EP6 (WYT)

Atualizado: 10 de ago.

Este texto surgiu da conexão de ways. Leia aqui!


O UIVO VELADO


PARTE 1


DELEGADO: Ligou cedo, hein? (tosse seca).

POLICIAL: Temo que sim. Você precisa saber... a Alana está desaparecida.

DELEGADO: Ora, ou está mexendo no notebook de estimação ou está fincando agulhas no quadro de cortiça. É só ir até a casa dela e conferir. Mais alguma coisa?

POLICIAL: Nós já estamos aqui, chefe. O apartamento dela foi invadido. Segundo o porteiro, Alana saiu para correr às 4 da manhã e ainda não voltou. Felizmente, não estava em casa na hora do ocorrido. Mas é possível que a tenham alcançado na rua.

DELEGADO: Algo não bate nessa história. Minha detetive não se deixaria rastrear a este ponto.

POLICIAL: Acho que ela sabia demais sobre o caso das facadas do Parque Limpo. É possível que o bandido a tivesse como próximo alvo. O sujeito voltou a cometer crimes semana passada: mais um corpo foi encontrado nas imediações do parque, perfurado por exatas 34 facadas. Acreditamos que se trata de um serial killer de mulheres. E que de alguma forma... gosta de matemática.

DELEGADO: Por quê? Deixou códigos numéricos?

POLICIAL: O número de facadas é sempre um número primo.

DELEGADO: Ah vá. Quantos crimes ele já cometeu?

POLICIAL: Cerca de 15.

DELEGADO: E os golpes são todos em números primos?

POLICIAL: Isso.

DELEGADO: Deve ser um nerd.

POLICIAL: Sim, chutaria um jovem narcisista.

DELEGADO: E frustrado sexualmente.

POLICIAL: Provável.

DELEGADO: Mas e o notebook da Alana? Estava no apartamento?

POLICIAL: Não. Não tem computador, HD ou qualquer arquivo físico com dados da investigação. Os móveis estão arranhados, os quadros quebrados e a parede da cozinha está manchada de ovos caipiras. Tem um liquidificador sujo de molho tomate na pia e um fio de macarrão no piso, que lembra inclusive o formato de um ponto de interrogação.

DELEGADO: Ok, você já me convenceu. Por acaso sabe se Alana frequentou algum lugar diferente nos últimos dias?

POLICIAL: Participou do podcast da Peritatá.

DELEGADO: Peritatá?

POLICIAL: Sim, é um bate-papo descontraído sobre curiosidades dos investigadores. Os cortes do episódio viralizaram, graças a uma 'thumb" que mostrava o pescoço de Alana sendo arranhado por uma garra de desenho animado, com uma frase colorida ao lado: "O dia em que eu capturei um lobisomem". Não era nada demais. Você sabe como funciona a monetização desses canais... O suposto lobisomem não passava de um criminoso comum, que tinha muitos pêlos no corpo e só atuava de madrugada.

DELEGADO: Ah. Menos mal. Ela expôs algum dado particular nessa entrevista?

POLICIAL: Pelo contrário. Estava usando mangas longas para tapar as tatuagens. Cobriu a face com máscara respiratória e óculos escuros. E cortou o cabelo de um jeito diferente, com um topete de um lado e a cabeça raspada do outro.

DELEGADO: Hum. Mas alguém pode ter conseguido concatenar informações dessa entrevista a ponto de descobrir onde ela mora. E provavelmente quem o fez sabia que o desaparecimento de Alana seria uma das maiores perdas para esta corporação.

POLICIAL: Certamente.

DELEGADO: Vou ver o que posso fazer e já retorno.

POLICIAL: Ok, chefe.


PARTE 2


O delegado ajeita um café com filtro reutilizado, enche a caneca e vai para a mesa de trabalho, vivenciando misturas explosivas de seus próprios gases estomacais.


Dá um bom dia a um primeiro funcionário que chegou demasiado cedo ao trabalho.


Acomoda-se na cadeira e gargareja selvagemente com o café, olhando para o teto.


Sente um arrepio na espinha e encolhe o pescoço, quando ouve aquela voz respondendo um bom dia requentado e fora de timing.


PARTE 3


Em meio a envelopes e amostras de digitais, lá está Alana, absolutamente estoica.


O chefe se aproxima, fazendo-a sentir um vento rascante de intenso perfume cítrico, usado para mascarar higienes mal feitas.


ALANA: Com licença, algum problema?

DELEGADO: Eu que pergunto. Você está bem?


O delegado bica o café emitindo ruídos. Olha para Alana incrédulo, em silêncio.


DELEGADO: Você não vai me contar o que aconteceu?

ALANA: Sim. Estou trabalhando.

DELEGADO: Você está sendo irônica ou realmente não sabe o que aconteceu?

ALANA: Como assim?

DELEGADO: A sua casa foi invadida, mulher!

ALANA: Ah é. Poderia acontecer.

DELEGADO: E você está ok com isso? Está exposta, corre risco de vida e vai gastar uma puta grana para arrumar aquilo lá. Sua frieza às vezes me impressiona...

ALANA: Ossos do ofício. Chegaram a me ameaçar por mensagem anônima, mas não achei que fosse chegar às vias de fato. Fique tranquilo, eu me precavi: o material sigiloso está numa empresa de cofres.

DELEGADO: Ótimo. É bom ter alguém como você no time, porque as coisas estão saindo bastante do controle. A propósito, Matriz Fontana já está no ranking das cidades mais violentas do país. Qualquer cuidado é pouco. Inclusive, aqui em off... só entre nós... (começa a falar em tom mais baixo). O prefeito tem me pedido para divulgar dados falsos. Porque se a população descobrir que não estamos conseguindo nem dar conta de 10% das ocorrências, vão começar as ondas de pânico. Também pediu para colocarmos "no início da fila" os crimes passionais, porque são os que mais traumatizam o povo.

ALANA: O amor pode ser bem obscuro mesmo... Andei pesquisando... Quem tem cometido esses crimes passou por grandes frustrações afetivas e está querendo compensar com violência exacerbada.

DELEGADO: E onde se escondem os nossos queridos criminosos passionais, Alana?

ALANA: Fogem para cidades do interior. Tentam recomeçar suas vidas. Às vezes voltam a matar, às vezes não.

DELEGADO: Mas tem muitas cidades no entorno, fica difícil mapear.

ALANA: Por isso é importante nos integrarmos com as inteligências policiais de outras metrópoles. Não vamos precisar mascarar dados. Vamos solucionar esses casos, confie em mim.

DELEGADO: Se você diz...


PARTE 4


O delegado vira as costas, se arrepende, e volta com o dedo indicador em riste:


DELEGADO: Escuta aqui, você precisa de férias.

ALANA: Oi?

DELEGADO: Coisa rápida, só para botar a cabeça no lugar até a poeira baixar. Você acaba de ganhar uma licença até quinta-feira.

ALANA: Imagina, não precisa.

DELEGADO: Some, mulher! Vai ser bom para você.

ALANA: Mas se eu parar a investigação no meio...

DELEGADO: A gente vai segurar a barra.

ALANA: Na verdade não sinto necessidade de recesso.

DELEGADO: Uma semaninha off vai fazer um milagre na sua vida.

ALANA: Mas eu já estou bem.

DELEGADO: Alana, é Natal! Por que você não aproveita para visitar sua família? Você tem sido brilhante, mas está cada vez mais entrincheirada em si mesma, distante... Eu odeio ter que dizer isso, mas talvez você esteja sendo profissional demais. Me diz uma coisa: o que você fazia antes de trabalhar aqui?

ALANA: Morava em Açude do Calvário, basicamente me preparando para vir para cá.

DELEGADO: Então. Por que você não passa o Natal lá com a sua família?

ALANA: Eu nem sei se ainda tenho família.

DELEGADO: Tem sim. Tira férias desse ogro aqui. Reata com a sua família. É uma cidade tranquila, bom para relaxar. Chegou a minha vez de fazer algo por você. Você já me salvou tantas vezes...

ALANA: Ok, uma semana e nada mais. É o tempo de cuidar de algumas pendências.

DELEGADO: Que bom ouvir isso. Você vai voltar outra, com a bateria recarregada.


PARTE 5


A investigadora vai até o próprio apartamento, pula os cordões de isolamento e enche a bagagem de mão com itens que sobreviveram à invasão: duas mudas de roupa, um fone de ouvido, uma maçã, um binóculo, um pacote de munição e uma bola de enfeite natalino.


De lá, vai direto para a rodoviária.



PARTE 6


De óculos escuros espelhados, que não permitem ver seus olhos, ela desvia de olhares masculinos, em especial o de um executivo que a encara insistentemente.


Alana caminha até a área de embarque.


Tira a maçã da bagagem e dá uma mordida, enquanto olha para o céu, onde nuvens parecem sugerir a imagem de um casal se beijando.


O estranho executivo a ronda, chegando cada vez mais perto.


Com uma postura dominante, ele desenha com os dedos um coração no vapor do vidro e morde os lábios em tom jocoso, acompanhando o movimento da boca dela mastigando a maçã.


Depois, resolve puxar assunto, vestindo um sorriso largo de cintilante clareamento dental.


EXECUTIVO: Linda, tudo bem? Como nós vamos ficar juntos em algum momento da sua vida, resolvi me antecipar: Eu sou o seu macho. Me chamo Rashid: um cara autônomo, divertido, que sabe curtir a vida e tratar bem uma mulher. Prazer em conhecê-la, como você se chama?


Ela continua em silêncio, mastigando a última parte da maçã.


EXECUTIVO: Está tudo bem?


Ela aponta para o ônibus chegando.


EXECUTIVO: É o seu?


Sem dizer uma única palavra, põe os fones de ouvido, aciona sua playlist de música lo-fi e sobe no ônibus.


Localiza sua poltrona e coloca um travesseiro na janela para excluir de vez o desagradável sujeito, deixando-o desintegrar-se no abismo da visão periférica.


PARTE 7


Começam a vir à sua mente lembranças da cidade natal: o som do latido do vira-latas no portão de casa. 🐕


Naquela época, sua relação com o animal se restringia a acenos distantes.


Provavelmente, na linguagem dos cães, tal gesto frio era equivalente a um pato se coçando ou uma goiaba rolando. Algo ausente de qualquer significado ou especial afeição.


O cachorro costumava encará-la com semblante suplicante, numa esperança de que, tal como todos os outros membros da família, em algum momento, ela resolvesse se jogar no chão, acariciar a barriga do pet e proferir palavras fofas em falsete, capazes de aquecer corações moles.


Mas gentilmente, Alana pedia licença e colocava uma toalha vedando a soleira da porta do seu quarto para não ser incomodada pelo barulho do bicho tentando farejá-la.


PARTE 8


Agora, à bordo do ônibus, Alana acaba de ser tocada nos ombros por um homem desconhecido, bem na altura de sua tatuagem, que tem o desenho de uma lupa circundada por rosas vermelhas.🕵️‍♀️🌹


Assustada, ela dá pancadas de travesseiro no rosto dele, que fecha os olhos e faz um gesto de afastamento, protegendo-se com as mãos.


PASSAGEIRO: Calma. É que você pegou o meu lugar. O assento da janela é meu, olha aqui. (mostra o bilhete).


Este novo "colega de viagem" veste camiseta branca suada e um grande chapéu de palha. Tem bigode volumoso e pêlos grossos, que saltam em tufos para fora da blusa.


Alana coça o nariz, joga a boca de um lado para o outro e passeia os dedos em seu piercing de argola do septo, tentando encontrar forças para aceitar que terá de viajar ao lado daquele sujeito e ainda ter que deixar sua estimada janela, onde costuma concatenar reflexões.


A cada quebra-molas, a aba tremulante do chapéu do homem remete à asa de um avião em pista de decolagem, o que faz Alana arrepender-se de não ter buscado viagens de rotas mais distantes: aeroporto ao invés de rodoviária. Para longe de casa ao invés de para perto de casa.


PARTE 9


O homem pede licença para ir pegar copos d´água gratuitos no frigobar dos fundos do ônibus. Com isso, todas as vezes que sai e retorna ao assento, roça nela os glúteos parcialmente expostos e úmidos.


Depois de refrescantes "ahhs" e barulhos de plástico amassado, ele espreme o copo para tomar até a última gota, emitindo ruídos de sucção e saliva, frequentemente deixando escapar respingos sobre as coxas de Alana.


Na poltrona da frente, um pré-adolescente chora esganiçado, culpando os pais por tê-lo obrigado a embarcar numa viagem indesejada.


Se o destino quisesse aproveitar para "zerar o karma" com alguma tragédia coletiva mais pesada, esta seria a hora.


Havia um padrão nos passageiros à bordo daquele ônibus: ressentimento e sensação de embarque a contragosto.


Talvez por mérito do motorista, talvez por sorte, um destino cruel tenha sido poupado, ao menos por hoje.


Todos chegaram ainda vivos na rodoviária de Açude do Calvário.

PARTE 10


Da rodoviária até a casa de sua mãe é preciso ainda pegar um trem.


Que alegria Alana sentiu num daqueles vagões, quando comprou passagem só de ida para Matriz Fontana, onde estamparia do lado esquerdo do peito o seu crachá de detetive.


Agora, 15 anos depois, estava voltando, quem diria, voluntariamente, ao seu pior pesadelo.


PARTE 11


Ela busca um motorista de aplicativo para não ter que ir naquele velho trem, quem sabe a essa altura a cidade já não conte com algumas facilidades.


O motorista aceita a corrida na mesma hora e grita do outro lado da calçada:


MOTORISTA: Dona Alana!?


Ela concorda com a cabeça.


MOTORISTA: Boa tarde, senhora! Rua Maria, número 4?


ALANA: Sim.


MOTORISTA: Desculpa perguntar, mas você é estrangeira?


ALANA: De certa forma sim.


MOTORISTA: Logo vi. O povo daqui só pega aplicativo em caso de emergência. Estão acostumados ao trem mesmo. Coisa cultural. Aqui vivemos uma vida pacata, só tem gente de bem, pronta para ajudar. Você vai gostar do nosso povo. (sorri pelo retrovisor, expondo a prótese de um dente canino dourado reluzente).


Desinteressada, ela faz que sim lentamente com a cabeça enquanto olha pela janela as velhas ruas que já foram paisagem de uma parte considerável de sua vida.


As gramas dos parques públicos permanecem na mesma altura da partida. Ela solta um leve sorriso de canto de boca.


O motorista interpreta o gesto como um sinal de abertura ao diálogo:


MOTORISTA: E esse brinco no nariz hein? Doeu para fazer?


ALANA: Não muito.


MOTORISTA: Garota corajosa! Essa aí tirava bicho de pé na unha, não é não? (risos).


Alana suspira e abre o celular.


Recebe uma notificação de mensagem do grupo dos investigadores da polícia, onde acabaram de compartilhar uma foto do happy hour na delegacia.


Não costumavam fazer isso na sua presença. Talvez o espírito natalino tenha esquentado demais aqueles corações.


Por um momento, questionou se os colegas estavam mesmo trabalhando e se dariam conta do recado sozinhos.


Mas depois percebeu que precisava ignorar este problema por enquanto, ou não conseguiria enfrentar o terremoto emocional que estava por vir.


PARTE 12


MOTORISTA: Você não pode deixar de conhecer a arena cultural a céu aberto. Foi construída para atrair movimento das cidades vizinhas para cá. Fica perto da rodovia intermunicipal e o acesso se dá por um trecho de terra batida. Tem shows, pista de corrida, churrasquinho e doces regionais.


ALANA: Ah, claro.


MOTORISTA: Olha, toma aqui o meu cartão. Se você quiser eu te levo até lá num fim de semana. É bom ir com quem sabe os caminhos. Assim você evita contratempos. A arena ficou um bom tempo interditada, por causa do cachorrinho, mas agora está funcionando de novo a todo vapor.


ALANA: (Alana se faz de desentendida). Cachorrinho?


MOTORISTA: Há alguns anos atropelaram um vira-latas na pista. Foi um terror. Manchou tudo de sangue.


ALANA: Ah, sinto muito.


MOTORISTA: Tudo bem, já passou. Mudando de assunto, me conta: você vai ficar no Hotel Império? Com certeza que vai né? Todo turista fica lá.


ALANA: É. Todo turista.


MOTORISTA: Só fica esperta com os marmanjos, hein? Você sabe como é... os garotos veem gente como você assim de fora, estilosa, bonita e ficam só abanando o rabinho com segundas intenções. Cuidado. Se você se engraçar com algum deles, a cidade toda vai ficar sabendo. Aqui é boca solta. Se eu fosse você ficava mais discreta, tirava esse brincão aí... Vai saber né?


Ela murmura uma sílaba anasalada.


MOTORISTA: A propósito, não sei se já me apresentei, mas meu nome é Plínio, toma aqui o meu cartão.


ALANA: Você já me deu o seu cartão, senhor.


MOTORISTA: Toma outro, vai que você perde o primeiro. Nunca é demais. Eu tenho dezenas de cartões impressos de outros carnavais, do tempo que você não era nem nascida. Preciso dar vazão. Para não jogar fora. Toma aí. Porque você pode precisar de mim. Posso te mostrar a cidade, te indicar umas coisas, ser seu ombro amigo, tomar um chopp contigo. Um cara legal. Confiável. (um bulldog de brinquedo em cima do porta-luvas balança a cabeça como que afirmativamente, atiçado pelos solavancos da estrada).


Ela faz que não com a mão.


MOTORISTA: Vai ficar mais no hotel mesmo né? Aposto que veio a trabalho. Pessoa focada, introspectiva. Boa. Maravilha.


PARTE 13


Ela mira os olhos nas nuvens, depois desce e escaneia o movimento das ruas da cidade. Já esboçam alguma decoração natalina, com papéis noéis, pisca-piscas e árvores de natal.


A pracinha do escorrega do centro. O antigo cinema. O restaurante da Dona Dalva. A pipoca caramelizada da rua Dália. A loja de arranjos floridos. A feira de antiguidades. As senhorinhas batendo toalhas na janela.


Dali em diante, sabia o caminho de cor, como as palmas de suas mãos.


Tia Ana, que possuía inclinações místicas, uma vez lhe dissera após uma leitura de quiromancia:


"Você não é tão perdida como acha. Uma força maior sopra nos seus ouvidos e sempre te protege do pior".


Ao contrário do motorista, que ao que parece, está definitivamente perdido: ao invés de pegar a avenida principal, vira numa rotatória, passa por um túnel e entra numa garagem.


Desce uma rampa, reduz a marcha e estaciona.


Alana já fica a postos para apertar o botão de pânico do aplicativo ou rendê-lo com a própria arma.


Mas antes de tomar medidas mais drásticas, resolve dar ao motorista um último voto de confiança.


ALANA: Moço, essa garagem tem uma saída do outro lado? Vai dar no meu destino?


MOTORISTA: Meu Deus, minha Nossa Senhora! Você não sabe o susto que me deu. O que é isso? Coloca a mão aqui no meu peito.

ALANA: Não é preciso.

MOTORISTA: Estou com o coração acelerado. Achei que não tinha ninguém no carro. Eu esqueci completamente de você. Desculpa.


ALANA: Sério? Mas a gente estava conversando. E você acaba de parar a poucos metros de onde vou ficar, segundo o GPS.

MOTORISTA: Sim, sim. Do outro lado da rua. É só fazer o retorno. É que... essa é a minha casa. Eu ia subir para fazer um lanche e jogar uma água no rosto. Achei que estava sem passageiro. Você não quer dar uma subidinha? Tem bolo, café.


ALANA: Não moço. Me deixa lá, por favor.


MOTORISTA: Não.


ALANA: O quê?!


MOTORISTA: E se eu não te deixar?


ALANA: Você vai preso.


MOTORISTA: Você acha que aqui tem policiamento?


ALANA: Acho não, tenho certeza. (Alana mostra o distintivo).


MOTORISTA: Nossa. Perdão. Relaxa. Era brincadeira. Vou te levar.


A voz do GPS alivia o clima tenso:


"Chegamos ao destino. Verifique seus pertences e tenha um ótimo dia".


MOTORISTA: Tem certeza que é aqui mesmo? Se você diz que é, longe de mim questionar mas...

ALANA: Chega. Tchau.

MOTORISTA: Não me negativa no aplicativo não, tá? Toma aqui o meu cartão. Qualquer coisa me liga.

ALANA: Eu não vou te ligar.

MOTORISTA: Toma aqui, toma.


Alana sai do carro e bate a porta fortemente.


O motorista a observa, falando algo denso e verborrágico, chegando a embaçar o vidro do carro. Ameaças inaudíveis. Em pouco tempo, ele arranca o motor e desaparece na curva da estrada.


PARTE 14


Tudo está exatamente no mesmo lugar. Não mudou nada: homens mal-assombrados brotando do nada no meu caminho. A caixa de correio banguela sem portinhola. O velho tapete puído com as letras de boas vindas apagadas. Nada que eu já não esperasse...


Muitos vizinhos vigilantes não se identificam com o ar estrangeiro de Alana e lhe franzem a testa.


Um deles, magro e sem camisa, larga uma lavagem de carro no meio e esquece a mangueira ligada.


O cachorro de Dona Lúcia uiva como se fosse noite de lua cheia, em plena luz do dia.


A prima e seu namorado, que estavam se beijando no banco do jardim, param e abrem os olhos assustados.


PRIMA: Acho que você se enganou de casa.

ALANA: Sou a Alana. Não lembra de mim? (tira os óculos escuros).

PRIMA: Acho que não.

ALANA: Você devia ter uns 5 anos quando eu morava aqui. Sou sua prima.

PRIMA: Ah tá, eu acho que vi umas fotos suas.

ALANA: Mamãe está lá dentro?

PRIMA: Sim, entra lá, acho que está preparando alguma coisa para você.


PARTE 15


Na garagem, Alana nota que o carro de seu pai, apesar de ser o anfitrião, ainda fica estacionado atrás do carro do tio Jorge.


Tal fato sempre gerava desentendimento no fim das festas, quando o tio queria ir embora e lembrava que seu carro estava emperrado pelo do irmão.


Era porque o pai deixava para fazer as compras no mesmo dia, com sua lentidão habitual. Parte em razão da própria personalidade, parte devido a um problema ósseo crônico na perna direita, que dificultava a locomoção.


Já tio Jorge chegava cedo, acabava estacionando primeiro e ia para a sala ler jornal enquanto esperava.


Poderia ou o tio chegar mais tarde ou o pai fazer as compras mais cedo.


Mas nenhum dos dois parecia disposto a amenizar o problema.


Por razões de costume.


PARTE 16


Alana respira fundo, limpa os pés no tapete e puxa a maçaneta.


Logo na entrada, a cena mais que prevista: tio Jorge lê jornal no sofá.


Ao ver o "vulto" de mulher, baixa um pouco as folhas, como quem espreita atrás da moita. Estica o pescoço e encara Alana por cima de seus pequenos óculos caídos na altura do nariz.


ALANA: Oi Tio, tudo bem contigo?

TIO JORGE: Quem que está bem?

ALANA: Você, tio. Como tem estado?

TIO JORGE: Ah sim. Agora sim, você explicou. Não é só sair perguntando. Acho que está tudo bem. Sua mãe disse que você vinha, mas eu tinha lá minhas dúvidas.

ALANA: Sim, vou passar o Natal aqui.

TIO JORGE: Isso eu sei. Mas chegou um tanto cedo, não? O Natal não é só amanhã à meia-noite?

ALANA: Assim dá tempo de me ambientar. Mamãe está lá dentro?

TIO JORGE: Como sempre. Onde você espera que ela esteja?

ALANA: É, imaginei.

TIO JORGE: Deixa a mala aí perto da porta mesmo que daqui a pouco vem um desses namorados bombadinhos da sua prima e carregam para você.

ALANA: Não precisa. Eu levo.

TIO JORGE: Você ainda sabe onde fica seu quarto, né?

ALANA: Sim. Já fiz muito esse caminho.

TIO JORGE: Até se perder.

ALANA: Oi?

TIO JORGE: Seu quarto virou quarto de hóspedes, mas as coisas que você deixou ainda ficam guardadas em caixas dentro dos armários. E só para você saber... compramos o terreno ao lado e ampliamos um pouco a casa, fazendo uns quartos extras. Agora praticamente todos moram aqui.

ALANA: Entendi.

PRIMO JONAS: (interrompe a conversa). É bom que a gente economiza com aluguel.

ALANA: Oi primo!

PRIMO JONAS: Olha ela aí, a pessoa da família que deu certo e é um sucesso na internet.

TIO JORGE: Sucesso?

PRIMO JONAS: Ela é "da hora". Tem dado umas entrevistas nuns podcasts de detetive.

TIO JORGE: Podcast?

PRIMO JONAS: Diz aí para a gente, você veio armada?

ALANA: Sim. Questão de segurança.

TIO JORGE: Arma?

PRIMO JONAS: Posso ver?

ALANA: Claro que não.

PRIMO JONAS: Então deixa eu fazer as honras da casa e levar as suas malas.

ALANA: Se você insiste...

TIO JORGE: É, leva essa menina lá para cima, é melhor.


PARTE 17


PRIMO JONAS: Olha como é o destino... Agora eu durmo aqui do lado, bem pertinho do seu quarto. Se quiser pode até me fazer uma visita noturna. Eu vou adorar.

ALANA: Isso não vai acontecer.

PRIMO JONAS: Credo, você parecia mais simpática no podcast.

ALANA: Você também parecia simpático há dois segundos.

PRIMO JONAS: Aos primos é permitido viver o amor. Essa é a magia do Natal.

ALANA: Que profundo hein, moleque.

PRIMO JONAS: Você tem "lonelyfans"?

ALANA: Óbvio que não.

PRIMO JONAS: Eu assinaria.

ALANA: Mas me diz, você faz o quê da vida? Já se formou?

PRIMO JONAS: Aff que papo de velha...


IRMÃO ISRAEL:(chega no quarto de Alana) Alaninha?

ALANA: Oi!

IRMÃO ISRAEL: Achei que nunca mais fosse te ver. ( Abraço). O que te fez regressar e sujar suas lindas botas com barro do nosso quintal? (risos)

ALANA: Achei que já era hora de fazer uma visita.

IRMÃO ISRAEL: De acordo! Mamãe vai adorar te ver. Vamos Jonas, deixa ela se acomodar em paz. Alaninha, te espero lá embaixo. Temos muito assunto para botar em dia.


Alana sorri e encosta a porta do quarto para se trocar.


Mal fecha e já ouve alguém batendo:


PARTE 18


TIO PAULO: Alana?

ALANA: Eu.

TIO PAULO: Soube que você chegou. Vim te trazer toalha de banho e roupa limpa de cama.


Alana abre a porta e agradece.


TIO PAULO: Nossa, você está bem diferente. Desculpe a sinceridade, mas você virou sapatão?

ALANA: Não. E se eu fosse teria algum problema?

TIO PAULO: Aqui na cidade a gente não lida bem com essas coisas. É contra a natureza, você sabe. Deus criou homem e mulher e ponto. Você já viu algum filho nascer de dois iguais?

ALANA: Não, mas quem sabe amor possa nascer de duas pessoas minimamente semelhantes.

TIO PAULO: Isso é pensamento de gente corrompida.

ALANA: As pessoas não ficam juntas só para procriar. Ficam juntas para ficar juntas mesmo. Como você vai medir o nível da atração que uma pessoa sente por outra se é a outra pessoa que está sentindo e não você?

TIO PAULO: É falta de educação, de regras. Quem dita é Deus, o glorioso, o único caminho possível pelo qual o cordeiro derramou o sangue por nós. Eu sou apenas um servo. Mas está tudo bem. Afinal, você gosta de rapazes não é?

ALANA: Se eu fosse lésbica, essa seria a pior recepção da minha vida.

TIO PAULO: Fica tranquila. Só te peço para na hora da janta tirar esse brinquinho do nariz. Vai pegar mal. Parece coisa do demônio.

ALANA: Com licença, acho que vou tomar o meu banho.

TIO PAULO: Como quiser. Só uma coisa: não demora muito que a caixa

d´água está pela metade. Teve um problema no abastecimento e a família toda vai precisar usar chuveiro essa noite, não só você, tá?

ALANA: Tudo bem. Não costumo demorar no banho.

TIO PAULO: Graças ao bom Deus.


PARTE 19


Alana observa pela fresta da janela do quarto alguns raios solares de fim de tarde, enquanto seca mechas de cabelos aos poucos, de porção em porção com a ajuda da toalha.


As cigarras já anunciam o fechamento dos comércios.


Sai do quarto, tranca a porta e desce.


Na parede de descida das escadas, está a velha decoração de armas brancas que a mãe havia ganhado de herança paterna e ainda mantinha como coleção: facas, espadas, machados, sabres, lanças e um grande escudo.


MÃE: Alana, é você? Estamos na cozinha, vem para cá!


PARTE 20


No meio do estreito corredor que liga a sala à cozinha, fica o quarto do avô, o único do andar de baixo, sempre fechado e em silêncio sepucral.


Dá para sentir a escuridão por debaixo da porta.


Lá as cortinas permanecem fechadas mesmo durante o dia.


Caminhando um pouco mais, Alana avista a figura de seu pai descascando batatas na mesa da cozinha.


PAI: Olha quem chegou! Mas não é que ela veio mesmo?


Ansiosa, a mãe enxuga a mão molhada no pano de prato e chama Alana num gesto de "vem cá" com algum "desrespeito", mantendo as palmas para baixo como se chamaria a um mascote.


Tira o prendedor do longo cabelo grisalho, coloca na boca e repuxa o rabo de cavalo com os braços levantados, para depois prendê-lo de novo praticamente do mesmo jeito.


A mãe veste um avental estampado de frutas secas. Seus ombros largos e presença física marcante obstruem a passagem pelo corredor.


Mãe: Olha ela... (apalpa o corpo de Alana). Você nem secou o cabelo direito. Vem aqui!


Puxa a filha para si e dá-lhe um beijo vampírico arrepiante no meio do pescoço.


Seca os cabelos da filha, usando um rolo de papel toalha.


ALANA: Isso não é necessário. ( pega o papel toalha da mão da mãe e amassa).


MÃE: Então senta aí do lado do seu pai, vai.


O pai sorri brandamente para ela, alisando as mãos na toalha da mesa.


ALANA: Como está a perna, pai? Tem tomado o remédio?

MÃE: Sou eu que cuido de tudo.

ALANA: Tem remédio na despensa? Se estiverem precisando eu posso providenciar.

MÃE: Você acha que a gente ia esquecer? Faça-me o favor! O médico olhou a última radiografia e disse que se eu não estivesse cuidando bem, seu pai já estaria de muletas e quem sabe na cadeira de rodas. Eu falo para ele... toma o remédio, toma o remédio... Todos os dias. Se não fosse eu né... para te lembrar... o que seria de você?

PAI: É isso.

MÃE: Tem um aplicativo que seu primo instalou para mim e lá eu anoto todo santo dia se já dei o remédio. É ótimo. Impossível de esquecer.

PAI: O importante é continuar ativo e ajudando.

MÃE: Ajudando? (olha para Alana e diz) . Não faz praticamente nada, filha.

ALANA: Eu posso ajudar também.

MÃE: Você? E a senhora lá sabe fazer alguma coisa? Cozinha? Lava roupa à mão? Areia panela pesada? Aposto que não.

ALANA: Bem, eu moro sozinha há 15 anos...

MÃE: Sabe nada! ( olha para o marido desdenhando a filha e continua falando para ele). Esse pessoal dessa geração só entende de celular. Eu tenho vontade de passar uma esponja de aço na tela desses aparelhos para ver se eles se tocam. (volta a olhar pra Alana). Não quero ajuda não, senta aí, senta filha.


PARTE 21


O pai sorri ao ver os movimentos da filha se acomodando no banco.


MÃE: Fiz uma torta de ricota com passas. Toma um pedaço aqui ó. Faz um lanchinho, você deve estar faminta.


Alana cruza os braços. No movimento, a mãe nota a tatuagem nos ombros da filha e incrédula, tateia o desenho.


MÃE: Credo, o que é isso?

ALANA: Uma tatoo.

MÃE: Você se estragou toda né filha? Misericórdia... Sua pele já foi melhor. Seu cabelo já foi mais sedoso. Conta para a mamãe... É por causa da fumaça da cidade, é?

ALANA: Pode ser. Mas mãe, essa torta...

MÃE: Calma aí! Vou pegar uma coisa para você beber também.

ALANA: É que eu não gosto de passas.

MÃE: Gostou da torta?

ALANA: Isso que estou tentando te dizer, eu não gosto de passas.

MÃE: Ah que frescura, Alana! E desde quando você está com mania para comer? Sempre comeu de tudo.

ALANA: Algumas coisas mudaram.

MÃE: E o seu marido? Naturalmente está descarregando as malas do carro né?

ALANA: Que carro? Que marido?

MÃE: O seu, tonta!

ALANA: Eu sou solteira.

MÃE: Ah, não fala isso... Daqui a pouco você fica velha e aí? Não faz isso... Você não vai me dar um ou dois netinhos?

PAI: Deixa ela, bem.

ALANA: E o que vocês me contam de novidade hein?

MÃE: Lucinha teve 3 filhos. Mara está no segundo casamento. Jorgina deu sorte, casou com um novaiorquino, foi morar no exterior e está super bem de vida. Rosalva continua com o problema da filha drogada e solteira. Régis vendeu a casa, está atolado em dívidas e tomou calote da ex, uma novela... E você? No que você trabalha mesmo?

ALANA: É uma longa história.

MÃE: Então prova a torta da mamãe.

ALANA: Não dá, tem passas.

MÃE: Mas qual o problema das passas, meu Deus? Passas é uva. Você não gosta de uva?

ALANA: Gosto. Mas passas é uva seca, é outra coisa.

MÃE: Olha só... (olha para o marido balançando a cabeça negativamente). E o que você gosta agora então?

ALANA: Eu gosto de investigar. Sou da polícia. Do setor de investigação criminal.

PAI: Ela sempre gostou dessas coisas mais pesadas.

MÃE: Isso é profissão de mulher?

ALANA: É aberto a qualquer pessoa que tenha vocação e resiliência. Estou muito feliz. Estou alcançando sucesso e reconhecimento. Sou referência na minha área.

MÃE: E sem marido?

ALANA: Sim mãe, sem marido.

MÃE: É importante, filha. Você nem pensa em se casar?

ALANA: Definitivamente não.

MÃE: Você está com um semblante compenetrado, parece cientista. Isso não atrai homem.

ALANA: E você acha que eu quero atrair homem?

MÃE: No fundo sim, você pode tentar mentir mas a mãe sabe das coisas.

(o pai sente o clima pesar e muda de assunto).

PAI: Está um silêncio no jardim... Acho que o pessoal já foi embora.

MÃE: Eles são assim: vêm e vão quando querem, falam pelos cotovelos. Antigamente eram pessoas ótimas, não falavam nada, não discordavam de nada... Mas é a criação né, fazer o quê.

ALANA: Não falar nada é ser ótimo?

MÃE: Ah, não vem me questionar, você entendeu o que eu quis dizer. Amanhã está tudo aí de novo para o Natal, querendo comer sem lavar um prato.

PAI: Mas é bom ter a casa cheia.

MÃE: É bom né? Nesse seu ritmo, querido, o Natal vai ser só daqui a um ano. Sabe há quanto tempo você está descascando essas batatas? Eu já limpei a casa e fiz três pratos principais e você não chegou nem na metade do seu serviço. Como eu vou fazer bacalhau sem batata?


PARTE 22


ALANA: Vamos lá, pai, vou te ajudar.

PAI: Tá bom.

MÃE: Mas voltando ao assunto, filha, você não vai aguentar a barra sozinha, vai por mim. Um marido é importante.

ALANA: Aguentar a barra? (riso descrente). Não acredito que estou ouvindo isso... Eu lido com as coisas mais escabrosas, os crimes mais violentos, com os piores requintes de crueldade. Emocionalmente me tornei uma pessoa de aço. A senhora não aguentaria um segundo da minha rotina.

MÃE: Olha só ela... (olha para o pai decepcionada).

PAI: Ela está diferente.

ALANA: Diferente como, pai?

PAI: Não tem mais os nossos costumes.

ALANA: Mas eu gosto de vocês. Por que vocês acham que eu vim passar o Natal aqui?

MÃE: Porque não tem ninguém melhor. Porque não tem marido.

ALANA: Mãe, você não sabe metade da história.

MÃE: Por quê? Eu sou burra?

ALANA: A minha profissão me coloca em situações perigosas e quero poupar vocês disso. Eu quero ter um momento de paz nesse fim de semana, será que conseguimos?

MÃE: Por mim... o que quero é que sejamos ungidos pelo sangue de cristo, nada mais.

ALANA: E o que isso significa?

MÃE: Você está questionando a minha fé?

ALANA: Na verdade não, só quero entender o que você está dizendo.

PAI: Sua mãe tem a fé dela e você tem a sua, melhor não falar sobre isso.

MÃE: Você não crê em Deus? Me perdoa, Senhor. Me perdoa ó pai. Eu devia ter te colocado um nome bíblico.

ALANA: Isso não importa, mãe.

MÃE: Sem marido, sem Deus... Que filha é essa?

ALANA: Mãe, eu estou conquistando as minhas coisas.

MÃE: Suas coisas né? Olha o quanto você está perdida. Só pensa em si mesma. Não me liga mais, não responde meu bom dia no zap.

ALANA: A gente se fala às vezes.

MÃE: Às vezes, sei... Só quer saber desse emprego e isso está te fazendo mal. Não consegue falar de outro assunto sem ser esse seu trabalho. E esse nariz furado, o que é isso? Todo danificado com essa argola no meio. Meu Deus...

ALANA: Você pode parar de julgar minha aparência por alguns minutos? Não é o mínimo que se aprende na Bíblia? A não julgar os outros?

MÃE: Você está muito desajustada. É gritante filha. Não tem como não notar. Mas eu vou te emprestar um vestido amanhã. Não vai ter problemas, nós sempre vestimos o mesmo número, não é mesmo?

ALANA: Gente, qual o problema de vocês?

MÃE: Qual o seu problema? Eu que pergunto.

ALANA: É tão difícil assim respeitar algumas diferenças?

MÃE: Se você não respeita cristo, filha... quem vai te respeitar?

ALANA: Mas o que isso quer dizer, "respeitar cristo"? O que você realmente quer dizer com isso?

MÃE: É, infelizmente eu falhei como mãe se você não consegue entender o básico. Não é você que é a melhor investigadora da cidade e fala isso toda cheia de si e sem humildade? Eu te pergunto: E você mesma, você sabe se investigar?

ALANA: Faço o possível.

MÃE: Aproveita que você voltou e tenta se consertar. Eu acredito que milagres podem operar em situações perdidas, justamente para fortalecer a nossa fé. Quem sabe você não conhece um rapaz de família aqui da região, casa, me dá uns netos e tudo volta ao normal?

ALANA: Sinceramente, já se passaram 15 anos e a impressão que tenho é que vocês ficaram congelados no tempo.

MÃE: Graças a Deus, isso é um sinal de que não nos perdemos.

PAI: Alana, se você quiser ficar depois do Natal, sem compromisso, saiba que a casa sempre será tua. Vamos recebê-la com amor e perdão.

ALANA: Perdão?

MÃE: O coração da mãe é enorme, você sabe disso.

ALANA: Deixa eu ajudar o pai a descascar essas batatas... A gente dorme e a amanhã é um novo dia, não é mesmo?

MÃE: Ótima ideia. Se quiser comer, você pega então o que você quiser, do seu jeito. Eu não falo mais nada. Você virou uma pessoa revoltada e difícil de lidar. Eu vou é dormir mesmo. Hoje não parei um minuto e estou precisando descansar. Até amanhã. (dá um abraço brutalmente ansioso na filha).


PARTE 23


Ouvem-se sucessivos cortes e arremessos de vegetais esquartejados, afundando em vasilhas.


O pai pousa as mãos trêmulas nos ombros da filha. Com esforço e sem grande êxito, tenta sacramentar um contato mais profundo.


Para isso, espreme os pequenos olhos lacrimejantes, ligeiramente assustados e vulneráveis.


PAI: Sua presença é muito importante, viu?

ALANA: Você acha?

PAI: Com certeza.

ALANA: A sua também, pai.

Ele abaixa a cabeça e caminha vagarosamente até o jardim, mancando da perna direita.


Alana sobe as escadas em direção ao seu antigo quarto.


O pai vira-se e espia a filha enviesado e sério, do mesmo modo como fazia quando ela morava lá e não sabia estar sendo observada.


Ele costumava abrir a porta do quarto dela durante a noite e olhá-la da cabeça aos pés num gesto ambíguo.


Tinha cópia da chave de todas as fechaduras de todos os cômodos e costumava fazer uma ronda noturna nos quartos para saber se estava tudo nos devidos lugares. Com o tempo parou devido às dores na perna.


PARTE 24


Enquanto sobe, Alana esbarra com o irmão no contrafluxo descendo as escadas.


IRMÃO: Amanhã a gente vai se falar mais, hein! Estou com saudades.


ALANA: Não quer falar agora?


IRMÃO: (subitamente irritado) . Não. Amanhã. (e acelera o ritmo dos passos).


A porta do quarto do tio Paulo abre lentamente, rugindo a dobradiça.


Com a voz cavernosa, ele adverte:


TIO PAULO: Só para te lembrar. À noite, nesta casa, qualquer barulho fica ampliado. O piso de madeira estala a qualquer passo. Se você precisar sair do quarto, não esqueça de tirar o sapato, senão vai acordar a família toda.


Alana faz que sim com a cabeça num ato reflexo e ingênuo, subitamente repescado da infância.


Olha para o teto e vê a mesma quina mofada no canto.


Encosta a porta do quarto, passa a chave e se joga na cama.


De pernas para o ar, remove os sapatos, chutando com o pé oposto.