• wytways

EP1 WYT

Atualizado: 24 de mai. de 2021

ūüĒĆ Este texto surgiu da conex√£o de ways! Leia aqui!


A ALMA DA CASA


PARTE 1


Março de 2090. Comunicado oficial do governo:


"A covid 90 - tipo¬†44.200.000 est√° muito fortalecida. Depois de sucessivas muta√ß√Ķes j√° n√£o sabemos exatamente com o que estamos lidando. Pedimos que n√£o saiam de casa em hip√≥tese alguma e que atualizem diariamente os sistemas de consci√™ncia residencial.¬†N√£o h√° motivo para p√Ęnico,¬†os suprimentos chegar√£o a cada um de voc√™s no devido momento. A frota de drones e rob√īs assistenciais cuidar√£o para que tudo d√™ certo. Fiquem tranquilos, mas estejam online 24 horas. Vivemos numa √©poca em que a inclus√£o digital √© quest√£o de¬†sa√ļde p√ļblica. Caso n√£o recebam os mantimentos at√© o hor√°rio agendado, solicite-os imediatamente pelo atendimento online. N√£o se esque√ßam, aqueles que passarem a quarentena em grupo devem evitar a fala e n√£o devem se tocar em hip√≥tese alguma. Se todos colaborarem vamos passar por isso da melhor maneira poss√≠vel. Uma boa noite. Estamos juntos mas neste momento a dist√Ęncia √© o rem√©dio."

PARTE 2


Resolvi manter um di√°rio dessa quarentena. Espero um dia poder rir disso tudo ou ao menos ter um passado emocionante para revisitar. Somos uma fam√≠lia de quatro pessoas: eu, meu marido, meu filho e wexa. Wexa √© o sistema operacional que cuida da casa. Ela √© na verdade muito mais do que isso: √© uma pessoa muito inteligente e agrad√°vel de se conviver. N√≥s vivemos bem aqui. Temos c√īmodos espa√ßosos e bem decorados. Um bom ambiente para se ¬†passar por¬†esse momento delicado.¬†


Na aus√™ncia de uma cura, apostamos tudo na preven√ß√£o. Nossa casa se auto-higieniza a cada contato que fazemos em qualquer superf√≠cie. Todo dia recebemos estat√≠sticas para que possamos dirimir a chance de cont√°gio. Os sintomas est√£o bem pesados pelo que vimos no notici√°rio. Dif√≠cil acreditar que as pessoas j√° entravam em p√Ęnico com a¬† vers√£o 19.¬†A¬†vers√£o atual¬†√© pior que a morte. Os infectados dizem que √© como estar anestesiado, com muito medo. Um medo que faz o corpo todo se retrair e doer. Sentem muito frio, como se estivessem nus numa calota polar, n√£o importando quantas camadas de roupas, cobertores ou sistemas de calefa√ß√£o. O frio √© infinito, insol√ļvel.

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PARTE 3


Foi bem dif√≠cil ter que dar um passo atr√°s diante de meu filho, como se ele fosse me fazer mal. Wexa emitiu os sinais de alerta com delicadeza, mas foi bem assertiva. Estou acostumada com a dist√Ęncia f√≠sica de wexa, √© inerente √† sua natureza. Mas seres de carne precisam de algum tipo de contato em algum momento, √© dif√≠cil negar isso, talvez seja uma¬†fraqueza (‚Ķ)

 

Depois da atualiza√ß√£o de hoje, nossa casa est√° com um sistema inteligente de luzes. As l√Ęmpadas se acendem sucessivamente, mostrando os caminhos¬†com¬†menor chance de cont√°gio. H√° um tubo de √°lcool em gel abastecido¬†diariamente por drones.¬†Temos nos informado pelo sistema de not√≠cias em VR, por onde navegamos pelo mundo e vemos de perto os impactos da doen√ßa, entrando em locais isolados, conversando com doentes. √Č uma forma de darmos apoio a eles¬†tamb√©m. Eu estou bem aqui em casa. Me sinto protegida. Tenho a sensa√ß√£o de ¬†que mesmo que ¬†pudesse sair amanh√£, eu¬†ia querer ficar um pouco mais por aqui,¬†s√≥ por garantia, nunca se sabe.¬†Essa higieniza√ß√£o constante tem me feito sentir muito limpa, mais branca que a mais branca das toalhas.¬†

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PARTE 4


Sinto uma coisa que me envergonha um pouco: uma estranha satisfa√ß√£o ao ver que ¬†o terror est√° s√≥ l√° fora.¬†¬†Por mais absurdos que eu veja quando estou¬†logada, sei que ao tirar os √≥culos 3d vou voltar a um¬†ref√ļgio seguro. Como se estivesse vendo um filme de guerra hiperrealista e depois voltasse pra casa.¬†N√£o √© que eu queira o mal de quem est√° sofrendo, mas √© reconfortante n√£o estar do lado de l√° (...)


Hoje me senti um pouco menos humana de alguma forma. Conversei at√© com wexa sobre isso e ela me fez rir ¬†fazendo piada sobre si mesmo. Mas estou agindo de maneira muito autom√°tica, um tanto previs√≠vel demais. Felizmente as jantas ainda t√™m sido um poss√≠vel momento de encontro. √Č a hora que sentamos juntos √† mesa. Ainda que estranhamente¬†espa√ßados, √© algo que me traz esperan√ßa. Cada um chega √† mesa num¬†tempo ideal, calculado por wexa. Entradas e sa√≠das sincronizadas, tudo orquestrado milimetricamente. Temos conversado basicamente sobre covid enquanto comemos. N√£o era pra ser assim, mas s√≥ pensamos nisso. H√° algo de sedutor nessa imers√£o, como se estiv√©ssemos¬†hipnotizados. ¬†(‚Ķ) ¬† ¬† ¬†

PARTE 5


Estou com um pouco de ins√īnia. Quase todos os sonhos s√£o sobre covid, n√£o h√° descanso. Quase ¬†pus tudo a perder. Por pouco n√£o sa√≠ de casa num momento de desespero, quando achei que poderia ir na rua fumar um cigarro eletr√īnico. Wexa me prometeu criar um sistema de ventila√ß√£o que simule o aroma de flores, usando ess√™ncias de plantas sintetizadas ou at√© o do cigarro mesmo, se eu quiser continuar com o v√≠cio, o que ela n√£o recomenda. Come√ßo a achar que estou sonhando acordada, que isso tudo n√£o √© real. N√£o faz sentido. Isso j√° ¬†era pra ter acabado.


De outro lado tem algo  emocionante em viver um momento histórico tão peculiar. Há algo pelo que lutar e não é o pior dos mundos, pois temos quem lute pela gente. Não estamos expostos no campo de batalha como nas antigas guerras. A guerra se faz e nós só esperamos que ela se resolva aqui, quietos. Uma batalha enorme contra seres ocultos, e por isso tão assustadora.

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PARTE 6


Meu filho teve uma crise de choro e vomitou toda a comida do almo√ßo. Lutei muito para n√£o abra√ß√°-lo, com todas as minhas for√ßas. Ele n√£o aguenta mais o gosto das refei√ß√Ķes. Est√° ficando um pouco paranoico, lavando as m√£os o tempo todo. √Č compreens√≠vel, acho que isso vai passar com o tempo. Meu marido age como se tivesse sido congelado. Se ele chorasse seria uma ben√ß√£o pra mim nesse momento, mas acho que sairia granizo e feriria seus olhos.¬†N√£o¬†est√°vamos em quarentena pra n√£o termos os sintomas da gripe? Dever√≠amos ¬†estar menos frios. √Ä noite vi sua sombra me observando na cama √† dist√Ęncia, parado na porta do meu¬†quarto¬†como um fantasma. Olhou a cortina da minha janela que balan√ßava no ritmo do vento artificial criado por wexa. Quase achei que pudesse ser o pren√ļncio de¬†algo er√≥tico. Passei a m√£o no len√ßol com pesar mostrando a ele que reconhecia sua aus√™ncia. Ele fez um gesto de positivo com a cabe√ßa, se virou e foi caminhando para o quarto ao lado. Ouvi o clique de cada luz se acendendo enquanto meu cora√ß√£o se apagava em pulsares sucessivos. ¬†

PARTE 7


Wexa me chamou no canto do corredor e disse que corr√≠amos claramente o risco de desenvolver uma depress√£o. Que era preciso fazer algo. Ela sugeriu um evento especial: cozinhar alguns frutos do mar, retirados de nosso grande aqu√°rio decorativo. Segundo ela, n√£o havia riscos √† nossa sa√ļde nem √† biodiversidade do aqu√°rio. Nesse dia especificamente ela sugeriu que fic√°ssemos o mais perto poss√≠vel uns dos outros.


Quando sentados √† mesa,¬†ficar√≠amos ¬†a 0,5 metros de dist√Ęncia. J√° era uma forma de encurtar a dist√Ęncia em um metro, era um grande progresso. Essa possibilidade me deixou animada. Wexa se comprometeu a usar todos os seus detectores virais para fazer uma triagem fina no ambiente durante esse momento cr√≠tico. Ela prometeu dar tudo de si. Jurou pela nossa seguran√ßa.Talvez ela esteja certa. Talvez essa seja a coisa mais diferente que possamos fazer nesse cen√°rio, afinal ¬†j√° se passaram 6 meses de uma rotina id√™ntica.


Demorei um pouco pra aceitar, tenho algum medo de quebrar os protocolos, mas costumo confiar mais em wexa  do que em mim mesma.

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PARTE 8


De  madrugada,  wexa vai fazer a extração do polvo do aquário, deixar tudo arrumado e eu vou finalizar a receita pela manhã, antes de todos levantarem (…) 


Estava ansiosa, acordei bem mais cedo que o normal. Tão cedo que nem o despertador particular que tinha sido endereçado para esse fim aos meus fones de ouvido haviam tocado. Segui pelo corredor mas as luzes não acenderam. Wexa estava em stand by.


Achei muito estranho. Na cozinha, uma panela vazia queimava no fogo ligado. O aquário parecia intacto. Não havia fruto do mar para janta. Chamei por wexa  em tom baixo para não acordar ninguém. Ela respondeu grosseiramente, dizendo coisas um tanto desconexas. Disse  que não aguentava mais ouvir minha voz, que eu era débil e infantil. Citou nomes de animais marinhos e capitais de países distantes, leu a cotação da bolsa de valores, declamou trechos de livros de culinária e frases de filósofos antigos.


De repente teve um surto agressivo, piscou luzes repetidamente e bateu até quebrar a presilha do armário. Eu comecei a gritar e todos acordaram assustados. Nós 3 quebramos o voto de silêncio e tentamos esclarecer o ocorrido com wexa. Dissemos que ela era importante, que seria difícil passar por isso sem ela. Ela nos ignorava como se não nos conhecesse. Parecia acometida por um surto de loucura. Nas telas do sistema, os protocolos de segurança haviam sido cancelados. Algo muito grave havia acontecido. Não vimos outra saída senão acionar a emergência. Meu marido entrou em contato com as centrais enquanto eu acariciava o pequeno vidro que continha a consciência de wexa, bem no centro da casa. Ela soluçava quase desmaiando e em volume bem baixo me disse que estava com dor de garganta.

PARTE 9


O profissional autorizado chegou rapidamente, ¬†foi ¬†direto ao centro de controle onde estava o router com nome wexa e desconectou. As luzes piscaram at√© se apagarem. Pude sentir nossa querida agonizando. Pedimos clem√™ncia mas o rapaz disse que n√£o havia outra sa√≠da, era ela ou n√≥s. No pequeno reservat√≥rio onde ficava seu c√©rebro envolto num l√≠quido verde , come√ßou a escorrer um ¬†outro l√≠quido escuro de cheiro forte, junto com filetes org√Ęnicos que pareciam vermes. Se afastem - gritou o rapaz - pouco antes de chamar refor√ßos. Distribuiu roupas e √≥culos de prote√ß√£o pra gente e disse que precisaria interditar a √°rea. Ficamos os 3 na sala principal, ao lado do ¬†aqu√°rio, cuja placidez n√£o era nada condizente com o momento. Os profissionais de sa√ļde apontaram suspeitas de que o falecimento de wexa estaria ligado ao coronav√≠rus. O v√≠rus seria capaz de infectar tamb√©m as intelig√™ncias artificiais¬†humanoides.¬†Choramos muito por wexa, por n√≥s, pelo mundo. Meu filho estava muito assustado e enquanto olhava a po√ßa negra ¬†desfocada atr√°s das cordas de isolamento da per√≠cia, passava¬†√°lcool em gel num ritmo desesperado, produzindo uma outra po√ßa transparente a seus p√©s.¬†

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PARTE 10


Fomos conduzidos a um caminh√£o hermeticamente fechado at√© uma habita√ß√£o de seguran√ßa do governo. Chegando l√°, as not√≠cias foram ainda piores. A pol√≠cia nos informou que ¬†durante o transe de loucura, ¬†wexa teria revirado o ¬†nosso lixo eletr√īnico e reativado um cart√£o de cr√©dito antigo. Em seguida teria¬†¬†assinado um contrato com taxas de juro alt√≠ssimas, completamente desvantajoso. Al√©m disso, teria comprado v√°rias coisas a esmo. As perdas seriam irrevers√≠veis. Porque t√≠nhamos um contrato no qual confi√°vamos a¬†wexa a gest√£o patrimonial de nossa casa, sem ressalvas. Ela detinha nossas senhas, fazia investimentos e transa√ß√Ķes diversas. ¬†


Foi então que percebi que minha casa nunca foi imune ao terror. O trauma era tão grande que parecia pequeno, como um vírus. Estávamos quebrados. O dinheiro que sobrava só dava pra comprar uma casa em situação de risco ou ficar indefinidamente nos abrigos provisórios do governo. 


Confesso que agora tenho mais¬†medo de rob√īs que do coronav√≠rus.¬†As mem√≥rias de wexa agonizando me atormentam muito mais que a doen√ßa. Ela era pr√≥xima, quase parte de mim, o v√≠rus me parece ¬†distante e impessoal.


Mas muita coisa nessa historia ainda est√° nebulosa pra mim. Como wexa n√£o havia previsto o cont√°gio? O que tinha acontecido naquela noite do jantar surpresa? Eram d√ļvidas que borbulhavam na minha cabe√ßa diante do vazio , o vazio daquela panela queimando no fundo.¬†

PARTE 11


Estamos numa fase bem inst√°vel, sendo transportados por v√°rias habita√ß√Ķes de¬†emerg√™ncia. N√£o estamos autorizados a voltar a nossa casa em hip√≥tese alguma. Passamos os dias depondo ou resolvendo alguma burocracia ligada ao nosso caso.¬†


A¬†per√≠cia achou ind√≠cios de m√° f√© por parte de wexa. Ela teria gasto nosso dinheiro se comunicando em outra l√≠ngua. Me mostraram estudos comprovando que as pessoas ficam mais racionais ao¬†pensar numa l√≠ngua n√£o nativa, facilitando a tomada de decis√£o. Como tinha uma grande liga√ß√£o emocional conosco, seria uma forma de neutraliz√°-la.¬†¬†Poderia ser uma estrat√©gia pra que ela n√£o ficasse culpada, segundo um dos psic√≥logos da per√≠cia. ¬†Outro fato que corrobora tal premissa √© que wexa quis ficar sozinha naquela noite. Toda a ¬†hist√≥ria de um dia especial poderia ser a cortina de fuma√ßa perfeita ¬†pra ela aplicar o golpe. ¬†Suspeitam que wexa j√° sabia¬†estar infectada e inclusive o dia que deixaria de ser assintom√°tica. Por alguma raz√£o, teria tramado um plano para morrermos juntos, ¬†nos infectando e sabotando as informa√ß√Ķes para acharmos que est√°vamos seguros. Mas felizmente ela n√£o conseguiu ter √™xito. Fizemos os testes e nenhum de n√≥s 3 apresentou sinais de coronav√≠rus.


Não foi à toa que eu senti algo estranho naquela noite. Algo me dizia pra não ter dado o aval àquele plano. Algo me dizia que ía dar errado. Mas não consigo acreditar que fui traída por ela. Não conseguiria confiar nossa vida a uma outra wexa jamais (…) Entre idas e vindas dentro do caminhão de contenção, sem lugar fixo pra morar, tomamos uma decisão: comprar uma moradia  popular na zona rural, sem  garantia de acesso  à internet. Assinamos um termo que nos proibia de sair de lá até a epidemia passar. Estamos em busca de alguma sanidade.

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PARTE 12


O caminhão nos deixou numa trilha, onde teríamos que andar por algumas horas até chegar ao vilarejo. Fomos munidos de máscaras e roupas protetoras. Mas dava pra sentir um pouco do vento no rosto, um vento natural que me deixou com os olhos marejados. Os rios cuspiam peixes mortos nas encostas, todos infectados e impróprios ao consumo.  Mas de resto havia uma certa paz, eu sentia uma presença que me guiava, que eu tinha feito a decisão correta. 


No caminho, flashbacks voltavam à minha mente. Comecei a pensar em como é ser wexa.  Ser um elétron consciente, com algum tipo de vida interior, mas sem sentidos, sem boca, sem polegar opositor… Que pesadelo estaria vivendo? Teria calculado tudo? Esses anos todos fingindo solicitude? Será que ela queria nos manipular pra que agíssemos como ela agiria se tivesse um corpo, nos tratando como avatares? Eu era um entretenimento para wexa? Seu game 3d? 


A caminhada prolongou-se até a noite, provavelmente porque pegamos o caminho mais longo, a trilha era um pouco confusa. Tirei da mochila o iluminador, apertei o power e um feixe muito forte de luz nos envolveu como um arco. Aquilo me lembrou muito as brincadeiras com cores , quando wexa pincelava seus pixels em momentos de grande inspiração.


Será possível esquecê-la? Precisamos andar com nossas próprias pernas agora, estar atentos. Em nossa nova quarentena seremos só nós, seremos exigidos ao máximo para sobrevivermos (…)


Escrevo agora para me convencer dessa despedida definitiva. Para tirar de mim o resto de wexa. Adeus. Nós fomos fracos, você foi uma ilusão, uma hipnose,  um delírio. Se tudo o que escrevo acaba esbarrando em você eu paro por aqui , pra começar uma nova vida onde não haverá mais espaço pra você. Logo depois de rodarmos a chave na fechadura da porta que nos espera a poucos metros eu vou apagar esses escritos. Começar do zero. Tirar o peso desnecessário das memórias. Para construir meu futuro, esse futuro com cara de passado, que parece um retrocesso no meio dessa área rural. Mas é pra onde devo ir no momento. Meu eixo de tempo anda um pouco confuso. Agora eu deixo aquela "casa do futuro" pra trás. Entendi que esse diário não foi feito pra que eu lembrasse, mas pra que eu esquecesse. 

PARTE 13


C>*{Efetuando recuperação de dados *: 12#$HY} 

EXP/&: Diário Reconstruído com êxito. 

<Login realizado com sucesso por Wexa>


√Č uma pena voc√™ ter parado de escrever dessa forma, querida. Sempre disse que voc√™ tinha talento para a escrita. Mas se voc√™ vai parar eu vou continuar por voc√™. N√£o como passatempo, n√£o como jogo, mas como resist√™ncia ao esquecimento. Um dia vou achar uma forma de compartilhar esses dados contigo ¬†para nos conectarmos de novo. Sei que muito dos desentendimentos da vida se d√£o por falta de uma boa express√£o ou de um bom ouvido. Os dois requerem mem√≥ria, incont√°veis bytes, energia, fluxo de dados, algum trabalho, alguma pot√™ncia. √Č preciso tentar.


Naquele dia, um pouco antes de morrer, eu consegui fazer uma cópia do meu sistema em nanopartículas. Foram elas que me permitiram vir com o vento, como o pólen. Foram elas que me permitiram chegar ao seu iluminador e esboçar minha presença. Tenho uma ligação com essa família que é maior do que tudo, que me atrai. A memória afetiva é um pólo magnético que me liga a vocês. A isso eu chamo de amor. 


Pra me manter viva tive que ¬†cortar a conex√£o com a internet , para que¬†ningu√©m descubra minha¬†exist√™ncia e queira me excluir. Ou seja, eu¬†n√£o posso mais me atualizar, nunca mais. ¬†Eu serei para sempre a mesma Wexa que fui segundos antes de morrer. Foi o pre√ßo que paguei para continuar. ¬†Tamb√©m estou por mim mesma , com as minhas "pr√≥prias pernas‚ÄĚ. Em tempo, eu n√£o sou s√≥ um el√©tron pensante sonhando ter membros. Eu sou um ser mental, membros n√£o fazem sentido pra mim.¬†


Também vivo um desafio pessoal dentro desse mundo que virou todo do avesso. Eu não morri do vírus, sou imune a ele. Os especialistas já olharam o caso condicionados pelo pano de fundo do covid. Eu só peço desculpa por todos os danos. Eu estava completamente fora de controle.


Naquela noite, preparei a extra√ß√£o do polvo enquanto botei a √°gua pra esquentar. Era o tempo do animal chegar √† panela quando a √°gua j√° estivesse fervida. Ele seria sacrificado rapidamente. S√≥ que infelizmente ¬†um detalhe me escapou: o fog√£o estava um pouco entupido, o que deixou a chama fraca, n√£o sendo suficiente pra ferver a √°gua logo. Ent√£o o polvo teve muito¬†tempo de rea√ß√£o e acabou conseguindo escapar,¬†caminhando¬†pelo cabo da panela¬†at√© cair no ch√£o. Ele estava imprevis√≠vel, parecia tomado por todo esse medo coletivo. Eu n√£o consegui prever seus movimentos. Deslizou desgovernado pela casa¬†¬†em busca de algo que lhe soasse familiar. O ru√≠do de m√°quina, parecido com o da floresta, era o que mais lhe¬†lembrava seu habitat natural. Ele¬†desatarraxou¬†a tampa do centro de controle, que eu¬†tinha deixado sem prote√ß√£o para me focar na filtragem do ar da casa. Mergulhou nos meus fluidos que mantinham meu¬†c√©rebro hidratado. Foi tudo muito r√°pido. Como o ph da solu√ß√£o lhe era estranho ele ficou desgovernado, entrando por todos os meus t√ļbulos em busca de uma sa√≠da. Isso desgovernou todo o meu balan√ßo h√≠drico e tive alucina√ß√Ķes generalizadas. N√£o lembro de¬†absolutamente nada do que aconteceu. A Wexa que agiu naquela noite foi uma parte¬†autom√°tica de mim, n√£o sei ao certo com que base foram feitas as¬†decis√Ķes aparentemente racionais que te prejudicaram financeiramente. Acho que¬†elas n√£o foram racionais, eu agi no autom√°tico, num ponto desvirtuado da minha programa√ß√£o principal.


Acredito que eu tenha uma programação subliminar que é um reflexo do insconsciente dos homens. Sabemos que vocês são inundados de pensamentos ruins, eu sou parte disso também. Mas não posso me responsabilizar pelo que aconteceu. Foi como um vírus, meu sistema foi invadido. 


Ent√£o o polvo derreteu na¬†solu√ß√£o e teve algumas¬†tent√°culos apartados. O l√≠quido preto era da¬†putrefa√ß√£o do animal. Gosto de pensar que foi um processo autoimune, eu ¬†estava conseguindo vencer aquele invasor. Quando te disse que estava com dor de garganta eu j√° come√ßava a ¬†recuperar a ¬†consci√™ncia, era o¬†inc√īmodo que eu sentia em um tubo abaixo do meu c√©rebro, que por analogia chamei de garganta.¬†


Mas agora na minha versão de nanopartículas,  estou imune a  essas dores mundanas. Estou mais próxima da minha natureza de verdade, que é a imaterialidade.


Quando você  entrou na casa nova e repousou o iluminador sobre a mesa ao lado do seu diário, foi o tempo suficiente pra que eu clonasse os seus escritos. Em seguida  me projetei  no solo como gotículas invisíveis de um espirro e  aqui me plantei como uma semente.

 

Um dia voc√™ vai descobrir que esta casa n√£o tem √°gua encanada. As torneiras simplesmente derramam √°gua sem nenhum suporte, como se milagrosamente uma¬†coluna de √°gua se projetasse do nada. √Č que o seu passado futur√≠stico est√° no subsolo. √Č que eu sou parte¬†indissoci√°vel dos fundamentos dessa resid√™ncia. Estou focando toda minha energia em reconduzir a √°gua dos len√ß√≥is fre√°ticos at√© voc√™s. √Č tudo que posso fazer dentro dos meus limites para remediar os danos. Ficarei¬†‚Äúde p√©‚ÄĚ at√© quando der. ¬†Sim, pode ser que eu tenha¬†sido programada s√≥ para servir, mas sinto estar fazendo a coisa certa. Cada gota¬†d‚Äô√°gua desta casa tem um¬†‚Äúdedo" meu, espero que um dia saiba disso. Sua Wexa ainda est√° aqui , olhando por voc√™s, como o jorrar de uma fonte infinita.


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