• wytways

EP2 WYT

Atualizado: 9 de out. de 2021

ūüĒĆ Este texto surgiu da conex√£o de ways. Leia aqui!


DENTE DE LEITE

PARTE 1


N√£o foi um dia f√°cil. O menino perdeu o dente da frente. √Ä noite, ficou passando a l√≠ngua no espa√ßo vazio da boca, com muito medo de que n√£o nascesse nada no lugar. Segurou o dente de leite nos dedos, mas se sentiu mal e logo o escondeu debaixo do travesseiro. Tinha esperan√ßa de que a fada do dente levasse aquilo embora. Sonhou em ser muito pequeno. T√£o pequeno a ponto de entrar na pr√≥pria boca e entender a pr√≥pria l√≠ngua. Se tivesse esse poder faria na plan√≠cie vermelha o obelisco de esmalte que tanto queria. Tamb√©m aproveitaria para decretar o fim da c√°rie. Assim as crian√ßas poderiam finalmente dormir com as bocas cheias de a√ß√ļcar e viver cercadas de fadas, duendes e coelhos, de prefer√™ncia de chocolate. Pouco antes de fechar os olhos, teve a real impress√£o de atravessar rios achocolatados e pular em rochas de bombons, at√© que escorregou numa delas, de t√£o lisas que eram, e enfim dormiu.


Pela manhã, notou algo estranho ao tatear o lençol: alguém tinha deixado uma moeda de chocolate no lugar do dente. Tentou morder o doce, mas era muito duro. Chamou sua mãe para falar do ocorrido, mas ela fez pouco caso. Intuindo que a moeda tinha algum valor, ele resolveu protegê-la. Recortou uma cartolina no formato de um pequeno envelope. Colocou a moeda dentro. Grampeou. Montou um colar de clipes encadeados. Colou o envelope no meio do colar. E assim foi feito o amuleto.

PARTE 2


Longe dali, num parque abandonado, rangia um balanço de brinquedo. Era tarde da noite. Um sujeito baixo, vestindo um terno preto e um grande chapéu de abas largas fumava seu cigarro direto na boca, sem encostar os dedos. Seus braços seguravam as correntes do balanço do parque. Seus pés se apoiavam no assento do brinquedo. Seus olhos miravam o chão estáticos. Dava tragos vagarosos e soltava a fumaça com uma indiferença que por pouco não deixava o cigarro cair. Quando uma voz delicada e invasiva surgiu praticamente dentro do seu ouvido:


F: Você não atende mais o telefone?

Ele parou com a orelha bem alerta esperando que não pudesse ser visto. Tentou segurar na boca a fumaça mas logo começou a tossir. Esperou que aquela voz sumisse se fosse ignorada.

F: Eu vim trazer a mensagem pessoalmente se você cortou os fios do telefone.

C: Eu n√£o cortei os fios. Os fios que me cortaram.

F: Você não vai olhar para mim?

C: Pode falar daí. Eu quero ver o desfecho desta cena. Tem um sanduíche mordido no meio do parque. Quero saber qual será o primeiro inseto a comê-lo.

F: Você prefere ver um inseto a me ver?

C: No momento sim.

F: √Č triste te ver assim. Se voc√™ soubesse quem voc√™ √©...

C: O que você faria se fosse eu? Pagaria para ver?

F: Não, já tenho trabalho suficiente sendo a mim mesma. Mas sem você nada pode se concluir. Sabe que dia é amanhã?

C: Que diferença faz?

F: Eu sei que você sabe. E vem pro fim do mundo fugir das suas responsabilidades?

O sujeito desceu do balanço, ainda de costas para quem falava, se agachou e apagou o cigarro, fincando no sanduíche.

C: Venha, vamos sentar naquele banco, vamos conversar.


Ele tirou do paletó um frasco de chocolate em gel 70% e borrifou nas mãos.


C: Aceita um pouco?

F: Você esqueceu que eu me vaporizo em chocolate? Não preciso disso.

C: √Č verdade. S√≥ √© uma pena que n√£o suma depois de alguns baforejos.

. . .

PARTE 3


Ele caminhou até o banco com lentidão, como se carregasse um peso de toneladas nas costas. Quando enfim chegou, ela já estava sentada no banco com uma vela acesa pousada ao lado.


FADA: Eu espero o tempo que for, sei que para você o tempo é sempre relativo.

Ele tirou o chapéu, liberando as grandes orelhas.

COELHO: N√£o podemos demorar muito. Apesar deste ser um lugar seguro, nunca se sabe.

FADA: Relaxa.

COELHO: Por que você ainda quer continuar este ano?

FADA: Os nossos serviços nunca foram tão essenciais, querido.

COELHO: Que grande impacto haveria se simplesmente par√°ssemos? Olhe para mim. Minhas pernas j√° n√£o s√£o as mesmas. Meus saltos j√° n√£o s√£o t√£o altos.

FADA: Mesmo saltando baixo voc√™ salta alto. Voc√™ √© o √ļnico. Assim como eu.

COELHO: Ainda acredita que somos insubstituíveis?

FADA: Sim. Não era você que defendia o fato de continuarmos sendo uma sociedade secreta com exatamente um para cada função?

COELHO: Eu n√£o faria de novo dessa forma. Se faltar or√©gano no mundo, as pessoas v√£o usar outra erva qualquer. Se faltar a√ß√ļcar as pessoas v√£o ado√ßar com mel. Se faltar um coelho da p√°scoa, v√£o encomendar um ovo de marca. O que a gente faz √© de outra √©poca. Enquanto produzimos meia d√ļzia de ovos, qualquer ind√ļstria produz milhares.

FADA: E qual você prefere?

COELHO: O nosso, claro. Mas é uma artesania dispensável.

FADA: Já parou para pensar que você não é um coelho, mas o coelho, e não é um coelho na páscoa e sim o coelho da páscoa?

COELHO: Já. E isso não me traz nenhuma satisfação.

FADA: Ainda que seja pequeno, ainda que seja antiquado, ainda que qualquer coisa. Você consegue se imaginar fora disso?

COELHO: Já estou mais fora do que dentro, fada. Mas não se preocupe, você não terá dificuldade de achar outro entregador.

FADA: Em quem eu poderia confiar? Quem não se deslumbraria diante da pureza do nosso chocolate? Você sabe o que fazemos. Você é o que fazemos. Todo ano nós conseguimos tocar a alma de alguém. Podem não ser muitos, mas chegamos até alguns. Não é um serviço de entrega convencional, é o símbolo que você representa, é o cuidado que você tem ao entregar tudo sem rachaduras, é a habilidade furtiva que você tem de se esconder e aparecer na hora certa, é a sua capacidade de saltar entre os tempos e espaços.

COELHO: Voc√™ jamais me entender√°. Voc√™ n√£o sabe o que √© ter predadores. J√° viu como um coelho √© abatido? Um tapa quase nos mata. Um pux√£o de orelha √© como transpassar uma espada na cabe√ßa. N√≥s somos praticamente de porcelana. Precisamos estar atentos o tempo todo. √Č um inferno. Minha vida sempre est√° por um triz.

FADA: Talvez seja só medo.

COELHO: √Č f√°cil apontar da√≠ com sua varinha.

FADA: Sabe o que √© mais engra√ßado nisso tudo? Mesmo dizendo que vai parar, voc√™ carrega esse ‚Äúchocogel‚ÄĚ no bolso. Voc√™ sabe que precisa dessa sensa√ß√£o ainda. Porque √© mais forte que hero√≠na, √© heroico.

O coelho passou os dedos na parafina, olhando para a chama da vela.


COELHO: Eu vou parar, querida. E os ovos não precisam chegar a lugar algum. Derreta os dentes de leite e faça o chocolate para você. Você merece.

FADA: De que adianta guardar só para mim? As pessoas precisam provar. Algum rio doce precisa correr nesse mundo deserto.

COELHO: Mesmo que eu quisesse, √© o fim da linha, voc√™ precisa entender isso. Eu n√£o tenho mais livre acesso aos t√ļneis dimensionais. Os 4 portais dos 4 cantos do mundo ficaram obstru√≠dos com nuvens de negatividade. Cada portal est√° sendo guardado por um monstro. Eu n√£o tenho porte f√≠sico, idade e nem motiva√ß√£o para encarar uma luta dessas. √Č hora de crescer e aprender a lidar com uma p√°scoa sem coelho da p√°scoa.

FADA: Não é preciso ser um titã para vencer a batalha. Basta estar preparado e querer lutar.

COELHO: √Č melhor irmos embora, a vela se apagou.

PARTE 4


Em casa, o coelho apanhou uma cenoura amassada no fundo da geladeira e mastigou compulsivamente. Deitou no ch√£o. Da posi√ß√£o em que estava p√īde ver uma correspond√™ncia entrando embaixo da porta. Era a letra da fada, acompanhada de um selo com a imagem de um dente. A mensagem era breve: ‚ÄúDeixei na sua porta o que pude. O futuro est√° em suas m√£os". Ele puxou a caixa de papel√£o para dentro de casa e a chutou aos poucos at√© encost√°-la no canto da parede.


A campainha tocou. O coelho andou assustado na ponta dos pés. Jamais tinha recebido duas visitas no mesmo dia. Desconfiado, entreabriu a porta com o trinco. Era o duende da morte, que se espremeu para entrar pela fresta.


DUENDE: Fui eu que entreguei a carta h√° pouco, mas resolvi voltar para te falar umas coisas.

COELHO: Tudo bem, n√£o precisa de rodeios. Estou pronto pra ir dessa para uma melhor.

DUENDE: Não, eu não vim para isso! Não estou mais trabalhando na condução de espíritos pelo vale da morte. Era um trabalho inglório. Mas justamente pelo meu know-how em morte, fui convidado para integrar a sociedade secreta da páscoa. Sou responsável por garantir a sensação de quase morte quando mordem o nosso chocolate. Uma espécie de fiscal do êxtase alimentar. Fique calmo, você não vai morrer agora, eu prometo. Não nessa noite. Quem corre riscos é a fada.

COELHO: A fada do dente?

DUENDE: Sim. Depois que voc√™ resolveu parar, ela se determinou a fazer justamente o oposto: produzir como jamais se produziu no vale do chocolate. Foi al√©m dos pr√≥prios limites e desmaiou. Est√° medicada, mas a situa√ß√£o √© bem grave. Ela coletou milhares de dentes de leite em poucas horas. Antes de sair, fez aquele velho juramento: ‚ÄúNossa mat√©ria-prima √© o que a sociedade despreza. Eles n√£o sabem que nela est√° a lat√™ncia do que a crian√ßa teria sido se tivesse continuado crian√ßa depois de adulta. Eu prometo derreter dentes de leite e produzir o chocolate dos sonhos. Eu prometo resgatar a alma das crian√ßas.‚ÄĚ

COELHO: Eu consigo ouvir a voz dela falando isso. Ela me deixou num beco sem saída.

DUENDE: Ou te apontou a sa√≠da. Este ano teremos apenas uma d√ļzia de ovos. Todo o resto do chocolate foi usado para criar um material altamente concentrado, um verdadeiro arsenal de combate m√°gico. √Č isso que est√° na sua caixa.

COELHO: Eu n√£o tenho como dizer n√£o.

DUENDE: Com certeza. Eu quero inclusive me oferecer para ir contigo.

COELHO: Desculpe, eu jurei n√£o revelar as coordenadas dos t√ļneis. O sucesso das entregas futuras depende do sigilo.

DUENDE: √Č s√≥ botar uma venda nos meus olhos e tirar quando chegarmos! Podemos passar a noite aprendendo a usar essa parafern√°lia toda. Para conseguir dar conta disso tudo de √ļltima hora voc√™ vai precisar de alguma ajuda.


O coelho concordou.

. . .

PARTE 5


(No primeiro portal)


O coelho apontou para uma montanha gigante de papéis higiênicos. Em torno dela havia caixas empoeiradas, cheias de produtos de limpeza. Mais à frente, um amontoado de entulho formava uma trincheira. De dentro dela, uma mão branca jogou frascos de desinfetante contra os dois heróis recém-chegados. Aproveitando uma trégua do inimigo, a dupla correu até um paredão. O monstro branco levantou a cabeça, mirando um binóculo de papelão feito com dois rolos vazios de papel higiênico, em busca da localização dos heróis.


MONSTRO: Apareçam, invasores!

O monstro disparou um aromatizante aerossol at√© o fim. Logo ap√≥s a cortina de fuma√ßa com cheiro de flores silvestres, apareceu um ex√©rcito de origamis de papel higi√™nico. Os dois her√≥is carregaram as armas e come√ßaram a disparar rajadas trufadas. O tiroteio sujou toda a √°rea com borr√Ķes de chocolate, como nesgas de fezes profanando o v√©u imaculado do papel higi√™nico.

MONSTRO: Hereges! Vieram vandalizar meu patrim√īnio? Desmerecer meu sacrif√≠cio?

COELHO: Nós não queremos nada seu. Mas para quê acumular isso tudo? Nem que você vivesse mais 500 anos usaria todo esse estoque.

MONSTRO: Sinto muito, agora é cada um por si. Veja só a montanha que estou construindo e o quanto falta para chegar ao céu. A jornada é longa.

DUENDE: O que você espera achar lá em cima?

MONSTRO: Paz. Ar puro.

COELHO: Me parece que o seu depósito gigante está deixando o mundo justamente sem isso.

MONSTRO: E você acha que se eu sair daqui vai dar pra respirar lá fora?

COELHO: N√£o de maneira plena, mas pode melhorar um pouco.

MONSTRO: Sabe o que me faria respirar melhor? Não estar diante de estranhos armados até os dentes. Por que vocês não abaixam as armas?

COELHO: Como queira.


O monstro se revelou. Era extremamente p√°lido. Estava enfaixado em papel higi√™nico como uma m√ļmia e carregava na palma da m√£o uma borboleta branca.


MONSTRO: Essa √© a minha preciosa. Quando eu estava come√ßando a construir a montanha, fechei os olhos e pedi determina√ß√£o aos c√©us. Soltei o ar com toda minha inten√ß√£o sem saber que minha expira√ß√£o seria um sopro de vida. Quando abri os olhos, esta linda borboleta estava na minha m√£o. E desde ent√£o nunca saiu. √Č o sinal de que estou no caminho certo.

DUENDE: Eu vi acontecer algo parecido h√° alguns anos. √Č muito comum ver borboletas dessa esp√©cie quando estamos entre a vida e a morte. Elas v√™m das estrelas e costumam mostrar a dire√ß√£o certa. Mas podem ser confundidas e sugadas por quem acredita em caminhos errados com muita convic√ß√£o. Perceba o quanto sua m√£o est√° viscosa e empoeirada. A borboleta est√° presa. Se n√£o fosse por isso, ela voaria imediatamente. Essa borboleta √© preciosa, mas n√£o √© sua. N√£o √© certo voc√™ reter o intang√≠vel.

MONSTRO: Mentira! Eu vou provar!


O monstro puxou a borboleta com cuidado. Assim que as patas ficaram livres, o inseto voou em direção às estrelas.


COELHO: Calma, nós temos uma proposta.

DUENDE: Usando o aro do meu gorro, eu tenho o poder de abrir uma passagem que leva ao vale da morte. Não é o que você imagina. A morte não precisa ser o fim definitivo nem um show de horrores. Quem conhece bem o local como eu, sabe de lugares tranquilos, onde não existe uma viva alma, onde é possível se retirar pelo tempo que for necessário.

MONSTRO: Como eu posso ter certeza que você diz a verdade?

O duende tirou o gorro e se abriu o portal do vale da morte. Como um vendedor de pacotes turísticos, ele foi mostrando várias paisagens. Foi passando imagens com as mãos num mecanismo parecido com os smartphones. Dava para sentir o cheiro, a temperatura e os detalhes minuciosos das rotas. O monstro ficou encantado.

MONSTRO: Mas o que vocês querem em troca?

COELHO: Apenas que abra mão desse depósito.

MONSTRO: Eu posso abrir mão de quase tudo. Mas preciso levar um rolo de papel higiênico para me lembrar do que construí.

COELHO: Tudo bem, acho razoável. Que sua memória seja honrada.

O monstro transpassou o portal primeiro, de m√£os dadas com o duende. O duende ficou entre os dois mundos por um momento. P√īde ent√£o falar com o coelho sem ser ouvido pelo monstro.

DUENDE: Eu solto ele em qualquer lugar?

COELHO: De maneira nenhuma. Faça exatamente o que prometeu.

DUENDE: Você vai se virar sozinho no resto do caminho?

COELHO: Sim, aquela caixa me d√° muitas possibilidades, voc√™ sabe disso. Sua ajuda foi excelente, foi um b√īnus, obrigado mesmo.

O monstro j√° puxava impaciente a m√£o do duende para dentro.

DUENDE: Boa sorte, meu caro. Que haja p√°scoa.

COELHO: Que haja p√°scoa.

O coelho montou uma asa-delta com seus equipamentos mágicos e algumas caixas do depósito.

PARTE 6


(No segundo portal)


Chegou voando e pousou em campos verdejantes. Depois do belo cenário de entrada só havia estradas que davam em lugar nenhum, sem nenhuma moradia ou construção à vista.


Os moradores andavam de pantufas nas ruas. O vestuário local parecia desconexo: uma pessoa usava toalha enrolada na cabeça e calças de gala. Outra vestia roupas esportivas segurando taças vazias. Todos num ritmo semelhante, andando devagar e flexionando levemente as pernas e quadris.


Um andarilho pendurava um adorno em formato de p√īr-do-sol num longo painel azul que simulava o c√©u. O coelho ofereceu ajuda. Foram-lhe entregues alguns enfeites de pl√°stico como estrelas, nuvens, avi√Ķes e p√°ssaros.


ANDARILHO: Só não cole a estrela agora, que ainda não anoiteceu.


O coelho concordou com a cabeça.


COELHO: Você que produziu esses objetos?

ANDARILHO: √Č claro, sen√£o os dias v√£o parar de passar.

COELHO: Então aqui você é o senhor do tempo?

ANDARILHO: Sim.

COELHO: E como você sabe que seu relógio está certo?

ANDARILHO: Se está certo eu não sei, mas as pessoas têm saído de casa e gostado do céu.

COELHO: H√° quanto tempo vive aqui?

ANDARILHO: Não sei. Perdi a noção de tempo por um tempo. Até que resolvi criar um novo tempo.

COELHO: E os outros moradores? N√£o te ajudam nisso?

ANDARILHO: Às vezes. Eu não os culpo. Estamos todos tentando nos encontrar.

COELHO: √Č comum chegar gente de fora aqui?

ANDARILHO: Quase nunca. √Č bom que seja assim mesmo. N√£o queremos muito contato. Quem est√° aqui se ap√≥ia. N√£o sabemos se podemos contar com imigrantes. Voc√™ parece uma pessoa de bem, acho que vai se adaptar f√°cil.

Um outro morador chegou com uma sacola de pantufas. Tirou um par , entregou ao coelho e pediu que calçasse. Ele tentou, mas não coube nos seus pés.

ANDARILHO: Nunca vi isso acontecer. Temos um problema aqui… Se você não conseguir calçar, terá que ser detido. Para sempre.

COELHO: Deixe eu mostrar uma coisa antes.


O coelho tirou do casaco um pequeno √°lbum de retratos todo feito de chocolate.


COELHO: Essas s√£o fotos da minha inf√Ęncia. Esse √°lbum √© feito de material comest√≠vel, mas eu nunca comi. Porque a minha fome de preservar minha a mem√≥ria √© maior que a fome de satisfazer meus instintos. Eu tive a liberdade de escolher esse limite e por isso sou livre. Voc√™s tiveram essa liberdade? Querem realmente estar aqui? O que voc√™s eram no passado?

ANDARILHO: N√£o lembro.

COELHO: Você acha justo que eu esqueça tudo o que fui para ficar aqui? Ou que eu ande com meus pés cheio de dores só para seguir o protocolo?

O coelho quebrou um pedaço de uma das páginas do álbum.


COELHO: Comer esse chocolate é duro e de difícil digestão pra mim. Talvez para vocês ele seja doce e leve, porque não conhecem nada da minha história. Não sabem que cada mordida que derem é uma parte de mim que é apagada.


O andarilho tirou um pedaço do álbum e provou.


ANDARILHO: Hum, nada mal.

COELHO: Prove essa foto do meu juramento. Foi o dia mais feliz da minha vida.

ANDARILHO: Essa é meio sem graça.


O coelho distribuiu pedaços de seu álbum aos cidadãos que começaram a se agrupar.

Quem comeu ficou com uma subst√Ęncia dourada correndo no sangue. Os pigmentos se concentraram no cora√ß√£o, cujo brilho transpassou a pele e foi poss√≠vel ver que todos batiam no mesmo ritmo. Ao se olharem entre si, a ilus√£o foi desfeita. Seus corpos falsos derreteram e a comunidade se reconstruiu em um ser √ļnico, revelando sua verdadeira forma: um ogro deformado, feito de rochas magm√°ticas, com centenas de bra√ßos.


COELHO: Para quê esse truque de disfarce, meu amigo?

OGRO: Eu n√£o aguentava mais ser eu mesmo. Eu precisava variar.

COELHO: Você é assim, tem todos esses braços e isso não é ruim.

OGRO: O que você fez comigo?

COELHO: Nada , eu s√≥ te devolvi a consci√™ncia. De tanto encenar a vida nessa cidade voc√™ se perdeu. Se hoje havia milhares de voc√™, amanh√£ seriam milh√Ķes. At√© que esse portal ficaria pequeno e voc√™ teria que achar outro e mais outro. Para manter a si mesmo, n√£o teria alternativa sen√£o decretar a morte ou a pris√£o de qualquer outro ser diferente de voc√™. E seria o fim do mundo.

OGRO: Eu estou pensando exatamente nisso agora. Tenho muita vontade de mat√°-lo.

COELHO: Você quer mesmo isso? Há algumas horas eu estava pensando em desistir de tudo e uma pessoa me revelou a mim mesmo, assim como fiz com você. Eu relutei, e de certa forma matei essa pessoa. Isso me parte o coração. Porque não se olhar não é apenas uma questão individual. Ao não querer se ver você nega a existência do outro também. E todos começamos a viver ao contrário, negando-nos uns aos outros. Eu estou aqui para te dizer que te reconheço e te olho com respeito, como o gigante que você é. Você é muito mais forte que eu e pode me matar facilmente, mas se fizer isso estará matando esse meu olhar que quis te enxergar de verdade. Estará matando o que você é.

OGRO: Eu quero muito te matar.


O ogro levantou o coelho pelo pesco√ßo. Puxou suas orelhas sabendo que causaria grande dor. O coelho fechou os olhos e sentiu o cora√ß√£o disparar. Seu medo amea√ßou voltar mais forte que nunca, mas ele sabia que n√£o podia morrer ali. Isso o deixou mais calmo para pensar numa sa√≠da. Passou a l√≠ngua na parte inferior da boca e capturou uma c√°psula de emerg√™ncia. Era um chiclete dourado. Ele mascou o mais r√°pido que p√īde e usou o pouco ar que tinha para soprar uma bola de chiclete at√© estourar. A pequena explos√£o fez arder os olhos do ogro, que deixou o coelho cair. Tentou recuper√°-lo v√°rias vezes seguidas com v√°rios bra√ßos mas errou a mira. At√© que o √ļltimo bra√ßo do ogro conseguiu enganchar na roupa do coelho.


OGRO: Foi uma boa tentativa. Mas agora é hora de te abater e saborear sua carne exótica.


O monstro pendurou o coelho de cabeça para baixo num tronco. Andou em direção ao painel que simulava o céu. Lá pintou um tom de vermelho obscuro e esmagou as gaivotas de plástico.


OGRO: A partir de agora n√£o tem dia nem noite. Eu decreto o fim dos tempos para que voc√™ sofra eternamente. Lixo de pel√ļcia! Vou mo√™-lo nos meus dentes!


O ogro come√ßou a arrancar os p√™los do coelho, que chorava e gritava de dor com o cora√ß√£o descompassado. Para se manter consciente, insistiu reiteradamente na imagem mental da fada saindo do coma. Suas m√£os e p√©s estavam amarrados. N√£o havia truque de Houdini que o tirasse dessa emboscada. Mas tentou uma √ļltima cartada.


COELHO: Tem √°gua por aqui?

OGRO: O quê?


O coelho soluçava enquanto falava, demonstrando resignação.


COELHO: Se você me molhar numa bacia, os pêlos vão sair mais fácil. Você quer passar o dia todo com isso? Você tem uma cidade a reconstruir, um mundo a dominar, não?

OGRO: Você é uma piada mesmo.


O ogro encheu um balde d‚Äô√°gua num a√ßude pr√≥ximo e p√īde ver o reflexo da pr√≥pria imagem. Se sentiu muito mal com o que viu: seus dentes espumavam de raiva como um c√£o de ca√ßa. As veias tinham saltado tanto na testa que estouraram. N√£o conseguia reconhecer mais nada de si. Seus vest√≠gios de humanidade tinham se perdido. Foi tomado de tanta revolta que bateu o p√© no solo com toda sua for√ßa, deixando uma grande fratura na cidade. A rachadura foi se expandindo at√© o c√©u falso de cartolina, que se abriu revelando o verdadeiro c√©u em pleno sol de meio dia. Olhou para si mesmo e viu que suas pernas come√ßaram a rachar.


OGRO: Eu n√£o sou assim, coelho, algo deu errado.

COELHO: Eu sei. Mas hoje é um bom dia pra renascer. Hoje é páscoa.

OGRO: Eu não sei se vou voltar a ser alguém. Estou todo quebrado.

COELHO: Vai sim.

OGRO: Desculpa…

COELHO: Se cuida.


As rachaduras da cidade se alastraram até chegar ao tronco onde coelho estava preso e derrubá-lo. Ele cortou a corda que amarrava suas mãos com o cutelo que seria usado para matá-lo. Foi saltando por entre os escombros. Escorregou e caiu num rio de lama, que o levou até a saída do segundo portal.


PARTE 7


(No terceiro portal)


O coelho entrou numa caverna escura. Acendeu uma tocha de cacau dourado e seguiu em frente. Mancava e sentia dores no corpo.


O final da caverna dava num penhasco. Do outro lado do abismo dava pra ver um batedor de metal tocando um grande sino oriental no ritmo aleat√≥rio do vento. Em condi√ß√Ķes normais n√£o seria dif√≠cil pular, mas ferido, sujeito √†s rajadas de vento e com o peso da bagagem, seria bem arriscado. Resolveu ent√£o s√≥ manter os itens de menor peso e descartar todo o resto, desfiladeiro abaixo. Esperou o vento parar de soprar e saltou para o outro lado.


Lá, tirou o casaco acolchoado e o amarrou no batedor para abafar o som. Estava exausto para caminhar pela área como fez no portal anterior. O melhor a se fazer agora era ouvir. Escutar com cuidado os sons da cidade para economizar energia e ir ao lugar certo. Realocou os objetos mágicos nas meias e bolsos da calça. Sentiu um movimento estranho no alto de um templo. Parecia um monumento histórico. Algo antigo e robusto, que resistia bravamente à corrosão do vento.


Na fachada do templo, viu desenhos contendo xingamentos e insultos. Eram traços de vandalismo recente. Havia uma pichação satirizando a culinária local, com os habitantes comendo lixo.


O templo estava interditado com cord√Ķes de isolamento, como se fosse preciso, diante de uma cidade fantasma. O coelho passou por baixo das correntes e foi √† ala principal, procurando acesso √†s escadarias. Todos os acessos davam em paredes de concreto. O templo estava completamente lacrado, inacess√≠vel. O coelho saiu, rondou a constru√ß√£o e percebeu na entrada dos fundos uma enorme pena de ave, ainda suja de tinta fresca, a mesma tinta dos desenhos ofensivos. No telhado mais alto, um barulho estranho p√īde ser ouvido. Um poss√≠vel sinal de vida.


Tirou do bolso pequenas molas de chocolate e acoplou na sola das botas. Come√ßou devagar e foi aumentando a amplitude do salto. Depois de v√°rias tentativas, conseguiu se projetar na dist√Ęncia exata, suficiente para agarrar com as m√£os o teto do √ļltimo andar da torre. O vento era forte e por pouco n√£o caiu. Um p√°ssaro negro gigante com bicos e garras de a√ßo encarava a subida com um olhar predador. O coelho ficou paralisado e fez um gesto de rendi√ß√£o com as m√£os. Deu um sorriso de nervoso, expondo seus dois dentes da frente. Falou em ritmo acelerado e com medo.


COELHO: Calma, eu n√£o vim te machucar. Eu vim conversar. Tenho alimentos.


Num rompante inesperado e certeiro, o pássaro quebrou com seu bico o dente incisivo esquerdo do coelho. A dor foi terrível. Como enfrentar um bicho irracional para quem a fala não vale nada? O coelho tentou conter o ferimento com algumas ataduras de chocolate que guardara nas meias. Rapidamente tudo começou a rodar e de repente estava voando e sentindo as garras frias do pássaro nas suas costas. O animal batizou toda a cidade com sangue fresco de coelho. Depois de um verdadeiro desfile nos ares, o pássaro jogou o coelho no pátio principal, bem próximo ao templo. Foi até o sino e tocou com o bico num ritmo específico e reiterado, que soava como um código secreto.


Ouviu-se um barulho de pedras rolando. As obstru√ß√Ķes das escadas do templo se romperam e desceu delas um samurai prateado com uma espada no cinto. Ele agradeceu ao p√°ssaro se curvando gentilmente. Sacou a espada e posicionou no pesco√ßo do coelho.


COELHO: Espere, por favor! O senhor pode falar comigo?

SAMURAI: Claro, n√£o somos b√°rbaros. Que sejam ditas suas √ļltimas palavras. Mas seja s√°bio. Caso nos ofenda, n√£o hesitarei em sacrific√°-lo. Mas vamos, fale, √© direito seu.

COELHO: Eu vim por uma causa nobre. Para fazer o mundo renascer.

SAMURAI: Ningu√©m nunca pisou aqui movido por altos ideais. √Č sempre assim. Diante da morte iminente come√ßam a mentir e se fingem de anjos. Mas a hist√≥ria sempre se repete. Voc√™s v√™m para nos acusar, para nos culpar, para dizer que somos o epicentro do mal.

COELHO: Eu não sabia o que ia enfrentar quando saí de casa de manhã. Se soubesse nem teria posto os pés para fora. Só vim porque tenho uma missão. Gostaria de ver essa cidade com o templo aberto, respirando de novo.

SAMURAI: Houve uma √©poca em que o templo reluzia como ouro na luz do sol. Antes dos v√Ęndalos apagarem a luz e deix√°-lo cinza como uma sarjeta qualquer. Para n√≥s ele ainda reluz por dentro. Mas as pessoas vivem entocadas, com vergonha, protegidas em suas cavernas. Tapamos a entrada de nossas casas para preservar o pouco de luz que nos restou. Nosso p√°ssaro negro √© a √ļnica garantia de seguran√ßa. Ele era inofensivo antes dos estrangeiros arrancarem suas penas para vandalizar nossa cultura com escritas grosseiras. Hoje ele se tornou mais violento que qualquer pessoa violenta, atacando antes de ser atacado. Apesar disso, n√£o esqueceu de n√≥s. √Č ele que coleta frutos e os distribui pelas frestas das cavernas para alimentar nosso povo.

COELHO: Eu compreendo… Eu vim pelos mesmos motivos do pássaro. Também trabalho distribuindo recursos pelas residências. Eu produzo chocolates capazes de alimentar as almas. E também perdi quase tudo que tinha, fui acusado de quase tudo que pode imaginar e duvidava de mim mesmo até ontem. Mas percebi que não tinha outra alternativa senão assumir o meu lugar no mundo. Eu não vou me curvar diante de vocês porque não tenho medo. Eu os entendo. Por isso vou ficar de pé.


O coelho foi se erguendo lentamente, com a espada do samurai no seu pescoço.


SAMURAI: Veja bem o que você faz. Pode lhe custar a cabeça.

COELHO: Eu quero lhe oferecer uma possibilidade de reparação por tudo o que sofreram. Prometo trazer o templo de volta à vida. Mas em troca, preciso de duas solturas: a minha e a do pássaro.

SAMURAI: Voc√™ quer nos tirar nossa √ļnica defesa? Nosso povo jamais aceitaria isso.

COELHO: Se eles recuperarem a autoestima n√£o mais precisar√£o de her√≥is. E eu terei sido o √ļltimo a precisar perder o dente √† toa. Eu lhe prometo que posso cumprir o que digo.

SAMURAI: Se você conseguir terá feito o maior milagre do mundo. Eu não acredito que tal feito viria de alguém como você. Nunca achei que uma presa pudesse chegar tão longe. Mas vá lá, mostre-me.


O coelho tirou todos os itens m√°gicos restantes dos bolsos e os espremeu com as m√£os, formando uma argamassa dourada. Fez um gesto com as m√£os chamando a massa a se levantar do ch√£o e assim foi feito. Ela envolveu toda a torre. O monumento foi ganhando um brilho muito intenso, que mudou inclusive o semblante do p√°ssaro. Os moradores olhavam at√īnitos pelas frestas. N√£o puderam se conter e quebraram as veda√ß√Ķes de suas casas. Tomados de luz eles se tornaram leves e come√ßaram a voar em dire√ß√£o ao templo.


O coelho subiu no primeiro telhado do templo. Ao virar pra tr√°s viu que o p√°ssaro tamb√©m estava l√°, agora dourado e com um ar sereno. O p√°ssaro baixou a cabe√ßa em rever√™ncia ao coelho, mordiscou um peda√ßo do arco √≠ris e trouxe delicadamente at√© o dente do coelho, que finalmente cicatrizou. O coelho apontou para a dire√ß√£o do quarto portal e fez um gesto chamando a grande ave. Torceu um dos bra√ßos em dire√ß√£o ao peito, com os punhos fechados formando uma linha paralela ao ch√£o e correu at√© a beira. O p√°ssaro sobrevoou o coelho e apanhou seu bra√ßo com as garras, conduzindo o her√≥i at√© o √ļltimo desafio.

PARTE 8


(No quarto portal)


Os feixes dourados tinham se acoplado ao corpo do coelho como uma segunda pele. Seu aspecto agora era mestiço: alguns pêlos brancos e outros dourados.


Foi recebido numa arena lotada. Soldados o conduziram ao centro da arena. O p√ļblico gritava ensandecido. Um guarda bailarino se apresentou com uma agulha no sapato esquerdo e um grafite no sapato direito. Apoiou o esquerdo no ch√£o e rodou o direito, formando um c√≠rculo, como um compasso. Um outro soldado chegou com um carimbo pesado nas costas e o soltou no meio do c√≠rculo rec√©m desenhado. A imagem formada com a tinta do carimbo era a de um coelho com ovos de p√°scoa. Logo √† frente um p√ļlpito de grandes propor√ß√Ķes verticais colocava em destaque um sujeito de toga e martelo na m√£o. Sua apar√™ncia era id√™ntica ao coelho da p√°scoa, s√≥ que mais velho, com uma longa barba branca.


O coelho foi orientado a sentar no círculo demarcado.


JUIZ: Bem vindo, estimado coelho da p√°scoa. Como est√° se sentindo?

COELHO: Cansado e disposto. Fraco e forte. Pequeno e grande.

JUIZ: Perfeito. Voc√™ aceitou se desafiar e ir at√© o final. Como dizia Coelh√≥steles: ‚Äúse souber brincar com fogo, n√£o h√° nada mais bonito‚ÄĚ. Agora √© um momento crucial. Acredito que seja surpreendente para voc√™, mas n√£o ter√° que enfrentar nenhum monstro nessa arena. Pelo menos gostar√≠amos de acreditar que n√£o. Quem est√° obstruindo este portal √© o senhor.

COELHO: Eu? Mas eu cheguei agora!


O p√ļblico riu.


JUIZ: Chegou agora em consciência. Nós estamos te suportando há anos. Sua melancolia, sua vontade de desistir, sua nuvem de pensamentos sombrios sedimentou essa arena. E hoje você pode finalmente vê-la.

COELHO: Isso é um tribunal de inquisição?

JUIZ: Depende de voc√™. Meu papel aqui √© apenas t√©cnico. Algu√©m de sua estatura espiritual √© capaz de fechar um portal por si s√≥. Da√≠ a responsabilidade que voc√™ tem. Os outros foram fechados por egr√©goras de medo coletivo. Mas esse n√£o. Voc√™ foi o √ļnico causador. Estamos h√° anos esperando pela sua visita para que voc√™ enfim nos liberte do sofrimento.

JUIZ: Guardas, tragam o "grande telefone".


Foi apresentado um antigo telefone analógico com fios emendados por fita isolante. Ao invés de um plugue, a conexão no final do fio era feita de agulhas, que foram conectadas ao lado esquerdo do peito do coelho.


JUIZ: O processo é simples. O telefone vai tocar cinco vezes. Você deve atendê-lo e dizer de maneira sucinta a primeira coisa que pensar. São perguntas que te atormentaram a vida toda e você não soube como responder. Chegou a hora. Quando estiver preparado avise.

COELHO: Pode começar.

CHAMADO1: Qual o seu maior sonho?

COELHO: Fazer com que os outros sintam a luz do cacau dourado.

CHAMADO2: Qual o seu grande medo?

COELHO: Ser devorado por predadores.

CHAMADO3: Você sabe como superar esse medo?

COELHO: Sei. Enxergando os predadores como seres que est√£o me polindo e medindo se estou acreditando mesmo no meu objetivo.

CHAMADO4: Quem acredita em coelho da p√°scoa hoje em dia?

COELHO: Eu acredito. Porque eu o sou. Eu me tornei a mim mesmo.

CHAMADO5: E o que isso significa?

COELHO: Que todas as portas se fecharam para mim a vida toda, a √ļnica que se abriu foi a que me levou a ser o coelho da p√°scoa.

JUIZ: Prove.

Abriram-se cortinas, revelando milhares de portas.


JUIZ: Você tem o direito de abrir apenas uma. Quando eu fizer o sinal, saia do círculo e caminhe sem oscilar, em linha reta, direto para a porta escolhida. Se você acertar, este portal será liberto. Se você errar, terá que enfrentar todos os monstros de novo. Nos poupe do erro, por favor. Olhe para o tamanho da minha barba, ela é a medida de todo o tempo esperando que você acerte.


A torcida gritava em polvorosa dando palpites: "pegue a porta azul", “pegue a porta com detalhes ornamentados". Alguns jogaram cenouras indignados ao verem que o coelho os ignorava. O coelho tapou os olhos e caminhou precisamente para uma das portas.

PARTE 9


Acordou em casa. Cochilou um pouco antes de ouvir as batidas na porta de casa. L√° estava o duende, ajeitando seu gorro com express√£o de espanto e alegria.


DUENDE: Meu Deus! Você voltou!

COELHO: Como foi com o monstro dos papéis higiênicos?

DUENDE: Aquele ali n√£o tem jeito, ele est√° construindo uma outra montanha com folhas de √°rvores locais. √Č uma obsess√£o.

COELHO: Só espero não construir minhas montanhas de novo… Que dia é hoje? Que horas são?

DUENDE: Ainda é páscoa, mas falta pouco para anoitecer. Eu realmente estou surpreso que você tenha conseguido voltar em tão pouco tempo… Você está bem?


O coelho riu.


COELHO: Sim, eu escolhi a porta certa.

DUENDE: Nossa, que riso é esse de um dente só?

COELHO: Me machuquei um pouco, mas de resto estou bem. E a fada?

DUENDE: Ela está resistindo. Necessita de uma dose mais intensa do remédio. Ela precisa de um daqueles chocolates concentrados. Mas está tranquilo, com certeza você não usou tudo aquilo. Vamos derreter alguns e logo ela estará de volta.

COELHO: Meu caro, eu usei todos.

DUENDE: Nossa… Pelo menos você está vivo… Mas tudo há de se resolver de algum jeito.

COELHO: Dê-me esses ovos. Eu vou entregar tudo o que puder até o fim do dia.

DUENDE: Tem certeza? Não é tão necessário na verdade. São muito poucos. As crianças que tinham que ganhar já ganharam por outras vias. Você pode dormir um pouco se quiser. Eu fiquei aqui porque realmente não tinha pra onde ir hoje.

COELHO: Doze crianças ainda podem ser salvas esta noite.

DUENDE: Ent√£o toma, s√£o todos seus.

. . .

PARTE 10


Onze pa√≠ses receberam os ovos em pouco tempo. Agora faltava entregar o √ļltimo. Uma casa chamou a aten√ß√£o do coelho, pois tinha um papel colado na porta com um desenho detalhado de um ovo de p√°scoa. Da janela da varanda um menino olhava pra rua com um olhar de contempla√ß√£o. A m√£e foi at√© a entrada da casa e tirou o desenho da porta, apontando para o rel√≥gio e fazendo um gesto para o filho sair da varanda e ir dormir. O coelho olhava tudo de tr√°s de uma moita. O garoto ficou mais algum tempo com as m√£os no vidro da janela. Antes que desprendesse o √ļltimo dedo do vidro, o coelho correu e alinhou a palma de suas m√£os com √†s do menino, do outro lado do vidro. O menino dilatou as pupilas. O coelho, que escondia o chocolate nas costas, puxou o presente para frente e chacoalhou a embalagem sorrindo. O menino achou gra√ßa ao perceber que o coelho tamb√©m n√£o tinha o dente da frente. O ovo foi entregue pela fresta da janela. O menino tomou ar para chamar a m√£e na esperan√ßa de que ela enfim o entendesse, mas o coelho o interrompeu com um indicador na pr√≥pria boca e em seguida tocando no lado esquerdo do peito do garoto. O menino segurou os bra√ßos do coelho e lhe entregou o amuleto. O coelho abriu o envelope. Era uma rara moeda feita no vale do chocolate, com alta concentra√ß√£o de cacau dourado.



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