com uma solicitação tão simples e breve de apenas 3 bebidas.


NORGU: Tudo bem aí, meu amigo? Quer que a gente repita?

GARÇOM: Não, só um instante, já estou quase no fim.


Ele não parava de escrever, chegando a virar as páginas algumas vezes. Zimak disfarçadamente filmou a cena no celular. Oatix e Norgu gargalharam já sem disfarçar.


GEMMA: Mas o que você tanto escreve?

GAR√áOM: √Č muita informa√ß√£o, minha amiga, √© melhor registrar sen√£o esque√ßo. Vai demorar um pouco, t√°? Mas vai chegar... A casa est√° cheia hoje, espero que entendam. Mas nossa comida √© a melhor da cidade, isso posso garantir, vai compensar!


GEMMA: Tudo bem, estamos esperando o resto do pessoal mesmo.Tem muita gente pra vir ainda.

OATIX: Vai no seu ritmo, mestre, vai no seu ritmo.


O garçom fez uma mímica, simulando uma pequena virada de bateria e dublando os sons dos tons e pratos com a boca.

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PARTE 4


NORGU: E então, há quanto tempo não saíam de casa hein?

OATIX: Acredito que uns 10 anos.

GEMMA: √Č bem por a√≠ mesmo... Mas √© muito bom ver voc√™s! Estou muito feliz com isso. Nem lembrava dessa minha saudade de olho no olho, de sentir essa energia. √Č muito bom!

ZIMAK: Às vezes né...

NORGU: A Manu nem queria vir, só veio só para espiar.

ZIMAK: Nada, eu quis vir mesmo. Achei bastante criativo. Queria ver se ainda sabemos nos relacionar depois de tanto tempo.


Todos riem ao mesmo tempo. A mesa estremece um pouco e a toalha desalinha. O garçom passa rapidamente , ajeita a toalha e aproveita para trazer cestos com temperos e talheres.


OATIX: Obrigado, meu amigo.

GARÇOM:Que nada!

OATIX: √Č uma satisfa√ß√£o enorme ver todo mundo reunido. Muito legal mesmo a iniciativa.

GEMMA: Que bom poder ver voc√™s reais assim, sem delay. Agora ningu√©m reclama mais de n√£o estar sendo ouvido n√£o √© mesmo? Agora n√£o tem desculpa pra gente n√£o se ouvir. √Č bem legal mesmo. Muito bom, estou adorando! Legal demais, muito bom.

ZIMAK: Eu to sentindo falta do enquadramento peculiar do chefe.

OATIX: √Č verdade, com o perd√£o da sinceridade, aquele √© incorrig√≠vel.

ZIMAK: Logo ele que fez aquela cartilha de boas práticas nas videochamadas... Não cumpria uma vírgula da própria cartilha...

OATIX: Pois é...

NORGU: Eu dei alguns toques nele, mas ele sempre d√° um jeito de achar um √Ęngulo estranho, no fundo ele gosta, n√£o consegue abrir m√£o.

GEMMA: Vai ver ele quer aparecer...

NORGU: Pode ser

OATIX: Ou é aquele papo de "vou gerar crises para motivar a criatividade da equipe"

ZIMAK: Putz, nem me fale.

NORGU: Pelo menos uma vez por ano podemos marcar um encontro assim, o que acham?

GEMMA: Sim, precisamos fazer isso mais vezes, com certeza.

NORGU: Vamos marcar sim, só não sei se a melhor opção é repetir o lugar. A bebida tá demorando demais.

GEMMA: Sim, muita demora.

OATIX: (olha o relógio) Faz um bom tempo que pedimos já.

ZIMAK: Estranho, olha aqui o comentário na internet. "Atendimento mais rápido da minha vida. Garçons profissionais e comida excelente"

NORGU: Garçons profissionais? Seria profissionais de circo?


( gargalhada coletiva)

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PARTE 5


Oatix dobrou pacientemente as mangas da camisa social. Zimak puxou o celular mais para perto de si. Gemma olhou para os lados.


GEMMA: Gente, o pessoal n√£o costuma se atrasar. Ser√° que aconteceu alguma coisa?

NORGU: Não costumam se atrasar virtualmente né? Agora que estamos conhecendo a faceta presencial. Espero que não atrasem demais. Não posso demorar muito. Daqui vou direto fazer a manutenção de uma rede, tenho dois projetos pessoais para programar e uma empresa pra rodar.

OATIX: Eita! Não sei como você dá conta disso tudo. A Disguise já me toma tempo suficiente.

NORGU: √Č pr√°tica, quando engata tudo que tem que fazer acaba indo.

OATIX: E a empresa, como t√° a sua empresa?

NORGU: Cara, não podia estar melhor. Estamos crescendo demais. 20 funcionários. Na liderança, eu e meu sócio. Te falei que estou com um sócio agora né?

OATIX: Sim, você comentou uma vez.

NORGU: E pensar que tudo começou numa viagem ao Havaí... Viagem ótima... Vocês precisam viajar pra lá um dia, sério... Mas independente da beleza do lugar, olha a minha sorte: naquele avião, um japonês sentou do meu lado. Conversamos a viagem inteira, e por alguma coincidência estranha, percebemos que tínhamos habilidades complementares. Estávamos alinhados com os mesmos valores. Putz, praticamente fechamos a parceria ali. Viramos sócios e grandes amigos também. Fundamos a primeira empresa de viagem virtual do hemisfério sul. Vamos começar a vender nossos pacotes em breve, já está tudo engatilhado, quase saindo.

GEMMA: Legal, é bom quando as coisas se encaixam assim.

ZIMAK: Interessante... voos para lugar nenhum?

NORGU: Tava demorando a ironia.

ZIMAK: √Č s√≥ uma observa√ß√£o... Viagem √© uma das poucas coisas que eu ainda gosto de fazer pessoalmente.

NORGU: Tudo bem, respeito sua vis√£o. Mas o que voc√™s tem que entender √© que o p√ļblico em geral n√£o t√° pensando assim. N√£o √© o que mostram os n√ļmeros. Eu pesquiso h√° anos o mercado de viagens. Voc√™s precisam se atualizar, porque... S√≥ um minuto... vou chamar outro gar√ßom para ver se acelera essa nossa bebida.


Norgu levanta a mão. Vários garçons passam atarefados, ignorando a solicitação. Atrás dele sopra um vento gelado na altura do pescoço.


GARÇOM: Calma, eu estou de volta. As coisas sempre chegam no devido momento. Essa noite é bem especial pra vocês não é mesmo? Festa de fim de ano da empresa?

ZIMAK: Isso.

NORGU: Sim.

GARÇOM: Certo, aproveitem! Boa sorte!


O gar√ßom posiciona um balde de gelo no centro da mesa. Abre a garrafa de cerveja envolta em flocos glaciais cinematogr√°ficos e serve oscilando a altura do jato para atingir a propor√ß√£o ideal da espuma. Repousado na bandeja, est√° um copo d¬ī√°gua com gelo e lim√£o praticamente transparente. Era poss√≠vel sentir a refresc√Ęncia com os olhos. A sinestesia ao alcance de todos. P√īs um guardanapo espesso de alta absor√ß√£o na base do copo, de modo que pudesse resistir a pelo menos 40 minutos de exposi√ß√£o sem murchar.


GEMMA: Eu estou deslumbrada com esse tratamento de primeira classe, esse cuidado todo. Devia ter pedido alguma coisa também.

GARÇOM: Claro, fique à vontade. Aceita uma sugestão da casa?

GEMMA: Uma bebida?

GARÇOM: Sim, um blend de chá refrescante de fabricação própria.

GEMMA: Por favor, pode trazer!


O garçom pisca com o olho e faz um som de click com a língua. Se retira rápida e precisamente como se tivesse entrado por um alçapão secreto.

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PARTE 6


GEMMA: Lembrei tamb√©m de uma viagem que fiz h√° um tempo... interc√Ęmbio no Canad√°... como isso foi importante pra mim, voc√™s n√£o t√™m ideia... Depender de falar ingl√™s pra viver, trabalhar em hostel... Aprendi demais! Recomendo muito, como experi√™ncia de vida, sabe. Voc√™s nunca foram n√©? (negam com a cabe√ßa)

GEMMA: Mesmo, acho que todo mundo tinha que passar por isso uma vez na vida. Ainda mais pra mim que sou uma pessoa muito expressiva, valeu muito à pena. Mas tem que falar, tem que querer se comunicar.

ZIMAK: Acho que você é a pessoa mais fluente em inglês aqui da "Disguise".

GEMMA: Sim! Os aprendizados foram para a vida toda. Foi nessa √©poca que eu tive certeza de que ia trabalhar com programa√ß√£o tamb√©m. Percebi que eu podia unir meu lado t√©cnico com a minha facilidade de comunica√ß√£o. Era tamb√©m uma excelente chance de trabalhar em qualquer lugar do mundo, prolongando essa sensa√ß√£o boa e desafiante de ser meio n√īmade, vez ou outra morar num pa√≠s diferente, trabalhando √† dist√Ęncia. Sempre tem lugar pra um bom programador.

OATIX: Muito legal. E você ainda tá marcando os países que visitou?

GEMMA: Sim! você lembra ?!

OATIX: Como eu ia esquecer? Nas videochamadas, ao fundo, sempre víamos aquele mapa-mundi na sua parede, com o "x" nos países que você já conheceu.

GEMMA: Exatamente! Sou desbravadora do mundo! √Č bom saber que pisei em v√°rios pa√≠ses, em v√°rios continentes. √Č bom ter amigos em qualquer lugar. √Č reconfortante.

ZIMAK: E essas amizades continuam? Ou só duram enquanto você fica no país?

GEMMA: Continua, claro! Sempre nos falamos nas redes sociais. Amizade sempre soma. Meu n√ļmero de amigos no "Wastebook" √© uma curva ascendente. √Č muito bom, muito legal.

ZIMAK: J√ļlia e Greg s√£o as raridades soci√°veis dessa empresa...

NORGU: Agradeço o elogio.

GEMMA: Idem, querida! Muito obrigada!

ZIMAK: Mas em termos de seguidores a J√ļlia √© imbat√≠vel. Eu sempre acho engra√ßado o susto que as pessoas levam quando descobrem os n√ļmeros astron√īmicos das redes sociais dela. De uma hora pra outra √© como se mudassem o tratamento contigo, depois que sabem de seu status de influencer. Ficam um pouco assustadas, acuadas... Aquele "shift" na cabe√ßa, quando voc√™ passa de uma pessoa comum a algu√©m especial. E essa m√°gica se d√° por crit√©rios quantitativos. Os n√ļmeros √© que te d√£o valor.

GEMMA: Pois é, mas é bobeira... Todo mundo pode crescer uma rede social se cultivar bem. Todos somos iguais.

NORGU: D√° um workshop pra gente, J√ļlia.

GEMMA: √Č uma ideia! Voc√™ pode propor pro chefe hein? Ele ouve as coisas que voc√™ fala.

NORGU: Vou falar com ele sim. Mas provavelmente eu não vou poder comparecer. Você sabe que minha agenda não tem pausa.

GEMMA: Tudo bem, mas sei que torceria por mim √† dist√Ęncia

NORGU: Sem d√ļvidas! O que a gente quer √© que a equipe esteja a todo o vapor, com todo o seu potencial em pr√°tica. Voc√™ s√≥ trabalha na Disguise?

GEMMA: Sim.

NORGU: Então, po! Pelo que vejo você faz poucas horas líquidas lá. Aproveita esse tempo aí! Poderia estar crescendo bem mais!


O guardanapo de alta absor√ß√£o que mantinha o copo de Zimak em encanto de asseio come√ßa a alagar. Zimak contrai as m√£os por baixo da mesa e dissipa tens√Ķes com os dedos m√©dio e indicador arranhando a coxa.


O garçom recolhe discretamente da despensa os guardanapos de melhor qualidade , coloca dentro da gaveta do armário de louças e fecha com uma chave-mestra ocultada nas mangas.

. . .

PARTE 7


NORGU: J√ļlia, a√≠ vai um desafio: Se voc√™ tivesse que escolher entre amizade e conhecimento, o que voc√™ escolheria?

ZIMAK: L√° vem ele com os joguinhos...

NORGU: (risos) Claro, é divertido po!

GEMMA: Mas n√£o tem como te responder assim, n√£o tem como separar as duas coisas. A amizade faz a gente aprender e o aprendizado leva a mais amizades.

NORGU: Vai J√ļlia, escolhe apenas um, vamos prezar pelo racioc√≠nio bin√°rio um pouco.

GEMMA: A gente já faz isso demais, não? Por quê fazer mais disso agora?

NORGU: Porque é divertido, não estamos aqui basicamente pra nos divertir?

GEMMA: Então me responde você, como você vê os relacionamentos na "Disguise"?

NORGU: Como assim?

GEMMA: Você acha que é possível construir um laço verdadeiro no ambiente de trabalho?

NORGU: Claro, o que estamos fazendo aqui? Eu considero vocês amigos, com certeza. Beberia todo o fim de semana com vocês, se vivêssemos numa época um pouco menos digital. Mas podemos fazer dessa experiência um gatilho pra alguns encontros mais lights assim, isso pode fortalecer ainda mais essa rica amizade. Fortalecer o espírito de equipe ajuda demais, ajuda muito.

OATIX: Boa, vamos colocar essa ideia pra funcionar sim.

NORGU: Sim, podemos variar, nos encontrar fora das plataformas da empresa, pra alimentar esse contato. Uma vez ou outra, fim de tarde, rapidinho... dá pra gente se ver sim. A Manu pode finalmente deixar a timidez de lado e nos mostrar também aqueles artesanatos que ela posta no "Glinchagram".

OATIX: Que artesanato?

GEMMA: Você faz artesanato?

ZIMAK: (voz trêmula) Às vezes... quer dizer... são só alguns objetos de decoração.

GEMMA: Olha! Eu sempre achei a Manu a mais high-tech de todas! Jamais imaginei ela fazendo trabalho manual. Mostra pra gente?

ZIMAK: Mas como você descobriu isso, Greg?

NORGU: No "Glinchagram" ora, n√£o acabei de falar?

ZIMAK: Mas a minha conta é fechada.

NORGU: Linda, não é à toa que eu virei o chefe de programação do nosso setor. Nenhum perfil é privado pra mim.

ZIMAK: Você está confessando que invadiu a minha conta?!

NORGU: N√£o, claro que n√£o. Eu tenho um bot que destrava pra mim tudo que √© rede social privada. √Č uma decis√£o gen√©rica, n√£o tem nada a ver contigo especificamente. √Č apenas por raz√Ķes de trabalho. Imagine se eu n√£o pudesse navegar livremente na internet? Pra quem quer aprender mesmo e se diferenciar, tem que estar a par de tudo. Imagina o tempo que eu gastaria pedindo autoriza√ß√£o... Depois at√© a pessoa ver que eu pedi autoriza√ß√£o e me autorizar a ter acesso √© tempo demais, burocracia demais. Minha rotina j√° √© muito apertada! L√≥gico que eu n√£o indico que qualquer pessoa fa√ßa isso, vamos deixar bem claro... Tem que ter bom senso. √Č como um terapeuta que ouve no consult√≥rio v√°rios relatos pessoais. Ele teve acesso privilegiado √†quilo, n√£o vai usar pra outras raz√Ķes que n√£o sejam profissionais. Pelo menos √© o que se espera, √© o bom senso.

ZIMAK: Mas voc√™ acaba de dar uma informa√ß√£o privada minha como se fosse p√ļblica.

NORGU: √Č besteira, s√≥ comentei porque me veio √† mente agora, pra puxar assunto. N√£o lembrava que sua rede era privada.

ZIMAK: Se está escrito privada é porque é privada.

NORGU: Não te falei que no meu computador não tem mais essa diferenciação? Os bots "desprivatizam" tudo pra mim. Mas desculpa se te incomodou. Qual o problema po? Seu artesanato é muito bom! Você deveria mostrar.

ZIMAK: Se eu quisesse mostrar eu tinha colocado no p√ļblico.

NORGU: Se você não quisesse mostrar você não colocava em lugar nenhum.

ZIMAK: Greg, eu não gostei disso. Você foi antiético comigo.

OATIX: Calma gente, sem briga galera, sem briga.

ZIMAK: O que mais eu posso esperar de você agora? Que outras coisas sabe de mim?

NORGU: Relaxa, cedo ou tarde tudo o que voc√™ coloca na internet aparece. √Č a lei.

GEMMA: Mas concordo com ela, se é privado, tinha que ficar no privado.

OATIX: Galera vamos mudar de assunto. Amanhã já entramos de férias... Vamos falar de coisa boa, o que vão fazer de bom?

NORGU: Se você não tem nada a esconder é só relaxar. Relaxa os ombros, respira. Eu não tenho mais nenhuma informação extra de você, Manu. Tenho mais o que fazer, meu dia é lotado, não tenho tempo de te stalkear. Foi alguma coisa que apareceu na minha timeline e lembrei agora, foi só pra puxar assunto.

ZIMAK: Você sempre faz isso.

NORGU: Isso o quê?

ZIMAK: Você sabe, você sempre faz isso.

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PARTE 8


Os garçons se mobilizam para tirar as placas de “reservado". Desfaz-se a longa mesa formada pela emenda de várias mesas quadradas enfileiradas.


GARÇOM: Com licença, queridos, só explicando para vocês. Nossas reservas são canceladas automaticamente depois de 1 hora sem o comparecimento. Se os seus colegas vierem, terão que ficar na fila e ocupar mesas separadas, ok? Mas para vocês não muda nada, vocês 4 podem ficar tranquilos nesta mesa.


Poderiam simplesmente sair, mas havia uma for√ßa de suc√ß√£o que os mantinha praticamente colados √†quela mesa. Em c√Ęmera lenta, com os gestos congelados, tomavam longos e demorados goles. Uma luta contra resist√™ncias misteriosas. A presen√ßa lhes escapava por pacotes de dados indecifr√°veis. A temida sensa√ß√£o de estar sem ser. Reconhecer-se bem mais virtual que real. Saudade da luz das telas nutrindo as retinas. Saudade do poder de trocar de aba. Estavam como insetos noturnos, levados por rotas indesej√°veis, porque n√£o sabiam reconhecer a verdadeira luz da lua.


O garçom assistia à cena com atenção. Pediu que apressassem o preparo na cozinha. Levou o chá com especiarias e bateu o fundo do copo propositadamente com certa força sobre o tampo da mesa, para que o barulho os tirasse do torpor. Não foi suficiente. Com a bandeja metálica vazia, o garçom refletiu as luzes dos lustres e direcionou para a a altura da visão dos 4. Eles coçaram os olhos e foram voltando à si.


Gemma foi a pioneira da retomada, com um sorriso rasgado, lutando contra a constipação emocional.

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PARTE 9


NORGU: Então galera, como vai ser? Vocês vão ficar?

GEMMA: (finge que est√° ouvindo e sorri com certa estranheza) Ahm? Desculpa, n√£o estava ouvindo. Tava prestando aten√ß√£o na m√ļsica ambiente.

NORGU: Eu perguntei se vocês pretendem ficar mais um pouco.

GEMMA: Por mim ficamos. Vamos experimentar a comida. Parece boa!

ZIMAK: Acho que agora deixou de ser um encontro de empresa e passou a ser um encontro de gente. Isso é muito fora da caixa. Vou ficar um pouco mais sim.

OATIX: Se pararmos pra pensar é a primeira vez que isso acontece. De ficarmos em contato assim, só nós quatro.

GEMMA: Aconteceu sim, n√£o lembra do segundo ano de reuni√Ķes online?

OATIX: Ah √©, pode crer. Todos foram saindo da chamada um a a um e s√≥ sobramos n√≥s 4... Verdade. Mas n√£o durou muito tempo... Trocamos uma meia d√ļzia de palavras e sa√≠mos. Foi at√© um pouco constrangedor, a gente mal se conhecia na √©poca.

NORGU: At√© que conversamos bastante para os nossos padr√Ķes usuais. Sempre fomos do estilo "cada um no seu quadrado". Foi ali que a Manu finalmente relaxou no trabalho. Sempre com aquela seriedade militar um pouco assustadora... Foi bom v√™-la sem farda. ( risos)

ZIMAK: √Č, cada vez mais eu tenho vontade de mandar fazer um alvo com a sua cara pra praticar tiro esportivo.

NORGU: Calma Manu, n√£o quis te ofender.

ZIMAK: Claro que quis, Greg√≥rio. Voc√™ sempre faz isso. N√£o s√≥ espalhou pra todos tudo aquilo que eu n√£o queria espalhar, como inventou v√°rios detalhes que nunca aconteceram. Se coloca como o maior entendedor de todas as coisas do mundo, faz memes depreciativos e fofocas expondo nossos defeitos pra pessoas que voc√™ sabe que v√£o espalhar mais ainda. Voc√™ √© um manipulador. Voc√™ quer se manter no topo, voc√™ n√£o tem escr√ļpulo.

NORGU: Que arsenal de acusa√ß√Ķes, ahm? N√£o sei se eu mere√ßo isso. Eu achei que estava te enturmando. Voc√™ sempre foi t√£o fechada no escrit√≥rio, precisava de uma m√£ozinha, eu sentia isso.

ZIMAK: E todas as suas histórias falsas sobre todos foram pra enturmar quem? Ou pra manipular a narrativa e sempre sair por cima? Ou para ter controle, para diminuir os outros?

OATIX: Calma gente, isso aqui é uma confraternização. Vamos esquecer essas mágoas. Já passou.

NORGU: Então me conta pelo menos uma história que eu inventei. Você ironizou os meus "voos para lugar nenhum", mas é você que não vai aterrissar em nada dessa forma. Isso é paranoia, eu só abri o caminho pra te enturmar. E te ajudei. Se não fosse por mim, você corria o risco até de sofrer algum bullying , já começava a ser chamada de travadinha. Eu cortei com brincadeira, fiz os memes sim, mas isso só tornou o que poderia ser ofensa algo mais leve, pra todos se divertirem.

ZIMAK: A custa de me desmerecer.

NORGU: Desmerecer? Me fale ent√£o, o que eu desmereci?

ZIMAK: Voc√™ sempre faz isso tamb√©m. Voc√™ √© um programa de computador! Voc√™ √© mais previs√≠vel do que gostaria de ser. Quando toca em determinados assuntos, reage como que por condicionamentos e organogramas mape√°veis. Quer que as pessoas citem o √≥bvio e insiste para cansar o oponente. Voc√™ nunca vai admitir suas falhas de car√°ter. E sempre tem uma resposta pronta na ponta da l√≠ngua, brilhantemente pensada, com floreios ret√≥ricos, explica√ß√Ķes perfeitas, cita√ß√Ķes de livros, eloqu√™ncias. Adora domar a plat√©ia com seu entretenimento barato. E o pior, consegue.

NORGU: Eu tenho uma dica para você: se valoriza mais, cara! Cada um tem sua opinião e precisa defender ela custe o que custar, a vida é assim mesmo. Se você não aprendeu isso não sei o que está fazendo nesse planeta. Se eu me expresso melhor que você isso deveria ser motivo de orgulho pro nosso time e não de inveja. Eu deveria ser uma inspiração pra você.

ZIMAK: Eu jamais invejaria você, Gregório, você sabe disso. Eu te acho um profundo impostor.

GARÇOM: Com licença, mais uma dose?

NORGU: Por favor, mestre. Vai Manu?

ZIMAK: Se eu quiser eu vou pedir, Gregório.

NORGU: Tudo bem, então pronto. Vê duas doses pra mim.

Com Norgu de costas, o garçom olha para Zimak e faz um gesto com as mãos simulando um corte no pescoço, com olhos arregalados , lábios inferiores contraídos pra baixo, e veias do pescoço expandidas.

. . .

PARTE 10


GEMMA: √Č verdade...

ZIMAK: Como assim?

GEMMA: To concordando contigo, Manu. Também acho que o Greg exagera.

NORGU: Sério? Vocês vão fazer um combo pra me derrubar? E sem nenhum gole de álcool? Vocês me surpreendem… Não querem pedir algo pra beber mesmo?

ZIMAK: Se j√° t√° pegando fogo sem √°lcool, imagina com.

GEMMA: Ninguém se sente à vontade de ficar perto de você, na verdade. Você sempre quer mostrar que sabe muito mais que todos.

ZIMAK: E precisamos reconhecer que muitas vezes voc√™ sabe muito, n√£o tem como negar, mas voc√™ p√Ķe tudo isso a perder ao humilhar as pessoas. Voc√™ fica pequeno, fica nojento...

NORGU: (deboche) Ok, to ouvindo as fake news!

GEMMA: E faz quest√£o de ficar sondando a fragilidade dos outros para expor em p√ļblico no momento mais humilhante poss√≠vel.

NORGU: Vocês surtaram! Quando eu fiz isso? Me cita um caso, só um caso concreto!

GEMMA: Deixa o trabalho pesado pros outros, sempre acha uma desculpa para trabalhar menos e parecer que está trabalhando mais, pra quem vê de fora. O chefe sempre acredita em você porque você envolve num papo legal. Mas você sempre inventa as histórias mais mirabolantes para sair por cima. E nós sempre saímos prejudicados.

NORGU: Eu quero um caso concreto de quando eu fiz isso, que dia, que horas, em que contexto.

GEMMA: √Č √≥bvio que eu n√£o anotei o dia e a hora.

NORGU: Claro que n√£o, porque nunca aconteceu.

ZIMAK: Você está ouvindo o que a gente tá falando? A pior forma de negação é não olhar o óbvio.

NORGU: Tá bom, vamos pedir uma terceira opinião. Sérgio, você que sempre foi um cara sensato e que eu respeito pra caramba. Alguma vez já fiz essas coisas que elas estão falando?

OATIX: Olha...

NORGU: Pode falar, eu to aberto a críticas.

OATIX: Greg... Acho que o que elas estão querendo dizer é que você, como se diz, "já chega com o pé na porta". Mas você é um cara legal, tem uma assertividade muito boa. Vamos falar de outra coisa, esse assunto não vai dar em coisa boa. Vocês já viram as fotos do meu Husky Siberiano? Olha como ele cresceu. (mostra fotos no celular)

GEMMA: Que lindo! Eu adoro Husk Siberiano!

OATIX: Eles têm uma pelagem muito grossa pra suportar o frio, mas se adaptam ao calor também. São versáteis. E meio individualistas também. O meu já fugiu de casa uma vez... Eles tem essa coisa de bicho solto, exploratória.

GEMMA: Hum... Já me identifiquei. Dizem que o cachorro é um reflexo do dono. Você se sente assim também?

OATIX: Assim como?

GEMMA: Com vontade de fugir em alguns momentos.

NORGU: (riso debochado) O Sérgio? O cara mais estável que conheci? Que eu saiba ele quer permanecer, não sair.

GEMMA: Vai ver uma parte dele é Husky. Uma parte que ele nem sabe.

OATIX: Não gente, não é por nenhuma razão especial, eu só gosto mesmo. Foi de uma ninhada de um cachorro da minha cunhada. Olha só essa aqui de perfil.

GEMMA: Bela foto! Você que tirou?

OATIX: Sim, mas o mérito aqui é do modelo. Eles são muito bonitos, fotografam perfeitamente. Olha aqui ele na praia. A gente tem que sair com ele duas vezes ao dia, o bicho tem muita energia pra gastar.

ZIMAK: Você fez um "Glinchagram" pra ele?

OATIX:Sim, claro, segue l√°: joy_dog467889

ZIMAK:J√° to seguindo.


Norgu tira o celular da m√£o de Oatix.

. . .

PARTE 11


NORGU: Peraí, sem ficar em cima do muro, Sérgio! Eu preciso que fique claro, sem filtro, sem rodeio. Eu sou ou não sou a pessoa mais escrota da empresa?

OATIX: Que isso, Greg... J√° te disse o que acho.

NORGU: Numa escala de 0 a 10, o quanto você acha que o que as garotas disseram é verdade?

OATIX:7?

NORGU:7?! 7 é muito... Então você concorda com elas?

OATIX: De certa forma sim.

NORGU: Voc√™s combinaram isso? √Č uma pegadinha?

OATIX: Não é minha intenção te incomodar, mas você insistiu...

NORGU: Voc√™ consegue me citar algo que eu tenha feito e tenha te incomodado? Algo concreto, por favor, sem acusa√ß√Ķes generalizadas.

OATIX: H√° umas 2 semanas est√°vamos na sala virtual de reuni√Ķes 6WB. Discut√≠amos a vers√£o beta do "Jogo do carteiro". Est√°vamos n√≥s 4 e mais umas 30 pessoas. O chefe estava presente.

NORGU: Claro, e o que de t√£o absurdo eu fiz?

OATIX: Sempre me impressionou a maneira com que você não respeita a autoridade do chefe e mesmo assim ele te respeita.

NORGU: (risos) Boa! Claro que eu respeito, po. √Č que a minha sinceridade ajuda ele a ser mais sincero tamb√©m, √© um cont√°gio positivo, eu estou ajudando.

ZIMAK: Eu gosto da sua coragem, é uma virtude. O problema é que ela não é usada nem na hora nem no momento certo.

NORGU: Ah t√°, voc√™ me manda um zap ent√£o com uma figurinha de "autorizo" quando existir a conjuntura ideal. Para todas as decis√Ķes importantes da minha vida eu vou esperar o seu aval super inteligente.

OATIX: Não é isso que ela quis dizer, Greg...

NORGU: Tá bom, continua aí Sérgio, o que mais aconteceu na reunião?

OATIX: A gente fez uma votação pra saber em que momentos, na versão beta do" jogo do carteiro", o carteiro se assumiria sem máscaras e suportaria toda a pressão social de ser ele mesmo.

NORGU: Sim.

OATIX: N√≥s est√°vamos sem dormir h√° uns 3 dias, programando aquele jogo. N√≥s quer√≠amos uma solu√ß√£o mais simples, voc√™ sabia disso. Porque nossa sa√ļde j√° estava come√ßando a ficar prejudicada. Todos est√°vamos visivelmente cansados. Dava para ver as olheiras. E com os pagamentos atrasados em 2 meses por causa da crise. Precis√°vamos de uma sa√≠da mais concisa, mais inteligente, pra evitar um poss√≠vel burnout.

NORGU: Eu lembro, foi uma fase difícil mesmo.

OATIX: Então, mas você votou a favor de trabalharmos por mais um mês praticamente sem dormir.

NORGU: Ah cara, foi mal. Infelizmente naquele momento a gente precisava desse gás pro jogo ser lançado até o fim do ano. Eu estava pensado como dono naquele momento. Estava pensando nos lucros e consequentemente na gente, claro, porque sabia que esse sacrifício valeria, que o jogo seria um sucesso, principalmente se lançado logo. O que vocês precisam entender é que nós estamos juntos. Que tudo o que eu faço é pro bem de vocês. Eu lembro que nesse dia eu dei até um "puxão de orelha no chefe". Dei uma xingada de leve, falei que ele tinha que dobrar nosso salário depois disso. Com certeza todos queriam falar isso, e fui eu que verbalizei. Foi importante para descomprimir a tensão daqueles dias.

OATIX: Sim, mas porque então votou contra o que tínhamos combinado entre nós antes da reunião?

NORGU: A gente não tinha combinado tanto assim, foi só uma conversa informal, ninguém assinou nada...

OATIX: Mas todos concordaram em votar por uma solu√ß√£o √ļnica no jogo, que o personagem se revelasse pra sociedade s√≥ no final e n√£o v√°rias vezes ao longo do jogo. Isso multiplicaria nosso trabalho por 1000.

NORGU: Ok, mas o que era melhor para a experi√™ncia do usu√°rio no jogo? O qu√£o interessante ia ser toda a multiplicidade e complexidade de escolhas e revela√ß√Ķes?

OATIX: Excelente, se nós tivéssemos o triplo da equipe. Nós não aguentávamos mais, Greg. Você não tem noção de que estávamos em exaustão extrema, à base de remédios pra ficar de pé naquela reunião? Todos concordamos em votar contra. Em achar um jeito digno de solucionar o jogo de maneira criativa e interessante, mas sem que precisássemos acabar com nossas vidas por isso.

NORGU: Eu acho que teve um certo exagero nessa situação. A gente aguentava dar um gás maior, eram só mais alguns poucos dias, o ritmo estava muito bom.

ZIMAK: E o mais curioso √© que justamente nesse per√≠odo em que demos o sangue, voc√™ conseguiu algumas licen√ßas de sa√ļde. Estranhamente v√≠amos voc√™ saud√°vel nas videochamadas, mas ningu√©m viu voc√™ mover um dedo para nos ajudar.

GEMMA: Eu tive a sensa√ß√£o de que voc√™ votou contra porque j√° tinha na cabe√ßa um jeito de n√£o precisar p√īr a m√£o na massa. Achou um jeito de deixar o trabalho nas nossas costas.

NORGU: Claro que n√£o! Eu trabalhei tanto quanto voc√™s! √Č que meu caso √© espec√≠fico. Eu tenho v√°rios outros servi√ßos fora tamb√©m, voc√™s sabem disso... Pelo meu know-how muitas vezes a minha presen√ßa brevemente no local pode alavancar muito a produtividade, √© interessante pra empresa me manter l√°, mesmo com algumas limita√ß√Ķes. Mas √© l√≥gico que trabalhei muito tamb√©m, tanto quanto voc√™s. √Č que a gente acha que a grama do vizinho √© sempre mais verde, a gente n√£o v√™ o trabalho que d√° para as coisas acontecerem.

OATIX: E outra coisa, fora isso, na hora da votação, por mais que explicássemos pro chefe a nossa situação, você tomava a dianteira na argumentação, usando sempre o "nós" nas suas frases. No fundo estava falando por si só e não pelo que tínhamos combinado como equipe. Suas palavras eram radicalmente contra nós e no entanto pareciam cristalinamente coletivas pelo jeito que você construía o seu discurso. Tanto que as vezes que tentamos interromper e explicar o nosso lado, soou um pouco sem verdade aos ouvidos do chefe. Você falando por nós era muito mais convincente e prendia mais a atenção.

NORGU: Que isso Sérgio... Todos falaram naquele dia, não fui só eu.

OATIX: A maior parte do tempo foi você. Eu fiquei perplexo com a sua capacidade de contradizer tudo aquilo que tínhamos combinado como equipe, como amigos. E o que mais doeu foi ver nos dias seguintes que tudo o que você defendeu com todo o afinco, você não moveu um dedo para executar.

NORGU: Não sabia que você era tão sensivelzinho assim, cara... Vou passar a pegar mais leve contigo. Vou até falar com o pessoal pra não te sobrecarregar demais.

ZIMAK: Tá vendo, é disso que estamos falando, você pega um momento de fraqueza e arruma um jeito de expor isso de maneira humilhante.

OATIX: Deixa, é o jeito dele.

NORGU: Gente, eu estou tentando fazer o melhor possível, eu disse que ia pegar leve com o Sérgio, jamais minha intenção foi a de humilhar.

GEMMA: E mesmo depois da licença você saiu mais cedo todos os dias... Não trabalhou em nenhuma das possibilidades do jogo... Parece que defendeu aquilo porque sabia que não era você que ia se ferrar trabalhando.

NORGU: Olha, não sei com quem vocês andaram falando, e tal. Tem muita gente mal intencionada naquela empresa, que planta fofocas pra destruir os outros.

ZIMAK: Tipo você?

NORGU: Vocês estão dizendo que eu não cumpro as coisas que falo?

ZIMAK: Exatamente isso.

. . .

PARTE 12


GARÇOM: Perdão senhores, gostariam de pedir a janta?

NORGU: Com certeza, mestre. Mas n√£o sei se meus colegas v√£o querer. J√° est√£o me jantando aqui...

GAR√áOM: √Č mesmo? Rolou uma discuss√£o b√°sica?

NORGU: Exatamente. Fora de propósito né?

GAR√áOM: √Č comum. Como gar√ßom, nunca vi uma conversa, num tempo m√©dio ou longo se manter s√≥ amig√°vel. Nem preciso escutar. √Äs vezes a gente percebe pela linguagem corporal mesmo. Sempre tem momentos de embate, mesmo sendo uma confraterniza√ß√£o. N√£o se sinta premiado, sempre acontece...

OATIX: E você que observa as mesas por todo esse tempo, tem alguma sugestão de alguma maneira de voltarmos para um modo mais tranquilo? Tipo como estávamos no início?

GARÇOM: Vou ser bem sincero. Vocês ultrapassaram uma barreira que eu não sei se tem volta. Mas tenho duas dicas básicas que podem melhorar muito a experiência de vocês. A primeira é pedir o prato do dia, que está maravilhoso. A segunda é mover a mesa.

GEMMA: Como assim mover a mesa?

GARÇOM: Às vezes pra gerar dinamismo e novas formas de comportamento, nada como mudar um pouco a disposição das coisas. Por que a gente não roda um pouco a mesa?

NORGU: Rodar?

GARÇOM: Todo quadrado é também um losango! Se girarmos um pouco essa mesa fica fácil perceber isso. Por favor, levantem-se um instante, pode ser? Ok... Pronto... Abracadabra! Agora vejam como o cenário está diferente! Vou propor um desafio a vocês. Troquem de lugar na mesa, olhem para a pessoa que está à sua frente e falem a primeira coisa que lhes vier à mente, topam?

NORGU: Ok, vamos l√°.

GEMMA: Cara, obrigada. Você é diferenciado, vou te dar 5 estrelas aqui. Parabéns mesmo! Quem me dera que os garçons fossem todos assim.

GAR√áOM: Que isso! Essa ideia nem √© minha, vem de muito tempo. Joguei muito esse jogo quando pequeno. √Č um jogo m√°gico. Transformador.

ZIMAK: Est√°vamos mesmo precisando de uma pessoa de fora pra desviciar essa conversa.

GARÇOM: Aproveitem! Vou pedir 4 pratos do dia pra vocês! Vou solicitar também o aumento da iluminação nessa área do salão para que se enxerguem um pouco melhor. E até mais!


Na nova disposição da mesa em losango, Norgu sentou na antiga cadeira de Gemma, Gemma sentou na cadeira de Zimak, Zimak na cadeira de Oatix e Oatix na cadeira de Norgu.

. . .

PARTE 13


NORGU: (...)

ZIMAK: Oi?

GEMMA: Eu n√£o entendi muito bem, sua voz t√° um pouco travada pra mim.

NORGU: Mas vocês estavam balançando a cabeça... Eu to há meia hora falando sozinho, é isso?

OATIX: Deu pra pescar alguma coisa, mas tinha muito ru√≠do, sua voz ficou cortada. √Č coisa da minha cabe√ßa?

ZIMAK: Não, muita interferência aqui no salão.

NORGU: Vocês tão de sacanagem comigo né? Vocês estão fingindo?

ZIMAK: Não, eu também estou com uma dificuldade enorme em te ouvir Greg, mas achei que fosse um pouco do meu ódio que estava me deixando surda.

GEMMA: Sabe o que é mais estranho?

OATIX: Diga.

GEMMA: Estou com a impress√£o de que entendo a Manu, o modo de pensar dela, com uma clareza que me assusta.

ZIMAK: Sério? Eu estou sentindo isso em relação ao Sérgio.

OATIX: E eu em relação ao Gregório.

NORGU: Gente, o que está acontecendo? O garçom colocou droga na bebida de vocês?

OATIX: Você não sente nada, Greg?

NORGU: Sinto. Estou triplamente incomodado. Primeiro por vocês terem me acusado injustasmente, depois por terem se recusado a ouvir a minha réplica e agora essa reação bizarra integrativa e sensitiva como se tivessem passado por uma experiência de santo daime, de quebra do véu das aparências.

OATIX: Mas é exatamente isso.

ZIMAK: Greg, me escuta. Pela l√≥gica voc√™ deve estar conectado com a J√ļlia. Depois que a gente rodou a mesa, voc√™ sentou na cadeira dela. Todos os outros seguiram esse padr√£o. Fa√ßa um esfor√ßo, s√≥ falta voc√™ pra confirmar essa teoria.

NORGU: Conectado com a J√ļlia? Como assim voc√™s est√£o conectados?

OATIX: Sim, olhe pra J√ļlia. Olhe com sinceridade e diga o que voc√™ v√™.

NORGU: Gente, vocês estão me sugestionando. Eu vou acabar enxergando o que o grupo quer que eu enxergue. Que nem aquele experimento famoso onde as pessoas começam a responder o que a maioria está respondendo, por conformidade social, independente da lógica. Daqui a pouco vou começar a ver umas maluquices, porque vocês estão ficando bastante convincentes.

OATIX: Apenas n√£o racionalize tanto. Eu sei que √© dif√≠cil. √Č dif√≠cil pra mim tamb√©m aceitar, mas est√° acontecendo, cara, n√£o d√° para negar. √Č como se eu pudesse enxergar com os seus olhos, √© s√©rio.

NORGU: Bom saber que eu tenho um doador de córnea altamente compatível.

OATIX: Greg, sem compromisso, fale algo sobre a J√ļlia, a primeira coisa que vem na sua cabe√ßa.

. . .

PARTE 14


NORGU: Insegurança, medo, ansiedade.

GEMMA: (riso nervoso). Claro que não! Eu to super de boa agora! Você ficou ofendido com as nossas verdades e quer descontar em mim.

NORGU: Só respondi o que o Sérgio perguntou, ora! Se você não aguenta não tivesse vindo brincar...

OATIX: Calma, vamos fazer assim, cada um fala um pouquinho, pra gente entender melhor o que est√° acontecendo. Deixe o Greg falar primeiro, depois a gente roda no sentido hor√°rio da mesa.

ZIMAK: Se for mentira ou verdade, vamos ver até onde esse momento nos leva.

NORGU: Olha... Se não é a pessoa mais travada que eu conheço falando em se permitir viver. Viu como foi bom ter te enturmado?

ZIMAK: Greg, não me faça desistir. Eu quero acreditar que a gente pode viver uma experiência legal e humana. Por favor, tenha um mínimo de maturidade, por favor.

NORGU: Tá bom, tá bom, eu aceito. Depois não venham me dizer que eu sou individualista e que nunca me sacrifico pela equipe. Vou até adiar um pouco meu próximo compromisso. Só um minuto, vou mandar o zap aqui...

GEMMA: Vai lá então, olha através da "minha janela" e diz o que vê.

OATIX: Nada do que acontecer aqui vai ser gravado ou espalhado. Certo, Greg?

NORGU: Gente, isso √© bem improv√°vel, √© como se eu estivesse realmente dentro da cabe√ßa da J√ļlia. A impress√£o que tenho √© que eu consigo entender muito bem como ela funciona.

OATIX: Greg, voc√™ ouviu o que eu falei? Voc√™ se compromete a n√£o espalhar nada? Vamos dar um voto de confian√ßa a voc√™ por mais que voc√™ n√£o mere√ßa. √Č como se tiv√©ssemos assinado desta vez, ok?

NORGU: Claro, se essa maluquice for verdade eu tamb√©m serei exposto, ent√£o se eu espalhasse algo sobre voc√™s voc√™s poderiam me chantagear com informa√ß√Ķes sens√≠veis sobre mim. Fiquem calmos, nada vai vazar.

OATIX: Que assim seja.

. . .

PARTE 15


NORGU: J√ļlia, as suas amizades... n√£o t√™m sust√Ęncia nenhuma. Voc√™ sabe disso mas nega. Quer acreditar que construiu bons relacionamentos mas nunca na vida se sentiu correspondida. Nunca se sentiu suficientemente amada, e est√° ficando cada vez mais tarde, isso te preocupa... Em voc√™... a esperan√ßa de que o ac√ļmulo de gente preencha a fome insaci√°vel de afeto. Se entope de rela√ß√Ķes f√°ceis, r√°pidas, que supram o v√≠cio de glicose no sangue... H√° tanta gente, tanta coisa, tanta abund√Ęncia, tantos lugares pra onde ir e coisas pra conquistar. Cada dia √© uma nova chance de viver um romance ou uma amizade um pouco mais verdadeira... Enquanto n√£o d√°, acumula, coleciona. Anda curiosa pelas ruas de pa√≠ses e pessoas desconhecidas. Depois de duas ou tr√™s voltas n√£o aguenta mais, pega um trem para qualquer lugar e some. Enquanto ainda n√£o tiver engolido o mundo inteiro sempre haver√° a esperan√ßa de ter alguma parte restante, alguma ilha escondida que guarde o tesouro que voc√™ tanto procura. A vastid√£o do mundo garante a sua busca. No momento queria estar casada mas √© solteira convicta. Queria passar mais tempo na natureza mas gasta a maior parte nas redes sociais. Ama filtros do "Glinchagram". S√£o para voc√™ um elixir de otimismo e beleza. Te distraem da sua incapacidade de chorar. A √ļnica vez que chorou foi aplicando um filtro que transforma suas l√°grimas em flores. Lembrei agora de uma reuni√£o... O quanto me incomodou na √©poca aquela sua rea√ß√£o sem nexo, quando voc√™ riu, depois da not√≠cia do falecimento de um parente meu. Agora posso entender o que houve... Foi pane no seu sistema... N√£o sabia do esfor√ßo que voc√™ fazia pra levantar da cama... Eu te respeito mais por isso sabia? Espero que isso tudo passe.

GEMMA: Ufa!

ZIMAK: Que radiografia foi essa ?!

GEMMA: Pois é. Tem coisas certas aí, mas achei a maioria das coisas bem exageradas e tendenciosas. Ele misturou muita coisa da cabeça dele no meio, criou em cima. Mas quem é o próximo agora? Eu né? Seguindo a ordem... Vamos lá, pra cá, pronto. (risos)

ZIMAK: Isso

GEMMA: Vamos l√°, Manu.

ZIMAK:Tenha misericórdia da sua amiga...

GEMMA: (risos) Tá bom. A gente nem sabe se isso é real, é só uma brincadeira.

. . .

PARTE 16


GEMMA: Você é casada?

ZIMAK: (olhos arregalados) Sou. Por quê?

GEMMA: Legal, n√£o sabia, voc√™ nunca falou nada! Nem postou nada do seu marido. Ele ama as suas tiradas ir√īnicas n√©? Te acha engra√ßada. N√£o te ama tanto, ama mais as suas ironias, voc√™ sabe disso... Mas pra voc√™ √© indiferente, √© ir√īnico. Olha... que interessante... voc√™ n√£o √© distra√≠da! V√°rias vezes me senti ignorada por voc√™ mas voc√™ estava era super atenta, com a vis√£o perif√©rica ligada, com a intui√ß√£o agu√ßada. √Äs vezes voc√™ parece estar s√≥ mexendo nas suas coisas, mas na verdade est√° com a c√Ęmera ligada, filmando o ambiente e vendo em detalhes o que acontece. Muito perceptiva, entende demais as coisas... Observadora... Aprende mais observando do que lendo. Desenvolveu essa defesa porque n√£o consegue confiar em ningu√©m, em absolutamente ningu√©m, nem em si mesma. Voc√™ gostaria que a vida, as pessoas, as coisas, tudo fosse um pouco mais plano. Sem tantos altos e baixos. Isso tornaria as coisas t√£o mais f√°ceis... Odeia a instabilidade do mundo... Planificou-se por dentro com uma ordem admir√°vel, com um empenho pesado de arquivista. Tudo guardado em gavetas emocionais, em caixas mentais. Tudo em seu devido lugar. E seus valores s√£o extremamente definidos e mensur√°veis. Voc√™ segue √† risca, com uma disciplina militar. Seus mandamentos di√°rios, que voc√™ chama de tr√™s "erres" s√£o: "racionalidade, responsabilidade e respeito". Voc√™ √© menos plana do que gostaria. Tem ranhuras, detalhes, marcas. Sua quest√£o de vida mais primordial √© o duplo que h√° em voc√™. Voc√™ tem uma dupla personalidade e sente vergonha disso. N√£o quero te expor demais... mas no trabalho voc√™ √© r√≠gida e met√≥dica. Em casa voc√™ √© el√°stica e criativa. Al√©m do artesanato, faz contorcionismo, yoga e bateria. Sente medo de "escolher a roupa errada" e acabar sendo r√≠gida onde deve ser male√°vel e male√°vel onde deve ser r√≠gida. E a√≠? Bateu alguma coisa?

ZIMAK: Olha, eu vou fazer o seguinte: s√≥ vou escutar t√°? √Č melhor.

NORGU: (risos) Boa, Manu!

ZIMAK: Tem um pouco a ver sim. Mas é uma caricatura... Acho que fantasiou um pouco em cima dos seus esteriótipos sobre mim...

GEMMA: √Č poss√≠vel...

ZIMAK: Próxima vítima... Sérgio!

. . .

PARTE 17


ZIMAK: Pra voc√™ o trabalho √© fundamental, tem uma import√Ęncia cabal na sua vida. Ironicamente, voc√™ tem um mindset que martela o tempo inteiro: "Trabalho √© sofrimento, √© luta, √© sacrif√≠cio, √© subservi√™ncia do eu em rela√ß√£o √†s necessidades do mundo, √© campo minado, um passo em falso pode ser fatal". Isso me faz concluir que voc√™ √© um tanto masoquista, n√£o? Se esfor√ßa pra manter uma apar√™ncia de bom profissional. Vive sob tens√£o de que seja descoberto na insufici√™ncia que julga ter, para os postos que ocupa. √Č esquivo no confronto. Arruma jeitos de n√£o dar a opini√£o para n√£o se comprometer e n√£o manchar a pr√≥pria imagem na empresa. Voc√™ √© calculista com o que fala. Tenta ser neutro e agrad√°vel. Fica ansioso quando no centro das aten√ß√Ķes e usa as hist√≥rias do seu Husky como subterf√ļgio. Escolheu um cachorro que chama a aten√ß√£o, porque √© mais f√°cil desviar o foco de voc√™. Por isso voc√™ gosta tanto de enturmar as pessoas, para que falem e voc√™ n√£o precise falar. Quanto mais falar, mais arrisca p√īr tudo a perder. "Antes ele do que eu". "Eu n√£o posso perder esse emprego, eu n√£o posso falar o que eu acho". Voc√™ √© do tipo passivo-agressivo quando se sente amea√ßado. Como voc√™ √© tranquilo e n√£o exige nada dos outros em situa√ß√Ķes normais, acha que as pessoas t√™m o dever de te atenderem prontamente, sempre, na mesma hora que voc√™ pede e do jeito que voc√™ quer. Porque se voc√™ est√° pedindo, √© porque precisa daquilo incontestavelmente, acha que as pessoas n√£o t√™m o direito de escolher n√£o fazer. √Č muito ofensivo para voc√™. Quando negam voc√™ fica possesso e o que voc√™ tem de pior vem √† tona: em pensamento, acusa as pessoas por tudo o que d√° errado em sua vida. Culpa-as o tempo todo e √© incapaz de perdoar. Acha que a vida n√£o muda, que as pessoas n√£o mudam. Suas queixas mais comuns s√£o que os outros s√£o negligentes, desinformados , desleixados e ambiciosos. Voc√™ jamais fala isso, mas pensa isso o tempo todo e fica se torturando com isso. Acha injusto que em v√°rias situa√ß√Ķes de sua vida as pessoas se queixem que voc√™ √© negligente apesar de gastar tempo estudando os detalhes pra n√£o errar. Que √© desinformado apesar de ler bastante toda manh√£. Que √© desleixado, apesar de se arrumar. Que √© ambicioso quando voc√™ tenta ser conformista. Voc√™ se acha injusti√ßado e quanto mais tenta resolver os seus dem√īnios, mas as pessoas te acusam deles. E a√≠? Algo a ver?

OATIX: Olha, Manu, interessante. Eu até vou pensar com carinho nesse seu feedback, mas tem muita coisa equivocada. Vamos fechar a rodada então? Vamos lá, vamos falar do Greg...

. . .

PARTE 18


GARÇOM: Com sua permissão, senhores... chegou o jantar. ( tira a tampa da bandeja fumegante) Arroz Negro com amêndoas laminadas e filé de salmão!

GEMMA: Uau!

NORGU: √ďtimo, chegou bem na hora da janta.

ZIMAK: T√° com medo, Greg?

NORGU: De quê? Da sobremesa? Acho que vocês nem vão ter apetite pro arremate depois de tanto que se fartaram de mim.

ZIMAK: Temos sim, nessas ocasi√Ķes especiais sempre tem um espa√ßo a mais no est√īmago.

NORGU: Cuidado com a indigest√£o.

GARÇOM: Precisam de mais alguma coisa, mais alguma bebida?

GEMMA: Por mim n√£o...

NORGU: Um vinho cairia bem agora.

GARÇOM: Perfeito, vou trazer um bom vinho para harmonizar.

GEMMA: Hum.. tempero excelente! Muito gostosa a comida!

ZIMAK: Com certeza, exótico na medida certa.

OATIX: Querem comer primeiro antes do meu relato?

NORGU: N√£o, vai l√°, continua po.

OATIX: Lá vamos nós, Gregório... O que eu vejo em você...

NORGU: Mete bala, todo mundo falou, pode falar o que vem à cabeça, não vou levar pro pessoal não.

OATIX: Profundamente arrogante.

NORGU: (risos) Assim eu vou engasgar com a comida! √ďtimo in√≠cio!

. . .

PARTE 19


OATIX: Você tem consciência de ser arrogante e inclusive tem orgulho de ser arrogante... Ataca pra não ser atacado... Acha que se não for arrogante num nível bem alto e logo, não vai conquistar seu espaço, perderá a guerra... Seu maior medo é estar num lugar de tanta subserviência que não possa mais ser arrogante. E se disfarça de discursos em que não acredita. Era exatamente o que eu pensava...

NORGU: No caso, ainda é o que você pensa, mas vai lá, conclui sua fantasia...

OATIX: Voc√™ n√£o se acha, voc√™ tem certeza de que √© melhor que os outros. Sabe que seu temperamento reativo vai te manter nessa posi√ß√£o de respeito, porque as pessoas t√™m certo medo de te contestar. Voc√™ alimenta esse medo nos outros pra se proteger, com rea√ß√Ķes imprevis√≠veis e humilhantes. Lembro de quando eu estava entrando na empresa, na primeira semana. Voc√™ me cortou e resolveu em segundos uma quest√£o que eu vinha tentando resolver h√° horas. Depois fez quest√£o de dizer em p√ļblico que eu era lento e desatualizado. Todos que assistiram √† cena riram de mim, e voc√™ foi chamado todas as vezes seguintes para todos os servi√ßos daquele cliente. Eu ficava encostado, n√£o porque n√£o soubesse, j√° tinha aprendido como fazer, era um detalhe, mas sua performance foi t√£o degradante pra mim que eu tive que ficar anos insistindo em me vender melhor para conseguir aumentar meu posto na carreira. Quando voc√™ me via, me dava um tapa nos ombros como que me vendo como um c√£o maltrapilho.

NORGU: Peraí! Gente, o jogo é pra falar sobre mim ou sobre você? Você só fala de você! Vamos melhorar o foco aí.

OATIX: Eu vou falar de voc√™, deixa eu concluir. Eu te achava cruel, frio, de cora√ß√£o duro. Por todos esses anos achei isso. Mas n√£o √© o que eu vejo nesse exato momento. Voc√™ √© t√£o light, √© de uma fragilidade que chega a me dar pena, e desperta meu instinto de prote√ß√£o. Por dentro voc√™ √© de manteiga, voc√™ √© delicado. O √ļnico modo poss√≠vel que voc√™ consegue se relacionar √© atrav√©s da arrog√Ęncia sen√£o voc√™ n√£o seria ningu√©m. Voc√™ sabe o mal que isso faz, se esfor√ßa pra se desconstruir, mas n√£o consegue. Quer ser uma pessoa melhor, mas n√£o consegue. √Č, meu caro.. pelo menos √© bom saber que voc√™ est√° tentando... Quem sabe um dia, n√£o √© mesmo? Quem sabe um dia n√£o nos brinde com alguma melhora?


Norgu p√°ra de mastigar a comida e seca algumas l√°grimas com o guardanapo.


NORGU: Eu queria acrescentar uma coisa. Vocês lembram do ataque hacker que a empresa sofreu, que boicotou o desenvolvimento do jogo, e encheu as telas de xingamentos e "verdades entaladas na garganta" sobre os funcionários?

OATIX: Como n√£o lembrar?

NORGU: 10:38 do dia 11 de setembro. Meus olhos pesados olhavam pra tela. Estresse, coisas insol√ļveis, ang√ļstia. Tive raiva de mim por ser quem sou. Tive raiva da empresa por exigir de mim al√©m do que eu posso entregar. Tive raiva de voc√™s por me odiarem. Eu precisava extravasar tudo isso de alguma forma. Vazei nossos brainstorms para a concorr√™ncia. Eu queria sabotar, queria mesmo, queria fazer mal para tirar o mal de mim. Queria maldizer a todos at√© que tudo voltasse a ser suport√°vel. Sorteei um nome num gerador de caracteres e assumi uma segunda personalidade para fazer a catarse. Os jogos de tiros e lutas n√£o me eram mais suficientes. Eu precisava de mais, de um impacto destrutivo de verdade. Eu queria causar um rombo naquela empresa! Foi a√≠ que criei o primeiro bug no game. Quando o personagem do jogo, o "cartas marcadas", n√£o tinha mais nenhuma op√ß√£o a n√£o ser se mostrar de fato. Isso destruiria o enredo, porque a gra√ßa do jogo era justamente o "n√£o se revelar", se esconder, se mostrar s√≥ no momento certo. Eu criei o bug da revela√ß√£o infinita. E seria imposs√≠vel jogar dessa forma, totalmente transparente, totalmente aberto.

OATIX: Não sei se entendi, você trabalhou para o NORGU?

ZIMAK: Isso é grave Greg, custaria seu emprego, pense bem no que vai dizer...

GEMMA: Isso seria imperdoável. Pode dar até cadeia!

NORGU: Eu sou o NORGU.

OATIX: Não é possível. Eu não enxergo isso em você. Você está blefando.

NORGU: Está nas suas mãos acreditar ou não. Tem certas coisas que estão tão ocultas na gente que é como se não fossem mais partes de nós. A gente desconecta pra não se machucar no contato direto. O NORGU foi assim. Eu fui NORGU por pouco tempo, depois limpei as provas, desconectei, e não me sinto NORGU por completo. Foi um momento de descontrole, revolta, fraqueza.... O NORGU não era um gênio como vocês acham, eu tinha todo o acesso nas mãos, eu vazei, abri o firewall. Não deu tanto trabalho, não teve mérito. Eu sabia que ninguém desconfiaria de mim.

ZIMAK: Sinceramente eu só consigo acreditar se você provar isso

NORGU: Abre o seu celular, Manu. Estou te mandando agora o vídeo.


Zimak recebe um vídeo com Gregório criando o nick de Norgu e começando o ataque hacker exatamente às 10:38, horário que ficou inesquecível na empresa, no dia do primeiro boicote inesperado.


ZIMAK: √Č inaceit√°vel. Depois disso eu me recuso a ficar na mesma mesa que voc√™. Voc√™ sabe quantas horas de trabalho eu gastei tentando resolver o bug do jogo? E todo o p√Ęnico de n√£o saber quem era o impostor, se era da empresa ou n√£o. A desconfian√ßa generalizada. Foi uma das piores fases da minha vida.

GEMMA: E como você é falso... Ajudando o chefe a descobrir quem teria sido o hacker, era atuação aquilo é? Com seus discursos motivacionais de cooperação, união e ética. Você é muito falso...

OATIX: Realmente, eu esperava tudo de você, menos isso. Vou pedir a conta. Pra mim já deu.

. . .

PARTE 20


GARÇOM: Tchazan! Chegou o vinho!

NORGU: Que timimg , mestre... Bem na hora de afogar as m√°goas ( olhos marejados)

GARÇOM: As coisas sempre aparecem na hora certa.

NORGU: (sorriso sem graça, balançando a cabeça em negativa) De fato.

GARÇOM: E a janta, gostaram?

NORGU: Excelente. Uma das melhores que comi.


Norgu (Gregório) estava com o prato limpo. Nos 3 pratos restantes sobrava um pouco de arroz negro. Uma barata aparece na mesa e começa a circundar os 3 pratos.


GEMMA: Putz, que nojo! Eu que elogiei este lugar, como vocês permitem isso? Garçom, tira esse prato daqui agora!

OATIX: Chama o gerente, eu quero falar com o gerente!

ZIMAK: Que absurdo, gente...


O garçom faz um gesto de "calma" com as palmas das mãos projetadas levemente para frente. Estala os dedos e a barata pára.


GAR√áOM: √Č de pl√°stico gente, √© uma brincadeira para descontrair.

GEMMA: Eu não to achando graça nenhuma. Acho que tudo tem um limite e você já está passando dele. Qual o seu problema? Você tem algum problema?

GARÇOM: Não, me sinto bem , por quê?

ZIMAK: Voc√™ est√° sendo ir√īnico?

GARÇOM: Não, deveria ser?

GEMMA: Você pode parar com isso por favor?

OATIX: Chega, amigo, não é isso que a gente espera de um garçom.

ZIMAK: √Č melhor voc√™ s√≥ servir e ficar relativamente quieto.

GARÇOM: Se vocês entendessem o que está acontecendo veriam que vocês é que estão me servindo e não o contrário.

ZIMAK: Olha, já percebemos que você é louco e quer aparecer com suas plumas desde que chegamos. Chega, tá? Vamos acabar logo com isso. Chama o gerente pra gente. Eu quero um abatimento na conta. Não vou pagar integral depois disso.

GARÇOM: Entendo, vou comunicar ao gerente.


O gar√ßom puxa as mangas que estavam escondidas no colete, formando um traje semelhante a um palet√≥. Cobre com um guardanapo de pano a barata e a faz virar uma cartola de m√°gico. P√Ķe na cabe√ßa. Mexe a caneta de anotar os pedidos e ela vira uma varinha. Ele assopra a varinha e ela come√ßa a crescer. Vira uma esp√©cie de bengala, onde ele se ap√≥ia no ch√£o, em postura c√īmica e desafiadora, pendendo desproporcionalmente para um dos lados do corpo. Com a voz empostada ele continua:


GARÇOM: Boa noite, sou o gerente. Como posso ajudá-los?

GEMMA: Ah cara, pára com isso! Você é um palhaço.

ZIMAK: Você sabe o que houve, pode chamar o gerente, por favor? To pedindo educadamente por enquanto.

GARÇOM: (voltando à voz normal) Claro. Vamos fazer o seguinte.


Tira um baralho do bolso e começa a fazer movimentos de cascatas sanfonadas de cartas de uma mão para outra.


GARÇOM: Você escolhe uma carta, qualquer carta. Se tirar qualquer uma que não seja rainha de copas eu saio daqui , peço demissão e chamo o gerente tradicional que você quer tanto ver.

ZIMAK: O que realmente est√° acontecendo aqui?

GARÇOM: Vamos, tire a carta. Suas chances são altas!


Zimak abre bem o baralho, pega uma carta. Desiste, retorna ao deck e escolhe outra numa direção oposta.


ZIMAK: Não esperava por essa né, esperto?

GAR√áOM: √Č apenas o seu livre-arb√≠trio, eu jamais for√ßaria uma carta (piscadela)

GEMMA: Tirou qual, amiga? N√£o me diga que foi a Rainha de copas?

ZIMAK: Rainha de Copas...


Zimak encara o gar√ßom com raiva. O gar√ßom pega a carta escolhida, p√Ķe de volta ao baralho e magicamente todas as cartas do deck passam a ser dama de copas.

GARÇOM: A rainha de copas pede que você abra o coração.

Zimak se levanta e chuta a cadeira.


ZIMAK: Eu vou achar esse gerente, eu vou dar um jeito de você perder esse emprego, pode ter certeza.

OATIX: Calma, sem briga, vamos resolver isso de uma maneira melhor.