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T1 EP6 (WYT)

Atualizado: 29 de jul. de 2023



O UIVO VELADO


PARTE 1


DELEGADO: (tosse seca). Ligou cedo.

POLICIAL: Temo que sim. Alana está desaparecida.

DELEGADO: Ou está mexendo no notebook de estimação ou está fincando agulhas no quadro de cortiça. É só ir até a casa dela e conferir. Mais alguma coisa?

POLICIAL: Nós já estamos aqui, chefe. O apartamento dela foi invadido. Segundo o porteiro, Alana saiu para correr às 4 da manhã e ainda não voltou. Felizmente, não estava em casa na hora do ocorrido. Mas é possível que a tenham alcançado na rua.

DELEGADO: Algo não bate nessa história. Minha detetive não se deixaria rastrear a este ponto.

POLICIAL: Acho que ela sabia demais sobre o caso das facadas do Parque Limpo. É possível que o bandido a tivesse como próximo alvo. O sujeito voltou a cometer crimes semana passada: mais um corpo foi encontrado nas imediações do parque, perfurado por exatas 34 facadas. Acreditamos que se trata de um serial killer de mulheres. E que de alguma forma... gosta de matemática.

DELEGADO: Por quê? Deixou códigos numéricos?

POLICIAL: O número de facadas é sempre um número primo.

DELEGADO: Ah vá. Quantos crimes ele já cometeu?

POLICIAL: Cerca de 15.

DELEGADO: E os golpes são todos em números primos?

POLICIAL: Isso.

DELEGADO: Deve ser um nerd.

POLICIAL: Sim, chutaria um jovem narcisista.

DELEGADO: E frustrado sexualmente.

POLICIAL: Provável.

DELEGADO: Mas e o notebook da Alana? Estava no apartamento?

POLICIAL: Não. Não tem computador, HD ou qualquer arquivo físico com dados da investigação. Os móveis estão arranhados, os quadros quebrados e a parede da cozinha está manchada de ovos caipiras. Tem um liquidificador sujo de molho tomate na pia e um fio de macarrão no piso, que lembra inclusive o formato de um ponto de interrogação.

DELEGADO: Ok, você já me convenceu. Por acaso sabe se Alana frequentou algum lugar diferente nos últimos dias?

POLICIAL: Participou do podcast da Peritatá.

DELEGADO: Peritatá?

POLICIAL: Sim, é um bate-papo descontraído sobre curiosidades dos investigadores. Os cortes do episódio viralizaram, graças a uma 'thumb" que mostrava o pescoço de Alana sendo arranhado por uma garra de desenho animado, com uma frase colorida ao lado: "O dia em que eu capturei um lobisomem". Não era nada demais. Você sabe como funciona a monetização desses canais... O suposto lobisomem não passava de um criminoso comum, que tinha muitos pêlos no corpo e só atuava de madrugada.

DELEGADO: Ah. Menos mal. Ela expôs algum dado particular nessa entrevista?

POLICIAL: Pelo contrário. Estava usando mangas longas para tapar as tatuagens. Cobriu a face com máscara respiratória e óculos escuros. E cortou o cabelo de um jeito diferente, com um topete de um lado e a cabeça raspada do outro.

DELEGADO: Hum. Mas alguém pode ter conseguido concatenar informações dessa entrevista a ponto de descobrir onde ela mora. E provavelmente quem o fez sabia que o desaparecimento de Alana seria uma das maiores perdas para esta corporação.

POLICIAL: Certamente.

DELEGADO: Vou ver o que posso fazer e já retorno.

POLICIAL: Ok, chefe.


PARTE 2


O delegado ajeita um café com filtro reutilizado, enche a caneca e vai para a mesa de trabalho, vivenciando misturas explosivas de seus próprios gases estomacais.


Dá um bom dia a um primeiro funcionário que chegou demasiado cedo ao trabalho.


Acomoda-se na cadeira e gargareja selvagemente com o café, olhando para o teto.


Sente um arrepio na espinha e encolhe o pescoço, quando ouve aquela voz respondendo um bom dia requentado e fora de timing.


PARTE 3


Em meio a envelopes e amostras de digitais, lá está Alana, absolutamente estoica.


O chefe se aproxima, fazendo-a sentir um vento rascante de intenso perfume cítrico, usado para mascarar higienes mal feitas.


ALANA: Com licença, algum problema?

DELEGADO: Eu que pergunto. Você está bem?


O delegado bica o café emitindo ruídos. Olha para Alana incrédulo, em silêncio.


DELEGADO: Você não vai me contar o que aconteceu?

ALANA: Sim. Estou trabalhando.

DELEGADO: Você está sendo irônica ou realmente não sabe o que aconteceu?

ALANA: Como assim?

DELEGADO: A sua casa foi invadida, mulher!

ALANA: Ah é. Poderia acontecer.

DELEGADO: E você está ok com isso? Está exposta, corre risco de vida e vai gastar uma puta grana para arrumar aquilo lá. Sua frieza às vezes me impressiona...

ALANA: Ossos do ofício. Chegaram a me ameaçar por mensagem anônima, mas não achei que fosse chegar às vias de fato. Fique tranquilo, eu me precavi: o material sigiloso está numa empresa de cofres.

DELEGADO: Ótimo. É bom ter alguém como você no time, porque as coisas estão saindo bastante do controle. A propósito, Matriz Fontana já está no ranking das cidades mais violentas do país. Qualquer cuidado é pouco. Inclusive, aqui em off... só entre nós... (começa a falar em tom mais baixo). O prefeito tem me pedido para divulgar dados falsos. Porque se a população descobrir que não estamos conseguindo nem dar conta de 10% das ocorrências, vão começar as ondas de pânico. Também pediu para colocarmos "no início da fila" os crimes passionais, porque são os que mais traumatizam o povo.

ALANA: O amor pode ser bem obscuro mesmo... Andei pesquisando... Quem tem cometido esses crimes passou por grandes frustrações afetivas e está querendo compensar com violência exacerbada.

DELEGADO: E onde se escondem os nossos queridos criminosos passionais, Alana?

ALANA: Fogem para cidades do interior. Tentam recomeçar suas vidas. Às vezes voltam a matar, às vezes não.

DELEGADO: Mas tem muitas cidades no entorno, fica difícil mapear.

ALANA: Por isso é importante nos integrarmos com as inteligências policiais de outras metrópoles. Não vamos precisar mascarar dados. Vamos solucionar esses casos, confie em mim.

DELEGADO: Se você diz...


PARTE 4


O delegado vira as costas, se arrepende, e volta com o dedo indicador em riste:


DELEGADO: Escuta aqui, você precisa de férias.

ALANA: Oi?

DELEGADO: Coisa rápida, só para botar a cabeça no lugar até a poeira baixar. Você acaba de ganhar uma licença até quinta-feira.

ALANA: Imagina, não precisa.

DELEGADO: Some, mulher! Vai ser bom para você.

ALANA: Mas se eu parar a investigação no meio...

DELEGADO: A gente vai segurar a barra.

ALANA: Na verdade não sinto necessidade de recesso.

DELEGADO: Uma semaninha off vai fazer um milagre na sua vida.

ALANA: Mas eu já estou bem.

DELEGADO: Alana, é Natal! Por que você não aproveita para visitar sua família? Você tem sido brilhante, mas está cada vez mais entrincheirada em si mesma, distante... Eu odeio ter que dizer isso, mas talvez você esteja sendo profissional demais. Me diz uma coisa: o que você fazia antes de trabalhar aqui?

ALANA: Morava em Açude do Calvário, basicamente me preparando para vir para cá.

DELEGADO: Então. Por que você não passa o Natal lá com a sua família?

ALANA: Eu nem sei se ainda tenho família.

DELEGADO: Tem sim. Tira férias desse ogro aqui. Reata com a sua família. É uma cidade tranquila, bom para relaxar. Chegou a minha vez de fazer algo por você. Você já me salvou tantas vezes...

ALANA: Ok, uma semana e nada mais. É o tempo de cuidar de algumas pendências.

DELEGADO: Que bom ouvir isso. Você vai voltar outra, com a bateria recarregada.


PARTE 5


A investigadora vai até o próprio apartamento, pula os cordões de isolamento e enche a bagagem de mão com itens que sobreviveram à invasão: duas mudas de roupa, um fone de ouvido, uma maçã, um binóculo, um pacote de munição e uma bola de enfeite natalino.


De lá, vai direto para a rodoviária.



PARTE 6


De óculos escuros espelhados, que não permitem ver seus olhos, ela desvia de olhares masculinos, em especial o de um executivo que a encara insistentemente.


Alana caminha até a área de embarque.


Tira a maçã da bagagem e dá uma mordida, enquanto olha para o céu, onde nuvens parecem sugerir a imagem de um casal se beijando.


O estranho executivo a ronda, chegando cada vez mais perto.


Com uma postura dominante, ele desenha com os dedos um coração no vapor do vidro e morde os lábios em tom jocoso, acompanhando o movimento da boca dela mastigando a maçã.


Depois, resolve puxar assunto, vestindo um sorriso largo de cintilante clareamento dental.


EXECUTIVO: Linda, tudo bem? Como nós vamos ficar juntos em algum momento da sua vida, resolvi me antecipar: Eu sou o seu macho. Me chamo Rashid: um cara autônomo, divertido, que sabe curtir a vida e tratar bem uma mulher. Prazer em conhecê-la, como você se chama?


Ela continua em silêncio, mastigando a última parte da maçã.


EXECUTIVO: Está tudo bem?


Ela aponta para o ônibus chegando.


EXECUTIVO: É o seu?


Sem dizer uma única palavra, põe os fones de ouvido, aciona sua playlist de música lo-fi e sobe no ônibus.


Localiza sua poltrona e coloca um travesseiro na janela para excluir de vez o desagradável sujeito, deixando-o desintegrar-se no abismo da visão periférica.


PARTE 7


Vem à sua mente uma lembrança da cidade natal: o latido do vira-latas no portão.


Naquela época, sua relação com o animal se restringia a acenos distantes.


Provavelmente, na linguagem dos cães, tal gesto frio era equivalente a um pato se coçando ou uma goiaba rolando. Algo ausente de qualquer significado ou especial afeição.


O cachorro costumava encará-la com semblante suplicante, numa esperança de que, tal como todos os outros membros da família, em algum momento, ela resolvesse se jogar no chão, acariciar a barriga do pet e proferir palavras fofas em falsete, capazes de aquecer corações moles.


Mas gentilmente, Alana pedia licença e colocava uma toalha vedando a soleira da porta do seu quarto para não ser incomodada pelo barulho do bicho tentando farejá-la.


PARTE 8


Agora, à bordo do ônibus, Alana acaba de ser tocada nos ombros por um homem desconhecido, bem na altura de sua tatuagem, que tem o desenho de uma lupa circundada por rosas vermelhas.


Assustada, ela dá pancadas de travesseiro no rosto dele, que fecha os olhos e faz um gesto de afastamento, protegendo-se com as mãos.


PASSAGEIRO: Calma. É que você pegou o meu lugar. O assento da janela é meu, olha aqui. (mostra o bilhete).


Este novo "colega de viagem" veste camiseta branca suada e um grande chapéu de palha. Tem bigode volumoso e pêlos grossos, que saltam em tufos para fora da blusa.


Alana coça o nariz, joga a boca de um lado para o outro e passeia os dedos em seu piercing de argola do septo, tentando encontrar forças para aceitar que terá de viajar ao lado daquele sujeito e ainda ter que deixar sua estimada janela, onde costuma concatenar reflexões.


A cada quebra-molas, a aba tremulante do chapéu do homem remete à asa de um avião em pista de decolagem, o que faz Alana arrepender-se de não ter buscado viagens de rotas mais distantes: aeroporto ao invés de rodoviária. Para longe de casa ao invés de para perto de casa.


PARTE 9


O homem pede licença para ir pegar copos d´água gratuitos no frigobar dos fundos do ônibus. Com isso, todas as vezes que sai e retorna ao assento, roça nela os glúteos parcialmente expostos e úmidos.


Depois de refrescantes "ahhs" e barulhos de plástico amassado, ele espreme o copo para tomar até a última gota, emitindo ruídos de sucção e saliva, frequentemente deixando escapar respingos sobre as coxas de Alana.


Na poltrona da frente, um pré-adolescente chora esganiçado, culpando os pais por tê-lo obrigado a embarcar numa viagem indesejada.


Se o destino quisesse aproveitar para "zerar o karma" com alguma tragédia coletiva mais pesada, esta seria a hora.


Havia um padrão nos passageiros à bordo daquele ônibus: ressentimento e sensação de embarque a contragosto.


Talvez por mérito do motorista, talvez por sorte, um destino cruel tenha sido poupado, ao menos por hoje.


Todos chegaram ainda vivos na rodoviária de Açude do Calvário.

PARTE 10


Da rodoviária até a casa de sua mãe é preciso ainda pegar um trem.


Que alegria Alana sentiu num daqueles vagões, quando comprou passagem só de ida para Matriz Fontana, onde estamparia do lado esquerdo do peito o seu crachá de detetive.


Agora, 15 anos depois, estava voltando, quem diria, voluntariamente, ao seu pior pesadelo.


PARTE 11


Ela busca um motorista de aplicativo para não ter que ir naquele velho trem, quem sabe a essa altura a cidade já não conte com algumas facilidades.


O motorista aceita a corrida na mesma hora e grita do outro lado da calçada:


MOTORISTA: Dona Alana!?


Ela concorda com a cabeça.


MOTORISTA: Boa tarde, senhora! Rua Maria, número 4?


ALANA: Sim.


MOTORISTA: Desculpa perguntar, mas você é estrangeira?


ALANA: De certa forma sim.


MOTORISTA: Logo vi. O povo daqui só pega aplicativo em caso de emergência. Estão acostumados ao trem mesmo. Coisa cultural. Aqui vivemos uma vida pacata, só tem gente de bem, pronta para ajudar. Você vai gostar do nosso povo. (sorri pelo retrovisor, expondo a prótese de um dente canino dourado reluzente).


Desinteressada, ela faz que sim lentamente com a cabeça enquanto olha pela janela as velhas ruas que já foram paisagem de uma parte considerável de sua vida.


As gramas dos parques públicos permanecem na mesma altura da partida. Ela solta um leve sorriso de canto de boca.


O motorista interpreta o gesto como um sinal de abertura ao diálogo:


MOTORISTA: E esse brinco no nariz hein? Doeu para fazer?


ALANA: Não muito.


MOTORISTA: Garota corajosa! Essa aí tirava bicho de pé na unha, não é não? (risos).


Alana suspira e abre o celular.


Recebe uma notificação de mensagem do grupo dos investigadores da polícia, onde acabaram de compartilhar uma foto do happy hour na delegacia.


Não costumavam fazer isso na sua presença. Talvez o espírito natalino tenha esquentado demais aqueles corações.


Por um momento, questionou se os colegas estavam mesmo trabalhando e se dariam conta do recado sozinhos.


Mas depois percebeu que precisava ignorar este problema por enquanto, ou não conseguiria enfrentar o terremoto emocional que estava por vir.


PARTE 12


MOTORISTA: Você não pode deixar de conhecer a arena cultural a céu aberto. Foi construída para atrair movimento das cidades vizinhas para cá. Fica perto da rodovia intermunicipal e o acesso se dá por um trecho de terra batida. Tem shows, pista de corrida, churrasquinho e doces regionais.


ALANA: Ah, claro.


MOTORISTA: Olha, toma aqui o meu cartão. Se você quiser eu te levo até lá num fim de semana. É bom ir com quem sabe os caminhos. Assim você evita contratempos. A arena ficou um bom tempo interditada, por causa do cachorrinho, mas agora está funcionando de novo a todo vapor.


ALANA: (Alana se faz de desentendida). Cachorrinho?


MOTORISTA: Há alguns anos atropelaram um vira-latas na pista. Foi um terror. Manchou tudo de sangue.


ALANA: Ah, sinto muito.


MOTORISTA: Tudo bem, já passou. Mudando de assunto, me conta: você vai ficar no Hotel Império? Com certeza que vai né? Todo turista fica lá.


ALANA: É. Todo turista.


MOTORISTA: Só fica esperta com os marmanjos, hein? Você sabe como é... os garotos veem gente como você assim de fora, estilosa, bonita e ficam só abanando o rabinho com segundas intenções. Cuidado. Se você se engraçar com algum deles, a cidade toda vai ficar sabendo. Aqui é boca solta. Se eu fosse você ficava mais discreta, tirava esse brincão aí... Vai saber né?


Ela murmura uma sílaba anasalada.


MOTORISTA: A propósito, não sei se já me apresentei, mas meu nome é Plínio, toma aqui o meu cartão.


ALANA: Você já me deu o seu cartão, senhor.


MOTORISTA: Toma outro, vai que você perde o primeiro. Nunca é demais. Eu tenho dezenas de cartões impressos de outros carnavais, do tempo que você não era nem nascida. Preciso dar vazão. Para não jogar fora. Toma aí. Porque você pode precisar de mim. Posso te mostrar a cidade, te indicar umas coisas, ser seu ombro amigo, tomar um chopp contigo. Um cara legal. Confiável. (um bulldog de brinquedo em cima do porta-luvas balança a cabeça como que afirmativamente, atiçado pelos solavancos da estrada).


Ela faz que não com a mão.


MOTORISTA: Vai ficar mais no hotel mesmo né? Aposto que veio a trabalho. Pessoa focada, introspectiva. Boa. Maravilha.


PARTE 13


Ela mira os olhos nas nuvens, depois desce e escaneia o movimento das ruas da cidade. Já esboçam alguma decoração natalina, com papéis noéis, pisca-piscas e árvores de natal.


A pracinha do escorrega do centro. O antigo cinema. O restaurante da Dona Dalva. A pipoca caramelizada da rua Dália. A loja de arranjos floridos. A feira de antiguidades. As senhorinhas batendo toalhas na janela.


Dali em diante, sabia o caminho de cor, como as palmas de suas mãos.


Tia Ana, que possuía inclinações místicas, uma vez lhe dissera após uma leitura de quiromancia:


"Você não é tão perdida como acha. Uma força maior sopra nos seus ouvidos e sempre te protege do pior".


Ao contrário do motorista, que ao que parece, está definitivamente perdido: ao invés de pegar a avenida principal, vira numa rotatória, passa por um túnel e entra numa garagem.


Desce uma rampa, reduz a marcha e estaciona.


Alana já fica a postos para apertar o botão de pânico do aplicativo ou rendê-lo com a própria arma.


Mas antes de tomar medidas mais drásticas, resolve dar ao motorista um último voto de confiança.


ALANA: Moço, essa garagem tem uma saída do outro lado? Vai dar no meu destino?


MOTORISTA: Meu Deus, minha Nossa Senhora! Você não sabe o susto que me deu. O que é isso? Coloca a mão aqui no meu peito.

ALANA: Não é preciso.

MOTORISTA: Estou com o coração acelerado. Achei que não tinha ninguém no carro. Esqueci completamente de você. Desculpa.


ALANA: Mas a gente estava conversando. E você acaba de parar a poucos metros de onde vou ficar, segundo o GPS.

MOTORISTA: Sim, sim. Do outro lado da rua. É só fazer o retorno. É que... essa é a minha casa. Eu ia subir para fazer um lanche e jogar uma água no rosto. Achei que estava sem passageiro. Você não quer dar uma subidinha? Tem bolo, café.


ALANA: Não moço. Me deixa lá, por favor.


MOTORISTA: Não.


ALANA: O quê?!


MOTORISTA: E se eu não te deixar?


ALANA: Você vai preso.


MOTORISTA: Você acha que aqui tem policiamento?


ALANA: Acho não, tenho certeza. (Alana mostra o distintivo).


MOTORISTA: Nossa. Perdão. Relaxa. Era brincadeira. Vou te levar.


A voz do GPS alivia o clima tenso:


"Chegamos ao destino. Verifique seus pertences e tenha um ótimo dia".


MOTORISTA: Tem certeza que é aqui mesmo? Se você diz que é, longe de mim questionar mas...

ALANA: Chega. Tchau.

MOTORISTA: Não me negativa no aplicativo não, tá? Toma aqui o meu cartão. Qualquer coisa me liga.

ALANA: Eu não vou te ligar.

MOTORISTA: Toma aqui, toma.


Alana sai do carro e bate a porta fortemente.


O motorista a observa, falando algo denso e verborrágico, chegando a embaçar o vidro do carro. Ameaças inaudíveis. Em pouco tempo, ele arranca o motor e desaparece na curva da estrada.


PARTE 14


Tudo está exatamente no mesmo lugar. Não mudou nada: homens mal-assombrados brotando do nada no meu caminho. A caixa de correio banguela sem portinhola. O velho tapete puído com as letras de boas vindas apagadas. Nada que eu não esperasse...


Muitos vizinhos vigilantes não se identificam com o ar estrangeiro de Alana e lhe franzem a testa.


Um deles, magro e sem camisa, larga uma lavagem de carro no meio e esquece a mangueira ligada.


O cachorro de Dona Lúcia uiva como se fosse noite de lua cheia, em plena luz do dia.


A prima e seu namorado, que estavam se beijando no banco do jardim, param e abrem os olhos assustados.


PRIMA: Acho que você se enganou de casa.

ALANA: Sou a Alana. Não lembra de mim? (tira os óculos escuros).

PRIMA: Acho que não.

ALANA: Você devia ter uns 5 anos quando eu morava aqui. Sou sua prima.

PRIMA: Ah tá, eu acho que vi umas fotos suas.

ALANA: Mamãe está lá dentro?

PRIMA: Sim, entra lá, acho que está preparando alguma coisa para você.


PARTE 15


Na garagem, Alana nota que o carro de seu pai, apesar de ser o anfitrião, ainda fica estacionado atrás do carro do tio Jorge.


Tal fato sempre gerava desentendimento no fim das festas, quando o tio queria ir embora e lembrava que seu carro estava emperrado pelo do irmão.


Era porque o pai deixava para fazer as compras no mesmo dia, com sua lentidão habitual. Parte em razão da própria personalidade, parte devido a um problema ósseo crônico na perna direita, que dificultava a locomoção.


Já tio Jorge chegava cedo, acabava estacionando primeiro e ia para a sala ler jornal enquanto esperava.


Poderia ou o tio chegar mais tarde ou o pai fazer as compras mais cedo.


Mas nenhum dos dois parecia disposto a amenizar o problema.


Por razões de costume.


PARTE 16


Alana respira fundo, limpa os pés no tapete e puxa a maçaneta.


Logo na entrada, a cena mais que prevista: tio Jorge lê jornal no sofá.


Ao ver o "vulto" de mulher, baixa um pouco as folhas, como quem espreita atrás da moita. Estica o pescoço e encara Alana por cima de seus pequenos óculos caídos na altura do nariz.


ALANA: Oi Tio, tudo bem contigo?

TIO JORGE: Quem que está bem?

ALANA: Você, tio. Como tem estado?

TIO JORGE: Ah sim. Agora sim, você explicou. Não é só sair perguntando. Acho que está tudo bem. Sua mãe disse que você vinha, mas eu tinha lá minhas dúvidas.

ALANA: Sim, vou passar o Natal aqui.

TIO JORGE: Isso eu sei. Mas chegou um tanto cedo, não? O Natal não é só amanhã à meia-noite?

ALANA: Assim dá tempo de me ambientar. Mamãe está lá dentro?

TIO JORGE: Como sempre. Onde você espera que ela esteja?

ALANA: É, imaginei.

TIO JORGE: Deixa a mala aí perto da porta mesmo que daqui a pouco vem um desses namorados bombadinhos da sua prima e carregam para você.

ALANA: Não precisa. Eu levo.

TIO JORGE: Você ainda sabe onde fica seu quarto, né?

ALANA: Sim. Já fiz muito esse caminho.

TIO JORGE: Até se perder.

ALANA: Oi?

TIO JORGE: Seu quarto virou quarto de hóspedes, mas as coisas que você deixou ainda ficam guardadas em caixas dentro dos armários. E só para você saber... compramos o terreno ao lado e ampliamos um pouco a casa, fazendo uns quartos extras. Agora praticamente todos moram aqui.

ALANA: Entendi.

PRIMO JONAS: (interrompe a conversa). É bom que a gente economiza com aluguel.

ALANA: Oi primo!

PRIMO JONAS: Olha ela aí, a pessoa da família que deu certo e é um sucesso na internet.

TIO JORGE: Sucesso?

PRIMO JONAS: Ela é "da hora". Tem dado umas entrevistas nuns podcasts de detetive.

TIO JORGE: Podcast?

PRIMO JONAS: Diz aí para a gente, você veio armada?

ALANA: Sim. Questão de segurança.

TIO JORGE: Arma?

PRIMO JONAS: Posso ver?

ALANA: Claro que não.

PRIMO JONAS: Então deixa eu fazer as honras da casa e levar as suas malas.

ALANA: Se você insiste...

TIO JORGE: É, leva essa menina lá para cima, é melhor.


PARTE 17


PRIMO JONAS: Olha como é o destino... Agora eu durmo aqui do lado, bem pertinho do seu quarto. Se quiser pode até me fazer uma visita noturna. Eu vou adorar.

ALANA: Isso não vai acontecer.

PRIMO JONAS: Credo, você parecia mais simpática no podcast.

ALANA: Você também parecia simpático há dois segundos.

PRIMO JONAS: Aos primos é permitido viver o amor. Essa é a magia do Natal.

ALANA: Que profundo hein, moleque.

PRIMO JONAS: Você tem "lonelyfans"?

ALANA: Óbvio que não.

PRIMO JONAS: Eu assinaria.

ALANA: Mas me diz, você faz o quê da vida? Já se formou?

PRIMO JONAS: Aff que papo de velha...


IRMÃO ISRAEL:(chega no quarto de Alana) Alaninha?

ALANA: Oi!

IRMÃO ISRAEL: Achei que nunca mais fosse te ver. ( Abraço). O que te fez regressar e sujar suas lindas botas com barro do nosso quintal? (risos)

ALANA: Achei que já era hora de fazer uma visita.

IRMÃO ISRAEL: De acordo! Mamãe vai adorar te ver. Vamos Jonas, deixa ela se acomodar em paz. Alaninha, te espero lá embaixo. Temos muito assunto para botar em dia.


Alana sorri e encosta a porta do quarto para se trocar.


Mal fecha e já ouve alguém batendo:


PARTE 18


TIO PAULO: Alana?

ALANA: Eu.

TIO PAULO: Soube que você chegou. Vim te trazer toalha de banho e roupa limpa de cama.


Alana abre a porta e agradece.


TIO PAULO: Nossa, você está bem diferente. Desculpe a sinceridade, mas você virou sapatão?

ALANA: Não. E se eu fosse teria algum problema?

TIO PAULO: Aqui na cidade a gente não lida bem com essas coisas. É contra a natureza, você sabe. Deus criou homem e mulher e ponto. Você já viu algum filho nascer de dois iguais?

ALANA: Não, mas quem sabe amor possa nascer de duas pessoas minimamente semelhantes.

TIO PAULO: Isso é pensamento de gente corrompida.

ALANA: As pessoas não ficam juntas só para procriar. Ficam juntas para ficar juntas mesmo. Como você vai medir o nível da atração que uma pessoa sente por outra se é a outra pessoa que está sentindo e não você?

TIO PAULO: É falta de educação, de regras. Quem dita é Deus, o único caminho possível pelo qual o cordeiro derramou o sangue por nós. Eu sou apenas um servo. Mas está tudo bem. Afinal, você gosta de rapazes não é?

ALANA: Se eu fosse lésbica, essa seria a pior recepção da minha vida.

TIO PAULO: Fica tranquila. Só te peço para na hora da janta tirar esse brinquinho do nariz. Vai pegar mal. Parece coisa do demônio.

ALANA: Com licença, acho que vou tomar o meu banho.

TIO PAULO: Como quiser. Só uma coisa: não demora muito que a caixa

d´água está pela metade. Teve um problema no abastecimento e a família toda vai precisar usar chuveiro essa noite, não só você, tá?

ALANA: Tudo bem. Não costumo demorar no banho.

TIO PAULO: Graças ao bom Deus.


PARTE 19


Alana observa pela fresta da janela do quarto alguns raios solares de fim de tarde, enquanto seca mechas de cabelos aos poucos, de porção em porção com a ajuda da toalha.


As cigarras já anunciam o fechamento dos comércios.


Sai do quarto, tranca a porta e desce.


Na parede de descida das escadas, está a velha decoração de armas brancas que a mãe havia ganhado de herança paterna e ainda mantinha como coleção: facas, espadas, machados, sabres, lanças e um grande escudo.


MÃE: Alana, é você? Estamos na cozinha, vem para cá!


PARTE 20


No meio do estreito corredor que liga a sala à cozinha, fica o quarto do avô, o único do andar de baixo, sempre fechado e em silêncio sepucral.


Dá para sentir a escuridão por debaixo da porta.


Lá as cortinas permanecem fechadas mesmo durante o dia.


Caminhando um pouco mais, Alana avista a figura de seu pai descascando batatas na mesa da cozinha.


PAI: Olha quem chegou! Mas não é que ela veio mesmo?


Ansiosa, a mãe enxuga a mão molhada no pano de prato e chama Alana num gesto de "vem cá" ao contrário, mantendo as palmas para baixo.


Tira o prendedor do longo cabelo grisalho, coloca na boca e repuxa o rabo de cavalo com os braços levantados, para depois prendê-lo de novo praticamente do mesmo jeito.


A mãe veste um avental estampado de frutas secas. Seus ombros largos e presença física marcante obstruem a passagem pelo corredor.


Mãe: Olha ela... (apalpa o corpo de Alana). Você nem secou o cabelo direito. Vem aqui!


Puxa a filha para si e dá-lhe um beijo vampírico arrepiante no meio do pescoço.


Seca os cabelos da filha, usando um rolo de papel toalha.


ALANA: Isso não é necessário. ( pega o papel toalha da mão da mãe e amassa).


MÃE: Então senta aí do lado do seu pai, vai.


O pai sorri brandamente para ela, alisando as mãos na toalha da mesa.


ALANA: Como está a perna, pai? Tem tomado o remédio?

MÃE: Sou eu que cuido de tudo.

ALANA: Tem remédio na despensa? Se estiverem precisando eu posso providenciar.

MÃE: Você acha que a gente ia esquecer? Faça-me o favor! O médico olhou a última radiografia e disse que se eu não estivesse cuidando bem, seu pai já estaria de muletas e quem sabe na cadeira de rodas. Eu falo para ele... toma o remédio, toma o remédio... Todos os dias. Se não fosse eu né... para te lembrar... o que seria de você?

PAI: É isso.

MÃE: Tem um aplicativo que seu primo instalou para mim e lá eu anoto todo santo dia se já dei o remédio. É ótimo. Impossível de esquecer.

PAI: O importante é continuar ativo e ajudando.

MÃE: Ajudando? (olha para Alana e diz) . Não faz praticamente nada, filha.

ALANA: Eu posso ajudar também.

MÃE: Você? E a senhora lá sabe fazer alguma coisa? Cozinha? Lava roupa à mão? Areia panela pesada? Aposto que não.

ALANA: Bem, eu moro sozinha há 15 anos...

MÃE: Sabe nada. Não quero ajuda não, senta aí filha.


PARTE 21


O pai sorri ao ver os movimentos da filha se acomodando no banco.


MÃE: Fiz uma torta de ricota com passas. Toma um pedaço aqui ó. Faz um lanchinho, você deve estar faminta.


Alana cruza os braços. No movimento, a mãe nota a tatuagem nos ombros da filha e incrédula, tateia o desenho.


MÃE: Credo, o que é isso?

ALANA: Uma tatoo.

MÃE: Você se estragou toda né filha? Misericórdia... Sua pele já foi melhor. Seu cabelo já foi mais sedoso. Conta para a mamãe... É por causa da fumaça da cidade, é?

ALANA: Pode ser. Mas mãe, essa torta...

MÃE: Calma aí! Vou pegar uma coisa para você beber também.

ALANA: É que eu não gosto de passas.

MÃE: Gostou da torta?

ALANA: Isso que estou tentando te dizer, eu não gosto de passas.

MÃE: Ah que frescura, Alana! E desde quando você está com mania para comer? Sempre comeu de tudo.

ALANA: Algumas coisas mudaram.

MÃE: E o seu marido? Naturalmente está descarregando as malas do carro né?

ALANA: Que carro? Que marido?

MÃE: O seu, tonta!

ALANA: Eu sou solteira.

MÃE: Ah, não fala isso... Daqui a pouco você fica velha e aí? Não faz isso... Você não vai me dar um ou dois netinhos?

PAI: Deixa ela, bem.

ALANA: E o que vocês me contam de novidade hein?

MÃE: Lucinha teve 3 filhos. Mara está no segundo casamento. Jorgina deu sorte, casou com um novaiorquino, foi morar no exterior e está super bem de vida. Rosalva continua com o problema da filha drogada e solteira. Régis vendeu a casa, está atolado em dívidas e tomou calote da ex, uma novela... E você? No que você trabalha mesmo?

ALANA: É uma longa história.

MÃE: Então prova a torta da mamãe.

ALANA: Não dá, tem passas.

MÃE: Mas qual o problema das passas, meu Deus? Passas é uva. Você não gosta de uva?

ALANA: Gosto. Mas passas é uva seca, é outra coisa.

MÃE: Olha só... (olha para o marido balançando a cabeça negativamente). E o que você gosta agora então?

ALANA: Eu gosto de investigar. Sou da polícia. Do setor de investigação criminal.

PAI: Ela sempre gostou dessas coisas mais pesadas.

MÃE: Isso é profissão de mulher?

ALANA: É aberto a qualquer pessoa que tenha vocação e resiliência. Estou muito feliz. Estou alcançando sucesso e reconhecimento. Sou referência na minha área.

MÃE: E sem marido?

ALANA: Sim mãe, sem marido.

MÃE: É importante, filha. Você nem pensa em se casar?

ALANA: Definitivamente não.

MÃE: Você está com um semblante compenetrado, parece cientista. Isso não atrai homem.

ALANA: E você acha que eu quero atrair homem?

MÃE: No fundo sim, você pode tentar mentir mas a mãe sabe das coisas.

(o pai sente o clima pesar e muda de assunto).

PAI: Está um silêncio no jardim... Acho que o pessoal já foi embora.

MÃE: Eles são assim: vêm e vão quando querem, falam pelos cotovelos. Antigamente eram pessoas ótimas, não falavam nada, não discordavam de nada... Mas é a criação né, fazer o quê.

ALANA: Não falar nada é ser ótimo?

MÃE: Ah, não vem me questionar, você entendeu o que eu quis dizer. Amanhã está tudo aí de novo para o Natal, querendo comer sem lavar um prato.

PAI: Mas é bom ter a casa cheia.

MÃE: É bom né? Nesse seu ritmo, querido, o Natal vai ser só daqui a um ano. Sabe há quanto tempo você está descascando essas batatas? Eu já limpei a casa e fiz três pratos principais e você não chegou nem na metade do seu serviço. Como eu vou fazer bacalhau sem batata?


PARTE 22


ALANA: Vamos lá, pai, vou te ajudar.

PAI: Tá bom.

MÃE: Mas voltando ao assunto, filha, você não vai aguentar a barra sozinha, vai por mim. Um marido é importante.

ALANA: Aguentar a barra? (riso descrente). Não acredito que estou ouvindo isso... Eu lido com as coisas mais escabrosas, os crimes mais violentos, com os piores requintes de crueldade. Emocionalmente me tornei uma pessoa de aço. A senhora não aguentaria um segundo da minha rotina.

MÃE: Olha só ela... (olha para o pai decepcionada).

PAI: Ela está diferente.

ALANA: Diferente como, pai?

PAI: Não tem mais os nossos costumes.

ALANA: Mas eu gosto de vocês. Por que vocês acham que eu vim passar o Natal aqui?

MÃE: Porque não tem ninguém melhor. Porque não tem marido.

ALANA: Mãe, você não sabe metade da história.

MÃE: Por quê? Eu sou burra?

ALANA: A minha profissão me coloca em situações perigosas e quero poupar vocês disso. Eu quero ter um momento de paz nesse fim de semana, será que conseguimos?

MÃE: Por mim... o que quero é que sejamos ungidos pelo sangue de cristo, nada mais.

ALANA: E o que isso significa?

MÃE: Você está questionando a minha fé?

ALANA: Na verdade não, só quero entender o que você está dizendo.

PAI: Sua mãe tem a fé dela e você tem a sua, melhor não falar sobre isso.

MÃE: Você não crê em Deus? Me perdoa, Senhor. Eu devia ter te colocado um nome bíblico.

ALANA: Isso não importa, mãe.

MÃE: Sem marido, sem Deus... Que filha é essa?

ALANA: Mãe, eu estou conquistando as minhas coisas.

MÃE: Suas coisas né? Olha o quanto você está perdida. Só pensa em si mesma. Não me liga mais, não responde meu bom dia no zap.

ALANA: A gente se fala às vezes.

MÃE: Às vezes, sei... Só quer saber desse emprego e isso está te fazendo mal. Não consegue falar de outro assunto sem ser esse seu trabalho. E esse nariz furado, o que é isso? Todo danificado com essa argola no meio. Meu Deus...

ALANA: Você pode parar de julgar minha aparência por alguns minutos? Não é o mínimo que se aprende na Bíblia? A não julgar os outros?

MÃE: Você está muito desajustada. É gritante filha. Não tem como não notar. Mas eu vou te emprestar um vestido amanhã. Não vai ter problemas, nós sempre vestimos o mesmo número, não é mesmo?

ALANA: Gente, qual o problema de vocês?

MÃE: Qual o seu problema? Eu que pergunto.

ALANA: É tão difícil assim respeitar algumas diferenças?

MÃE: Se você não respeita cristo, filha... quem vai te respeitar?

ALANA: Mas o que isso quer dizer, "respeitar cristo"? O que você realmente quer dizer com isso?

MÃE: É, infelizmente eu falhei como mãe se você não consegue entender o básico. Não é você que é a melhor investigadora da cidade e fala isso toda cheia de si e sem humildade? Eu te pergunto: E você mesma, você sabe se investigar?

ALANA: Faço o possível.

MÃE: Aproveita que você voltou e tenta se consertar. Eu acredito que milagres podem operar em situações perdidas, justamente para fortalecer a nossa fé. Quem sabe você não conhece um rapaz de família aqui da região, casa, me dá uns netos e tudo volta ao normal?

ALANA: Sinceramente, já se passaram 15 anos e a impressão que tenho é que vocês ficaram congelados no tempo.

MÃE: Graças a Deus, isso é um sinal de que não nos perdemos.

PAI: Alana, se você quiser ficar depois do Natal, sem compromisso, saiba que a casa sempre será tua. Vamos recebê-la com amor e perdão.

ALANA: Perdão?

MÃE: O coração da mãe é enorme, você sabe disso.

ALANA: Deixa eu ajudar o pai a descascar essas batatas... A gente dorme e a amanhã é um novo dia, não é mesmo?

MÃE: Ótima ideia. Se quiser comer, você pega o que você quiser, do seu jeito. Você virou uma pessoa revoltada e difícil de lidar. Estou precisando descansar. Até amanhã. (dá um abraço brutalmente ansioso na filha).


PARTE 23


Ouvem-se sucessivos cortes e arremessos de vegetais esquartejados, afundando em vasilhas.


O pai pousa as mãos trêmulas nos ombros da filha. Com esforço e sem grande êxito, tenta sacramentar um contato mais profundo.


Para isso, espreme os pequenos olhos lacrimejantes, ligeiramente assustados e vulneráveis.


PAI: Sua presença é muito importante, viu?

ALANA: Você acha?

PAI: Com certeza.

ALANA: A sua também, pai.

Ele abaixa a cabeça e caminha vagarosamente até o jardim, mancando da perna direita.


Alana sobe as escadas em direção ao seu antigo quarto.


O pai vira-se e espia a filha enviesado e sério.


Ele costumava abrir a porta do quarto dela durante a noite e olhá-la da cabeça aos pés num gesto ambíguo.


Tinha cópia da chave de todas as fechaduras de todos os cômodos e fazia uma ronda noturna nos quartos para saber se estava tudo nos devidos lugares. Com o tempo parou devido às dores crônicas.


PARTE 24


Enquanto sobe, Alana esbarra com o irmão no contrafluxo descendo as escadas.


IRMÃO: Amanhã a gente vai se falar mais, hein! Estou com saudades.


ALANA: Não quer falar agora?


IRMÃO: (subitamente irritado) . Não. Amanhã. (e acelera o ritmo dos passos).


A porta do quarto do tio Paulo abre lentamente, rugindo a dobradiça.


Com a voz cavernosa, ele adverte:


TIO PAULO: Só para te lembrar: à noite, nesta casa, qualquer barulho fica ampliado. O piso de madeira estala a qualquer passo. Se você precisar sair do quarto, não esqueça de tirar o sapato, senão vai acordar a família toda.


Alana faz que sim com a cabeça num ato reflexo e ingênuo, subitamente repescado da infância.


Olha para o teto e vê a mesma quina mofada no canto.


Encosta a porta do quarto, passa a chave e se joga na cama.


De pernas para o ar, remove os sapatos, chutando com o pé oposto.


Agora descalça, levanta e vai até a janela.


O hálito da noite sugere um reconfortante aroma floral de flor de laranjeira.


Ela estende as mãos para fora da janela e permite que borrifadas de vento úmido hidratem sua pele.


Depois, traz a mão batizada de água da chuva e passa a língua na pele, como um cão o faria.


Sentindo dificuldades para dormir, opta por passar o tempo olhando a caixa preta de plástico, que ainda está lacrada, do mesmo jeito que deixou antes de partir.


PARTE 25


Logo ao abrir a tampa, vê o antigo cordão de Hamsa, dado de presente por aquela tia que tinha inclinações místicas, tia Ana, na tentativa de amenizar a dita energia complicada da sobrinha.


A presença de Alana trouxe mau agouro em várias ocasiões do passado.


Tia Ana chegou a tirar o tarot e frequentemente saía a carta "a lua", que continha dois cães sedentos por beber orvalho lunar.


Na interpretação da tia, Alana precisava resolver aquela contradição dos dois cães para sua vida começar a fluir. Caso contrário, afundaria no poço do escorpião, desenhado no canto inferior da carta. Sua vida seria uma difícil encruzilhada entre duas energias primitivas: a vontade de se autoafirmar e a vontade de desistir de si mesma. Os cães representariam resíduos emocionais se alimentando de sua energia vital.


Ao final da consulta, a tia deu-lhe o amuleto de Hamsa, que Alana pendurou no pescoço.


Na ocasião da partida para Matriz Fontana, Alana tinha esquecido de levá-lo, o que leva a crer que o misticismo não teria nenhuma base, uma vez que sua vida deu tão certo sem auxílio de muletas "mágicas".


Mas agora, numa onda levemente saudosista, lembrando da tia falecida, como forma de sentir o conforto de algo já sabido e quente, mesmo que as memórias nem sejam tão boas, Alana põe de novo o barbante no pescoço.


Acreditou que tal gesto ajudaria a se caracterizar novamente como nativa e mapear melhor quais emoções ficaram perdidas e mortificadas naquela cidade.


Começa a cavucar a caixa preta no armário, que para além do trocadilho, parecia ter uma função semelhante àquela dos aviões: revelar segredos depois de um desastre. No caso, um desastre psíquico.


Sorri ao encontrar lá dentro o seu velho caderno de desenhos.



PARTE 26


Folheia-o até chegar a uma página em branco e como nos velhos tempos, apoia-o no parapeito da janela para desenhar.


Intuitivamente rabisca o rosto de um homem desconhecido num cenário natalino.


Em outras épocas fez muitos desenhos naquele quarto.


Foi o jeito que encontrou de manter a sanidade.


Tentava redesenhar a sua vida, com novos cenários e pessoas diferentes, bem longe de Açude do Calvário.


Fazia reengenharias dos dias, como se tivessem sido melhores e mais interessantes.


Se por um lado esses registros lhe soavam agora falsos e escapistas, por outro, são documento de uma intenção tenaz de mudar de vida.


O desenho foi a primeira forma de investigação que tentou fazer sobre si mesma.


Para Alana, o lápis teve a função de espátula arqueológica, espanando poeiras de seus sentimentos, para serem melhor enxergados.


Passava muito tempo sozinha e infeliz.


Foi quando começou a cogitar a hipótese de que talvez a chave da sua felicidade pudesse estar sendo guardada pelos outros.


E outro mais próximo naquele momento era a própria mãe, em cujo armário Alana achou uma camisola branco-neve, que resolveu experimentar.


Olhando no espelho, achou-se fantasmagórica, o que a fez questionar se na verdade não estaria morta e toda a sua vida não passaria de um pesadelo.


Na infância, sentia-se apartada de tudo e só tinha uma única certeza: sair daquela cidade.


Acordava no meio da noite, tirava as sandálias e caminhava descalça pelas ruas.


Imaginava que algum carro pararia e lhe daria carona para algum lugar melhor.


Ficava tão imersa em si mesma que não percebia estar virando folclore na pacata cidade: uma menina vestida de branco, com pupilas dilatadas, encarando os carros, iluminada pelos holofotes dos postes.


Voltava para casa com o coração ligeiramente aquecido, sentindo na pele ao menos a adrenalina da possibilidade de fuga.


Tal comportamento assustador serviu de base para medidas pedagógicas dos pais mais conservadores no imaginário local:


"Olha aquela garota do pijama, está vendo? Ela vai te pegar se você sair de noite".


Pelo inusitado da situação, algumas pessoas realmente acreditaram que se tratava de um fantasma vagando e aceleravam em pânico.


Até que uma vizinha desvendou o mistério e contou para a mãe de Alana, que envergonhada, não viu outra alternativa a não ser levar a filha para sair mais e conhecer o novo centro cultural da cidade.


PARTE 27


Lá, motoristas amadores das cidades vizinhas vinham a turismo roncar o motor nos rallys de terra batida à beira da estrada.


O evento era um sucesso na região. Um lugar para se comer deliciosos quitutes locais e passar o dia em boa companhia.


Mas no dia em que Alana compareceu... chegaram as trevas.


PARTE 28


Naquele fatídico dia, foram passear Alana, a mãe e o cachorro.


Ao chegar, Alana amarrou o cão num poste para fazer a única coisa que lhe atraiu atenção naquele lugar: soprar bolas de sabão.


Mas o cheiro irresistível de bife engordurado atraiu o vira-latas, que conseguiu romper o nó da coleira, achou um buraco no arame farpado e foi parar no meio da pista de corrida, onde carros apresentavam-se em altíssima velocidade.


Não houve como evitar a tragédia.


Os pais taparam os olhos dos filhos.


Mas ainda pôde-se ouvir aquele uivo velado dos últimos momentos do cão de Alana.


Tamanho o trauma, interditaram o local e só reabriram recentemente (segundo afirmou o tal motorista de aplicativo).


PARTE 29


No dia seguinte ao acidente, na volta da escola, Alana foi até o local e viu um policial isolando a área.


Ao ver a mancha de sangue do animal no para-choque do carro, por impulso, ela mesma tapou os próprios olhos, mas logo sentiu-se madura o suficiente para encarar a situação de frente.


Pelas frestas dos próprios dedos, escrutinou pacientemente todos os detalhes daquela cena.


O agente percebeu o interesse da menina e foi ao seu encontro.


Ela lhe fez perguntas inteligentes para a sua idade, acerca da perícia.


O detetive se impressionou e disse que um dia ainda seriam colegas de trabalho.


Levou-a de volta pra casa e informou à mãe que Alana tinha vocação para tal.


Decepcionada, com semblante austero, a mãe mandou-a para o quarto imediatamente.


Lá, acusou a filha de causar o acidente, por deixar a coleira frouxa.


Disse para ela pensar sobre o que fez e que só queria vê-la de novo no almoço, quando deveria descer como uma dama, sem jamais olhar tanto as pessoas nos olhos, com aquele olhar espinhoso de julgamento lógico que não agradava a ninguém.


"Está de castigo. Até conseguir olhar para a gente com um olhar decente, de amor."


Solapada e sem saber do próprio lugar no mundo, Alana teve a primeira menstruação.


Usando o próprio sangue, que lhe escorria das pernas, resolveu traçar no caderno um último desenho, antes de ser uma "mulher crescida".


Fez uma flor de lótus vermelha boiando numa vitória-régia.


Uma cena plácida demais, comparada com o terror que sentiu naquele dia, mas serviu de imagem de ancoragem para acalmá-la diante do caos.


PARTE 30


Pulou da janela do quarto, agarrou numa árvore em busca de raízes que julgava necessitar e saiu correndo pelas ruas.


Bateu na porta de José, o genro dos sonhos de sua mãe: rapaz de família e trabalhador.


ALANA: Oi tudo bem? Quer namorar comigo?

JOSÉ: Você está bem?

ALANA: Vamos almoçar lá em casa para a gente dizer que está junto.

JOSÉ: Tão rápido assim?

ALANA: Por quê? Você não quer?

JOSÉ: Claro que quero. Sempre sonhei em te ter como mãe dos meus filhos. A mais linda do bairro. Mas por que hoje? Por que você me quer justo hoje?

ALANA: É a paixão. Vem assim do nada mesmo.

JOSÉ: Seria perfeito. Seria um sonho.

ALANA: Ótimo. Então me beija.


PARTE 31


Foi o seu primeiro relacionamento amoroso.


Mais teste do que êxito.


Mais calvário do que fonte.


Namoro e noivado despontaram rápido.


Em poucos anos foram morar juntos.


Era um homem inflexível e espaçoso, cujas pernas ocupavam o lugar de três no sofá.


A convivência a dois a fez desenvolver uma faceta de personalidade ainda não manifestada: a autodepreciação.


Começou a bater continência para todos os desejos do marido, que incluíam principalmente serviços domésticos bem feitos e recebê-lo com reverência, como se fosse um rei.


Em troca, Alana recebia um selo simbólico de esposa, que a tirava da condição de "fantasma da rua".


Ouvir "minha mulher" todos os dias lhe dava a impressão de que havia dado um passo adiante na vida.


Virou dona de casa.


Muito semelhante à mãe: sobrecarregando-se sem jamais pedir ajuda. Ressentindo-se pelo pouco afeto que recebia em troca.


Um dia, ao ver meia suja na pia e talher no sofá, achou que estava chegando a hora de "jogar a toalha".


Tentou conversar com o marido antes de dormir, mas ouviu como resposta mugidos desinteressados.


Via no parceiro uma profunda indisposição em ouvi-la e uma total desconsideração por visões de mundo diferentes das dele.


Como Alana ainda não trabalhava, ele reiterava que era obrigação dela cuidar da casa.


Então o amor era só isso? Uma troca de serviços obrigatórios de hotelaria?


Com o tempo, ele começou a exigir dela trabalho de secretariado também:


Deveria se lembrar de ligar no dia dos aniversários dos parentes, saber recepcionar em festas, fazer lista de mercado, recordar o número do calçado do seu homem e avisá-lo da próxima consulta no gastro.


Ele chegava do trabalho, abria uma cerveja, sujava a louça e ia ver televisão, sempre em silêncio, como se morasse sozinho.


Depois de meses ignorando Alana, resolveu chamá-la querendo filho.


JOSÉ: É a única coisa que falta para a gente dar certo.

ALANA: Eu não sei. Achei que fosse me encontrar nesse relacionamento, mas não é o que está acontecendo na prática. Não sei se quero esse papel de esposa.

JOSÉ: Escuta aqui, ninguém é o que quer não. A gente é o que dá pra ser. Você acha que eu gosto de trabalhar? Claro que não, mas tem que fazer e eu faço sem reclamar. Por que você não teria que fazer também? Se acha especial?

ALANA: Não.

JOSÉ: Não o quê?

ALANA: Não quero um filho teu.


Depois disso, passaram a se comunicar com palavras pré-fabricadas, monossilábicas e quase sempre terminadas em "mente": certamente, provavelmente, infelizmente.


Aquilo começou a irritá-la "profundamente" e trouxe à tona a mentira que sempre foi aquela relação: juntaram-se em busca de aprovação social, nada mais.


Os dois sabiam do esgotamento da relação, mas houve ainda uma sobrevida por medo do abismo do que viria depois.


Amor: um trabalho duro e maçante de arar terra sem receber nada em troca, pensou Alana.


E voltou para a casa dos pais.


PARTE 32


A mãe não disfarçou a decepção de ter perdido o genro dos sonhos.


No fundo, teria sido mais fácil se ao invés do genro, tivesse rompido com a filha, aquela estranha desconhecida.


Alana entrou na casa da mãe como se ainda morasse lá. Como se todos aqueles anos de namoro e noivado, dos 15 aos 22 anos, não tivessem passado de uma ida à padaria.


Numa total falta de timing, retomou o último assunto que teve com a mãe há 7 anos, dizendo que já ia pegar a panela de barro na dispensa.


PARTE 33


Nos primeiros dias desse retorno, fazendo o percurso habitual da sala para o quarto, Alana parou no meio da escada e encarou a própria imagem evanescente no escudo prateado decorativo.


O olhar que viu era agudo, quase inumano. Não havia amor.


Mas por que o caminho precisava ser necessariamente o amor?


Por que submeter-se a esse monarca autoritário sem uma boa justificativa?


Talvez tais questionamentos amargos tenham sido resultado de um azar da primeira vez.


Antes de desistir de amar, não custava dar uma segunda chance: um segundo homem, de preferência o oposto do primeiro.


PARTE 34


Conheceu-o no metro quadrado do quiosque de informática da rodoviária.


Bruno era um rapaz carismático.


Com boa retórica, vendeu-lhe um fone de ouvido, fazendo-a acreditar que estava levando o elixir de todos os prazeres.


Muito animado, testou o produto em várias celulares mostrando a potência do som.


Abaixou na vitrine para pegar a nota fiscal e para conferir os detalhes técnicos dos seios da cliente.


Levantou radiante, chamando-a para uma discoteca no fim de semana.


Alana resolveu arriscar.


PARTE 35


Ela percebeu que viveria algo original, quando em meio às luzes do globo prateado, ouviu ao pé do ouvido:


"Eu vou te amar tanto, mais tanto... que nós vamos explodir o mundo com as nossas sensações. E seremos só nos dois. Nada mais. Você será livre. Absurdamente livre".


Como bom vendedor, soube oferecer a solução para a dor mais profunda da "cliente": sair do ciclo de dor do passado e entrar no de prazer do futuro.


Disse que não haveria pressão em nenhum sentido e que se um dia resolvessem ter um filho, ele iria "engravidar junto", acompanhando-a em todos os momentos importantes, como um homem moderno que não reprime a própria sensibilidade. Alana achou lindo.


Dentro do quarto, desenvolveram o hábito de "apagar" suas histórias prévias, como se nunca tivessem nascido em Açude do Calvário.


Diziam-se estrangeiros, numa tentativa de negar suas personalidades simplórias de moradores do interior.


Imaginavam-se inteiramente outros enquanto se beijavam.


No quarto, viviam aventuras mirabolantes, potencializadas pelas drogas e pelo sexo.


Da porta de casa para fora, Alana se manteve praticamente igual, tirando uma ou outra crise de ansiedade.


Da porta para dentro, passou a se chamar "Ydolem", uma palavra inventada pelo namorado.


Sob esse novo nome, transformava-se numa mulher hipersexualizada, de perucas verdes e biquínis carnavalescos, escolhidos a dedo pelo parceiro, em inusitados sites japoneses, como quem monta o traje de uma boneca.


A tal promessa de liberdade foi se revelando o oposto: um baile de fantasia na prisão do quarto.


Por mais camadas e cores, era impossível suprimir completamente aquela Alana do passado, que sempre dava um jeito de recuperar o controle do próprio corpo, sentindo-se decepcionada com um amor condicionado a disfarces e atuações não convincentes.


Bruno tentou convencê-la sem sucesso a ficar na personagem, alertando-a de que se não o fizesse voltaria a ser uma mulher triste e sem horizontes.


Alana acendeu alguns fósforos de cozinha, queimou as roupas de Ydolem e terminou o relacionamento.


A reação dele foi a de um vilão paranóide:


Primeiro, gargalhou alto como um palhaço, para depois dizer-lhe um solene obrigado, que pela entonação das últimas sílabas queria dizer:


"Nunca mais apareça aqui ou algo realmente violento vai acontecer."


E fez um gesto dúbio com as mãos, que poderia querer dizer algo sexual como "tapa na bunda" ou um "suma daqui".


Confuso, o rapaz teve dificuldade de expressar diretamente o seu ressentimento pela rejeição. Depois de coçar a barba sonoramente com a unha, se imbuiu de um ar orgulhoso de monarca, soltando um:


"Pensando bem, sem a fantasia você é um lixo para mim. Bem acabadinha. Nota 3. Acho que fiquei cego de amor e não enxerguei que estava com uma pessoa qualquer, que não tem absolutamente nada a me oferecer".



PARTE 36


Estes dois cavaleiros do apocalipse foram suficientes para Alana ter certeza de que o amor não era para ela.


Voltou de novo para a casa dos pais.


Mas dessa vez teve ultimato:


MÃE: Escuta aqui, eu não mereço esse vai e vem de ninho cheio e ninho vazio não. Você precisa dar um jeito na sua vida: Ou fica ou vai!


Sobre o parapeito da janela do quarto, Alana simulou com as próprias mãos uma "mãozinha de Família Adams" e caminhou com os dedos, sujando suas digitais com poeira retida nos vãos metálicos.


Fazendo um flashback, chegou à conclusão de que até ali, aos 22 anos, apenas uma situação havia lhe despertado amor: foi naquele dia da morte do cão, por mais contraditório que isso pareça.


Não que Alana tenha gostado da morte do animal, mas foi ali que sentiu pulsar forte a vontade de investigar o mundo.


Que vasto universo poderia se abrir para uma investigadora...


Alguém que de certa forma tem um apreço pelas dores alheias, mas que felizmente não é obrigado a amar quem ajuda.


Pelo contrário, é até mais seguro que não tenha nenhum laço que possa ser usado como chantagem por criminosos.


Ser uma pessoa fria seria uma caraterística valorizada. Não se envolvendo emocionalmente, poderia enxergar os problemas com mais clareza.


Pressionou a ponta suja dos dedos numa folha de caderno, deixando as digitais.


Depois rasgou e assoprou o papel picado pela janela.


"Uma investigadora. Isso é o mais próximo que consigo chegar do amor. Amor por buscar respostas. Amor racional. Amor possível. Quem sabe o meu florescimento".


PARTE 37


Para o espanto dos pais, dessa vez não foi mais um vento impulsivo do temperamento instável de Alana.


Seus olhos fantasmagóricos foram transmutados em olhos hiperfocados e animalescos de tão obstinados.


Não havendo mais nada em que pudesse apostar, devorou com uma ferocidade canina, mastigando e assimilando todos os incisos da legislação referente à perícia criminal.


PARTE 38


Foi convocada para trabalhar na cidade grande, em Matriz Fontana.


Fez as malas e saiu sem se despedir, como se fosse para a padaria.


PAI: Ela vai voltar.

MÃE: Sim. Questão de tempo. Não vai conseguir se virar.

PAI: Vamos manter o quarto dela desocupado...


Passaram-se 15 anos.


Dedicada integralmente ao trabalho, Alana foi se tornando uma quarta Alana.


Não a primeira Alana, criança fantasmagórica em fuga. Não a segunda Alana, dona de casa. Não a terceira Alana, entorpecida por fantasias sexuais.


Uma quarta Alana, diferente de tudo.


Uma que não correspondia mais às expectativas da família nem a dos homens.


Uma que era forte o suficiente para contar consigo mesma, fazendo a roda da vida girar na direção contrária ao passado.


PARTE 39


Mudou a maneira de se vestir: optou por roupas urbanas e pretas.


Cortou o cabelo mais curto e fez sua primeira tatuagem: a da lupa de flores.


Aprendeu a ser camaleônica, portando-se diferente de acordo com o contexto investigativo, conseguindo assim obter informações difíceis e solucionar muitos casos.


Este "poder" de adaptabilidade só funcionava para fins profissionais, não para pessoais, o que a fez desejar cada vez mais não se relacionar.


Nem cogitou arriscar algum romance na cidade grande. Estava feliz numa profissão que a valorizava como nunca.


Se não fosse a invasão do apartamento e a licença do chefe, é provável que nunca voltasse a pisar aqui neste solo de Açude do Calvário.


O que realmente a fez regressar foi a vontade de usar sua experiência investigativa para resolver o maior enigma da sua vida, que vez ou outra ainda lhe causava insônias e a fazia acordar de madrugada no meio de um recorrente pesadelo, onde o cão atropelado voltava para arrancar-lhe as meias dos pés.


O que a fez voltar neste Natal foi querer descobrir por que afinal o amor morreu dentro dela.


Talvez a resposta estivesse onde mais fora infeliz.


Esperava que a chave estivesse lá enterrada em algum lugar e por isso justificaria o sacrifício do retorno.


Para ela, definitivamente, não era uma viagem de férias.

PARTE 40


E aqui está, na véspera de Natal.


Espera pacientemente todas as luzes se apagarem, tanto as da casa da mãe quanto às da vizinhança.


Por volta de 2 horas da manhã, com a cidade adormecida, é chegado o momento ideal de investigar.


PARTE 41


Desce as escadas nas pontas dos pés e percebe algo potencialmente danoso: falta uma faca na coleção da parede.


Seguindo o percurso, um barulho de goteira a atrai para a cozinha:


O registro da torneira encontra-se totalmente aberto e mesmo assim o fluxo de água está fraco, quase esgotando.


Amanhã, mamãe baterá as mãos sujas de farinha no meio da sala , numa cena dramática que atrairá toda a família para o seu entorno. Tio Paulo lembrará que me alertou sobre economia de água, mas eu , egoísta que sou, ignorei. E o veredito será dado: culpada.


Mas contra dados factuais não há argumentos.


Coletando as impressões digitais do registro da pia, posso concluir duas coisas:


1) Ninguém ajuda a lavar louça mesmo porque...


2) só tem as digitais da mamãe.


Ou seja, só ela pode ter esquecido esta torneira pingando.


E se esqueceu algo importante para ela, pode ter esquecido algo importante para outro: os remédios do pai.


É o que eu temia: na despensa da cozinha, todos os frascos de remédio dele estão vazios...


É possível que este segundo esquecimento, ao contrário do primeiro, tenha sido intencional. Ela faria de tudo para manter o pai dependente dela.


PARTE 42


Alana fecha a torneira, sai da cozinha e vai para a sala.


Passa a mão pelos resistentes móveis antigos de madeira maciça escura, com detalhes talhados no formato de espigas secas.


As cortinas, em tons amarronzados, deixam o ambiente demasiadamente sóbrio.

Na mesa lateral, um vaso de flores disfarça a parte rasgada do pano de crochê.


No pequeno aquário, jaz um coral antigo, cheio de limo, com cavidades entupidas e contendo a espinha de peixe morto que Alana vira há anos na ocasião de sua saída.


Ela continua a caminhada.


Vai até o quarto do avô, lugar de acesso terminantemente proibido pela mãe, que narrava para a família o que ele teria dito e feito ao longo do dia.


Sempre achei suspeito o fato do vovô elogiar sem ressalvas toda e qualquer comida da mamãe, de nunca querer sair do quarto em nenhuma hipótese e de nunca emitir um ruído sequer: nem de talheres, nem de descarga, nem de molas de cama. Se há fantasmas nessa família, eu não sou a única. Não vou sair daqui sem respostas dessa vez. Não mais.


Pega o chaveiro do pai, que continha todas as chaves das fechaduras da casa, habitualmente guardado no cano inutilizado do banheiro dos fundos, esconderijo idealizado e forjado por José, seu ex-noivo.


Localiza a chave correta e abre com cuidado o quarto do avô.


PARTE 43


Ouve um barulho de descolamento de madeira.


Mesmo depois de aberta a porta, não se pode ver o interior do quarto, pois há uma parede emassada de concreto, que lacra toda a entrada.


Alana passa as mãos na massa áspera e mal feita, provavelmente aplicada por alguém afobado, correndo para reprimir ou esconder alguma situação com a qual não sabia como lidar.


Ela resolve contornar a casa pelo lado de fora para ver se consegue descobrir algo mais.


Examina as janelas do quarto do avô, força um pouco a vidraça e vê que também encontra-se emperrada.


Sobe no telhado. A depender do padrão mais do que confirmado de que nada teria mudado depois de sua partida, a quarta telha da esquerda para direita ainda estaria quebrada, sem reparos.


Mira o binóculo pela fresta da telha e observa:


No centro do quarto está o caixão do avô, circundado de flores sintéticas. Por cima dele, fotos de momentos de encontros familiares em que a mãe de Alana está em destaque.


PARTE 44


Parece que vovô está morto, sabe-se lá desde quando.


Esta dinâmica a portas fechadas está acontecendo há tanto tempo que nem lembro o som da verdadeira voz dele...


Mamãe "dubla" e sobrepõe a memória dele com histórias, frequentemente colocando-se como especial, única e melhor cuidadora possível.


Ela não consegue sair desse papel fantasioso de líder e mártir. Luta para manter a porta fechada para não ser descoberta na sua mentira, para não perder o controle.


É o jeito que encontrou de manter vivo o passado que já morreu.


O equilíbrio forjado nessa casa depende das pessoas não questionarem as esquisitices da matriarca, por se se sentirem endividadas de afeto num nível que, é claro, nunca poderá ser pago.


A dívida só aumenta a cada dia: a cada remédio supostamente dado, a cada almoço feito, a cada louça lavada, a cada gaveta arrumada. E consequentemente, o poder dela sobre nós aumenta.


É uma coleira.


O problema é que...


amor virou sinônimo de culpa nessa família.


E eu faço parte disso. Eu me tornei isso: primitiva, animalesca, pesada.


Amor para mim é pisca-pisca de Natal. Não sustenta sua luz por muito tempo. Frágil. Vagabundo. Qualquer descuido já emaranha e dá curto-circuito. E em geral, preferimos deixar guardado a maior parte do ano, porque nenhuma ocasião parece adequada para expô-lo em toda a sua crueza.


PARTE 45


Alana desce do telhado e faz uma ronda noturna no perímetro da cidade, ainda refletindo:


Com certeza essa percepção tão ruim de amor me prejudica nos relacionamentos.


Seria fácil culpar minha mãe e encerrar o caso por aqui. Mas seria raso. Não quero jogar esse mesmo jogo de vítima.


Pensando bem, talvez a convivência nessa família tenha me dado clareza do que eu não quero, justamente para conseguir ir em direção ao que quero com mais confiança.


E se me angustia a ausência de um companheiro, é sinal de que, de alguma forma, isso é importante para mim (para o desespero do meu lado lógico que martela que o amor é uma ilusão e não vale a dor desnecessária de experimentá-lo de novo).


Tenho sede de amor verdadeiro. Amor capaz de ser um fim em si mesmo. Sem acordos, barganhas, amarrações ou juramentos.


E quero um parceiro de viagem. Cada um no seu assento, lógico, mas juntos. Juntos na mesma viagem.


PARTE 46


Quando deu por si, estava parada em frente à casa do primeiro namorado, José.


Alana pula a mureta da casa:


Se eu tivesse ficado aqui, estaria pisando descalça nesse jardim, amamentando meu filho. Falando assim soa até poético. Mas só eu sei o inferno que seriam meus dias nessa família de fachada, cujos resíduos sombrios se revelariam a quem tivesse coragem de acender a luz negra da intimidade e ver como as coisas realmente funcionam, no rastro sujo que o amor deixa embaixo do tapete e que as visitas são frequentemente incapazes de ver.


Alana passa as mãos sobre as plantas, todas num tom de verde-musgo.


Dedilha uma das folhas, percorrendo as nervuras dos vasos condutores de seivas.


A água pode demorar a chegar às partes mais distantes e secas de uma planta.


Mas quem sabe exista uma dinâmica na condução das minhas próprias emoções que faça o amor chegar até mim?


PARTE 47


Agora vai ao endereço do segundo ex-namorado, Bruno, hoje um terreno em ruínas.

Em meio à grama esparsa, dificultosa em crescer, Alana reconhece um fio de cabelo verde da antiga peruca de "Ydolem".


Sentiu um arranhão gelado que lhe subiu pelas coxas, passando pelas nádegas, as costas e chegando finalmente ao pescoço.


O barbante do cordão de Hamsa foi cortado de seu pescoço e caiu no chão.


PARTE 48


VOZ SUSSURADA: Não vire. Eu quero te ver de costas.


ALANA: Bruno?


VOZ SUSSURRADA: Não me importa como vai me chamar. Apenas permaneça imóvel.


ALANA: Não. Eu vou virar e você vai falar comigo decentemente.


VOZ SUSSURRADA: Não vai. Eu estou armado. Se esboçar reação leva chumbo na noite de Natal.


ALANA: Está blefando. Se tivesse mesmo armado teria mostrado a arma. O que você quer? Me estuprar? Eu resistiria com unhas e dentes até a última gota do meu sangue. Não tentaria se fosse você. Além disso, você seria linchado pelos vizinhos.


VOZ SUSSURRADA: Já começou a profecia. Nós vamos fazer amor e você vai fugir comigo. De preferência nesta ordem.


ALANA: Escuta, doido: é Natal. Fiquei de jantar daqui a pouco. Que tal parar com essa palhaçada?


VOZ SUSSURADA: Só pessoas como a gente saem para andar no Natal, não é mesmo? Almas gêmeas.


ALANA: Por que você está dublando uma voz sussurrada que não é a sua? Eu sei que é você, Bruno. Segue a sua vida. Eu só vim nesta cidade para quitar umas pendências, não quero mais te ver. Ydolem foi só um delírio adolescente nosso fora de época.


O agressor tapa a boca de Alana.


Ao reconhecer o criminoso pelos dedos, Alana toma coragem para virar de frente.


PARTE 49


ALANA: Então estamos em família.

JONAS: (Assustado ao ter sua identidade exposta). Como você soube?

ALANA: Elementar. Você me ajudou com as malas. Eu memorizei o feitio das suas mãos pegando a alça. Devia ter usado luvas se fosse um criminoso profissional.

JONAS: Mas eu sou profissional!

ALANA: Não é o que parece. Cara a cara é mais difícil né? O que você pretendia fazer?

JONAS: Pretendia não, pretendo. Aos primos é permitido viver o amor.

ALANA: Amor? Você estava prestes a me violentar, tem consciência disso?

JONAS: Ai Alana. Você está entendendo tudo tão errado.

ALANA: Eu sugiro nem tentar se justificar, porque vou usar tudo contra você no tribunal.

JONAS: Só quero te mostrar o quanto eu te desejo.

ALANA: Já te passou pela cabeça que eu sou uma policial? E que estou com arma de fogo carregada? E que mamãe jamais vai te perdoar por ter roubado a faca da coleção de armas para me ameaçar?

JONAS: Alana, nem sei como te dizer isso. Mas acabou. Você caiu numa emboscada. Não foi imperícia sua. Nós é que fizemos o plano perfeito. Não dava para descobrir mesmo. Sei que vai ser difícil aceitar que perdeu, mas é a única opção possível para você: fugir comigo. Agora.

ALANA: Estou cansada, sabia?

JONAS: Eu sei... te entendo. É que você ainda não conheceu a pessoa certa.

ALANA: Estou cansada dessa raça chamada homem.

ALANA: Chegam abanando o rabo, cativantes, mas nos enxergam só como comida. Têm um apetite doente para nos devorar e nos anular. Não vou matar a sua fome reprodutiva, o seu faro imundo. Cães... Só faltam latir.

JONAS: Como você é ácida.

ALANA: Jonas, guarda essa faca. Vamos voltar para casa.

JONAS: Você quer descontar suas frustrações amorosas em cima de mim, um pobre rapaz de família.

ALANA: Isso é tão clichê e vitimista.

JONAS: Dá para ver o vazio nos seus olhos. E dá pra ver que eu tenho para te oferecer o amor que te falta.

ALANA: Você acha que amor é apropriação, que você é o predador e eu a presa. Não quer uma mulher e sim uma fêmea para se autoafirmar em cima dela. Ama fantasias alimentadas por nuvens pornográficas de restos de imagens metonímicas de corpos sem alma que você vê no computador. Isso que você chama de amor... não é direcionado a mim. É sempre sobre você. Ou realmente te interessa saber quem eu sou e o que eu penso? Te basta ficar encarando a minha bunda como fez ontem. Amor para você é só pulsão e instinto. Eu sou mais do que isso. E você também.

JONAS: Não precisa de tanto papo Alana, vamos curtir.

ALANA: Jonas, escuta uma coisa: a gente nunca conversou. Você está amando uma ilusão, um fantasma.

JONAS: Mulheres como você nunca olham para homens comuns que nem eu. Só se colocarmos uma melancia na cabeça, desenvolvermos um papo absurdo que te faça acreditar ver estrelas ou te darmos um susto impossível de ser ignorado. Tentei a terceira opção. Vocês não gostam de homem que faz e acontece? Então. Eu fiz. E vai acontecer.

ALANA: Isso é coisa de gente que não conhece mulheres e fica teorizando, criando um filme de ficção na cabeça.

JONAS: Ficção? O que você me diz sobre Matriz Fontana? A violência passional lá é bem real, não é?

ALANA: Hum, você andou lendo as notícias de lá...

JONAS: Eu sou a notícia, baby. Parque Limpo. Facadas. Números primos. Te soa familiar? Foi minha maneira de fazer você correr atrás de mim o dia inteirinho. De desejar minha presença acima de tudo.

ALANA: Ah tá, você é o criminoso que estamos procurando há meses? Vai me dizer que também invadiu meu apartamento?

JONAS: Isso.

ALANA: Como exatamente?

JONAS: Eu me cadastrei no aplicativo de entrega de comida. Fiquei meses esperando alguém do seu prédio pedir hambúrguer. E bang! Tive minha entrada liberada e zoei a sua casa.

ALANA: Jonas, se isso for verdade, você é um psicopata. Você matou 15 pessoas e acabou com a minha vida. Qual a chance disso dar certo?

JONAS: Não se faça de fria. Tem um desejozinho por mim aí. Eu sou o serial killer top. Não está emocionada em saber da verdade?

ALANA: Emocionada? Se for isso mesmo que você está falando, essa história termina com você preso.

JONAS: Não mesmo.

ALANA: (Alana abre o celular e mostra fotos das 15 vítimas) . Me diz o nome de uma por uma. Assim fica razoável acreditar em você.


Jonas enumera todos os nomes e ainda conta detalhes sórdidos de como cometeu os crimes.


PARTE 50


JONAS: (mostra imagens no celular de homens encapuzados nas ruas de Matriz Fontana). Hoje, na véspera de Natal, a cidade acabou de ser tomada por nós. Se você tivesse lá ia ter virado presunto. Adivinha quem te salvou? Adivinha qual a sua bóia salva-vidas?

ALANA: Ah claro, você.

JONAS: Acertou.

ALANA: Mentira. Eu estudo a cidade há anos e não havia nenhum indício de crime organizado nesse nível. Além disso, antes de partir deixei nas mãos do delegado o plano de contenção de emergência.

JONAS: Acha que ele leu uma página? Aquele sujeito não tem nada a perder, ganha mal e sabe que é medíocre. Essas pessoas são facilmente subornáveis. Ofereci uma grana para ele te convencer a tirar licença. Eu sabia que você viria pra cá. Entendeu agora?

ALANA: Eu vou ligar para o delegado.

JONAS: Não tem mais delegado, Alana.

ALANA: É isso o que vamos ver.


Alana aguarda na linha sem resposta.


ALANA: O que você fez com o delegado?

JONAS: Não sei se vale à pena te mostrar. As imagens são fortes.

ALANA: Me mostre. Me prove.


Jonas pega o celular e dispara um vídeo com imagens tremidas de civis correndo e o delegado sendo fuzilado no paredão externo da delegacia.


ALANA: Já entendi. Pode desligar isso. Mas existe ainda a possibilidade que seja montagem. Eu vou agora mesmo a Matriz Fontana saber o que realmente está acontecendo.

JONAS: Alana, você quer morrer, é isso? Que cabeça-dura...


Ela agacha e pega o colar de Hamsa. Mexe no cabelo com olhar pensativo, num gesto muito parecido com sua mãe, faz um rabo de cavalo e prende o cabelo com o barbante.


JONAS: Estou de moto. A estrada é toda nossa para vivermos uma paixão alucinada. A policial e o bandido, imagina? Esse lugarzinho aqui sempre será seu. (o primo bate com a mão na garupa).

ALANA: Lugarzinho? Eu vou te dizer o que vai acontecer: não nasci para viver na garupa de ninguém. Você vai confessar tudo isso em família. Depois vamos esperar a viatura te buscar e você vai se entregar.

JONAS: Eu só dou partida na moto para seguir estrada. Se você não for comigo e resolver ir a pé para o jantar, a partir de agora é terra sem lei, senhorita. E eu sei como fazer uma mulher sofrer se eu quiser.

ALANA: É melhor fazer o que pedi. Senão, vai por mim, você não vai gostar de ver o meu lado não-civilizado.

JONAS: Eu vou amar. É o que mais quero.


PARTE 51


Ouve-se um estrondo impactante:


A porta da casa da mãe de Alana é arrombada. O impacto da maçaneta no disjuntor, faz as luzes da casa piscarem.


Assustada, a matriarca afrouxa a pressão das mãos e promove uma ruptura sem precedentes nas tradições familiares: abre os olhos e para a "Ave Maria" no meio.


Todos os membros da família, que estavam de mãos dadas em círculo, vão soltando as mãos progressivamente, acompanhando a decisão da maestra.


JONAS: Me solta!


Alana mantém o primo algemado à sua frente, rendido com arma nas costas.


JONAS: Ela é louca, tia. Como você pediu, eu fui ver onde ela estava nessa noite tão importante. Encontrei a garota parada igual a um fantasma num terreno baldio. Me rendeu e me ameaçou com a faca que roubou da coleção da senhora.

MÃE: Alana, acho que agora você passou dos limites.

PAI: Verdade.

IRMÃO: Peraí, deixa ela explicar. O que houve, Alana?


ALANA: Eu apenas saí para andar.

MÃE: Você ficou quase um dia inteiro andando. Acha isso normal?

ALANA: Foi o tempo que precisei, mas já estava retornando. No caminho, foi ele que me rendeu com a tal faca e ameaçou inclusive me violentar sexualmente. Não tem como negar. Tenho áudio gravado da voz dele fazendo isso. Posso provar.


MÃE: Provar, Alana? Seu primo é gente da gente. Nós confiamos nele. Toma café comigo, gosta das minhas receitas, elogia até mesmo quando ponho passas. É bem-humorado, receptivo, alegre e tem paciência para me explicar a mexer no celular. E você? Está há 15 anos sem dar um pio e sempre que aparece traz algum tipo de maldição. Deus me Livre. Quando era criança assustava as pessoas de camisola na madrugada. Já causou a morte do nosso querido cãozinho. Já deixou a casa sem água em pleno feriado. E agora? Quer profanar o Natal? Quer machucar o seu primo? O que há com você?


ALANA: Mãe, eu vou dar o play para vocês escutarem.


MÃE: Não, Alana! Não queremos mais isso. Estamos cansados dessas artimanhas. Nem os trabalhos espirituais da Tia Ana conseguiram tirar você do mal. Nós tentamos de tudo. E você nunca, nunca nos honrou. Sempre, sempre causou constrangimento na gente. Parece que você não nos considera da sua família. Fica aí distante, querendo provar seus os pontos de vista. Não é assim. Tem que sentar com a gente. Tem que criar laço com a gente. Comer a comida da gente. Orar com a gente.


ALANA: Vocês não estão entendendo a gravidade da situação. Esse sujeito faz parte de uma milícia. Matou 15 mulheres. E foi responsável por implantar um poder paralelo violento em Matriz Fontana.


MÃE: Alana, menos. Seu primo é trabalhador, não é? (olha para o marido buscando concordância).

PAI: Sim, trabalhador.

MÃE: Não é só você que foi morar na cidade grande. Ele também foi. É esforçado. Conseguiu um emprego lá como motorista de aplicativo. Ganha o dinheirinho dele. Ele é humilde e confiável.

ALANA: Confiável, né?


Alana pega Jonas pela gola da camisa e bate a cabeça dele na mesa da sala. Com o impacto, o peru natalino expele pelo ânus um pouco de farofa.


ALANA: Fala a verdade! Confessa!


A mãe se levanta e contém Alana.


JONAS: A violência policial está passando dos limites, hein?

MÃE: Alana, chega! Você não é mais bem vinda aqui. Faça suas malas e volte para casa. A patricinha vive no mundinho dela. Não pensa na família.


ALANA: Mãe, deixa eu explicar.

TIO JORGE: Eu já vou indo, acabou o clima do Natal para mim.

PAI: Espera, meu irmão.

TIO JORGE: Você tira o carro da frente para eu sair da garagem?

MÃE: Não, se tem alguma pessoa que precisa sair daqui é a Alana.


Em prantos a mãe desmorona:


PARTE 52


MÃE: Eu te deserto. Não te quero mais como filha. Com a bênção de Deus, eu abro mão de você. Chega, não aguento mais.


O pai abraça a esposa.


IRMÃO: Alana, pelo andar das coisas acho melhor você ir embora mesmo.

TIO PAULO: Solta o Jonas, sua maluca!


A prima e seu namorado levantam da mesa assustados e vão para o jardim.


Alana vai até a escada e devolve a faca decorativa ao seu devido lugar na coleção.


Puxa os cabelos de Jonas e o pergunta ao ouvido:


ALANA: Por que o número de vítimas é sempre primo? Por favor me diga que não é tão óbvio... que é só porque você é meu primo.


JONAS: Não sei. Não é você que é a investigadora?


ALANA: Jonas, você vai ser preso.


JONAS: Onde Alana? Em que cadeia, em que cidade, com que provas?


Alana desalgema uma das mãos de Jonas e o prende a uma viga metálica da escada.


ALANA: Como indenização por danos morais, eu vou aceitar a sua moto como pagamento.

JONAS: Minha moto? Que eu comprei com meu dinheiro suado em 24 vezes e é meu instrumento de trabalho?

ALANA: Não, a moto que você comprou para servir de fachada para os seus crimes e para tentar me prender a você num relacionamento doente.


A família levanta para tentar soltar Jonas.


ALANA: É uma pena que as coisas tenham acabado assim. Perdoem o mal que eu nunca tive intenção de causar. Perdoem por não conseguir ser igual a vocês, apesar de ter tentado. Talvez um dia descubram que Jonas é perigoso. Talvez queiram abrir a porta do quarto do vovô e ver o que realmente há por lá. Talvez percebam que mamãe tem manipulado essa família. Por agora, se for melhor, finjam que minha estada esta noite não passou de um pesadelo.


Alana ronca o motor da moto e parte em direção à saída da cidade.


PARTE 53


Sai da rua de terra batida. Passa pelas vias asfaltadas do centro. Vê os pontos turísticos ficando cada vez mais para trás no retrovisor: a Igreja Nossa Senhora das Dores. A ponte de ferro. A antiga usina de açúcar. A arena cultural a céu aberto. E finalmente as fazendas de gado leiteiro antes do pórtico de saída, com os dizeres pintados a tinta em pedra mofada: "Quem é do Açude sempre volta."


Nem sempre se volta ao mesmo lugar, senhora placa. Não se eu levar essa investigação às últimas consequências.


Alana tira o chip do celular e arremessa para o lado, acabando com a chance de rastreamento.


De uma barraca de bananada, um mendigo alcoolizado com roupa de papai-noel lhe faz um sinal de coração, com os polegares e indicadores das duas mãos.


Ela fecha os olhos e ouve o som de latas pipocando no asfalto.


Olha para cima e avista um buquê de rosas brancas preso no topo de uma árvore.


Sente-se leve, com o vento intenso do movimento desobstruindo seus poros.


Aumenta a velocidade da moto ao máximo.


PARTE 54


E continua refletindo:


Números primos...


José, Bruno, Jonas, os criminosos passionais de Matriz Fontana, minha mãe, eu...


Todos somos como os números primos:


Ou nos dividimos por nós mesmos ou por um.


Temos dificuldade em nos dividir por outro.


Porque a junção de um eu com um outro dá resultado quebrado, deixa sobras complicadas que doem.

Para resolver este problema de incompatibilidade, criamos um problema ainda pior: fingimos que o outro é uma réplica exata do eu, para que a divisão fique aparentemente redonda.


Com isso, cometemos violência em algum grau, desfiguramos o outro, com a desculpa de amá-lo.


Na dinâmica de casal, um dos dois acaba se diminuindo ou se aumentando demais, para parecerem iguais, numa aproximação forçada que só tende a enriquecer urânio para um desastre futuro, quando algum dos dois explodir e recobrar a sua verdade.


Muitos desistem, optando por desenvolver a outra faceta do número primo:


Tentam dividir-se por um, ou seja, pelo todo.


Passam a amar coisas impessoais como cidades, viagens, florestas, mares ou entidades espirituais.


Ora, entre se relacionar com falsas almas gêmeas ou com um todo impessoal, talvez o segundo seja menos frustrante.


Mas eu não quero nenhum dos dois.


Quero romper.


Quero acabar com a lógica dos números primos.


E conseguir me dividir direito com um outro.


PARTE 55


Alana chega à cidade de Horto Luz no domingo à tarde, momento em que não há uma alma penada na rua.


O comércio local é, quarteirão após quarteirão, quase exclusivamente composto de lojas de construção civil e pastos.


Ainda em alta velocidade, ela vira a moto numa curva fechada e tenta evitar o atropelamento de um transeunte que carrega sacolas de compras de mercado no meio da pista.


A situação lhe faz recordar diretamente a morte de seu cão no rally.


Só que agora é ela que está no volante e pode tentar alguma manobra para não repetir a tragédia pregressa.


Seu corpo reage por reflexo e vira o guidão com força.


A moto derrapa no acostamento.


Para salvar a própria vida, Alana salta e rola no chão pelo asfalto.


Desgovernada, a moto vai de encontro a uma árvore, desprende o pneu dianteiro e causa um pequeno incêndio.


Alana se levanta e caminha por entre a fumaça, pisando em grãos de feijão, que se espalharam pela rua, perdidos da sacola de compras do homem.


A detetive dá a mão ao ferido e o ajuda a se recostar no degrau da calçada.


Há latidos intensos no canil da rua, assustados com os barulhos.



PARTE 56


ALANA: Você está bem?


HOMEM: Sim, só estou um pouco tonto e arranhado.


O homem abre os olhos, acena para o canil, assobia e com isso faz os latidos cessarem imediatamente.


ALANA: O que foi isso? Você é adestrador?


HOMEM: Veterinário. Também resgato cães de rua.


ALANA: Não é só arranhão, estou vendo um corte nas suas costas. Podemos ir até sua clínica e lhe faço um curativo. É uma forma de reparar o dano que acabei de causar.


HOMEM: Sabia que você traria bom agouro. Desde que te vi na esquina.


ALANA: Você não sabe do que está falando. Eu não sou esse tipo.


HOMEM: Há anos não vejo alguém em tão alta velocidade. Seja aonde quer que você queira chegar, eu vou te ajudar.


ALANA: Esses cães são seus?


HOMEM: Sim, sou uma pessoa nômade, mas parei por aqui porque essa cidade tem uma atmosfera limpa, é bem recente. Meu consultório ainda é o primeiro da região. Estou feliz aqui, adoro esses cães.


ALANA: Sério mesmo?


HOMEM: Sim, eu amo esses animais.


ALANA: Você diz que ama por força de expressão, certo?


HOMEM: Por quê? Você não gosta de cachorro?


ALANA: Nós não nos damos tão bem. Mas o que é amar os cães para você?


HOMEM: É mais fácil te dizer o que não é: Não é esperar que eles me façam bem. Não é querer que eles preencham meu vazio.


ALANA: Então o que é?


HOMEM: É abundância. É transbordamento. É conseguir chegar ao ponto de querer, não com a cabeça, mas de corpo inteiro, com todas as células, que os cães existam.


ALANA: Acho impossível não querer nada em troca. Provavelmente você só acolhe animais porque sabe que pularão de alegria no seu colo.


HOMEM: Esta é a consequência, não a causa. A causa é querer o bem deles independente de qualquer coisa.


ALANA: Curioso. Você acha que eles sentem o amor que você projeta neles?


HOMEM: Sim. Os cães me ajudam a saber se o amor que estou sentindo é de qualidade. Porque não é qualquer amor que eles legitimam. Eles percebem por instinto se o que tenho a oferecer é genuíno. Se houver alguma tensão ou dúvida em amá-los, imediatamente eles rosnam e demonstram oposição.


ALANA: Então se eles latem você pressupõe que a culpa é sua? Que é você que não está conseguindo amar incondicionalmente?


HOMEM: Isso. Se eles demonstram alegria e fluidez, é que estou acertando no tipo de amor que estou sentindo. Depois de alguma prática, já consigo abrandá-los em segundos. Mas para isso, não funciona amar mais ou menos. Neste caso, reagem com alguma raiva, justamente porque, na minha mente, embutido no pacote da intenção de amar, estava também alguma intenção violenta escondida.


ALANA: Já testou essa teoria com pessoas?


HOMEM: As pessoas são um pouco mais difíceis, mas tenho treinado. Acredito que dê certo também. Porque isso acabou de acontecer. Com você.


ALANA: Comigo?


HOMEM: Sim. Quando te vi na esquina, entendi que seu caminho tem sido espinhoso. Mentalizei que você devesse merecer um alívio depois de tanta estrada. Torci por você.


ALANA: Mas por quê?


HOMEM: Não sei, foi instantâneo. Ao que parece você entendeu imediatamente. Tanto que se esforçou para poupar a minha vida.


ALANA: Não leve a mal, mas isso é um ideal tão romântico, como se a vida fosse magicamente entrelaçada e justa. Eu sou do tipo mais racional, e posso te dizer que a motivação para te salvar foi meramente vontade de mudar o ciclo das violências que têm se repetido na minha vida. Foi raiva mesmo. De tentar evitar mais tragédia.


HOMEM: Na hora que você virou o guidão não foi razão, foi "faro". Não no sentido precário de odores orgânicos, mas num sentido de percepção sutil. Você sabe que eu estou jogando do seu lado, que não represento ameaça para você.


ALANA: Certamente não estou tão defensiva como de costume.


HOMEM: Se você estivesse defensiva é que alguma crença negativa minha em relação a você estaria obstruindo a chance de uma troca sincera.


ALANA: Você está me dizendo que a chave do amor é a sua própria mente? Não lhe parece pretensioso e egocêntrico?


HOMEM: Não, porque não é apenas sobre mim, é sobre nós. Para dar certo, minha intenção de amar não pode ter ressalvas , senão o amor desmancha. Por isso as pessoas costumam achá-lo impossível e fugidio. Porque nossas mentes não conseguem manter a intenção de amar por muito tempo, sem odiar o outro em algum momento.


ALANA: Escute, sem querer interromper sua linha de raciocínio, mas temos que cuidar de coisas mais práticas. Daqui a pouco o comércio vai fechar. Você tem kit de primeiros socorros ou precisaremos achar uma farmácia aberta?


HOMEM: Tem mantimentos lá na clínica.


ALANA: Então vamos, vou te ajudar com a ferida.



PARTE 57


Alana passa um algodão umedecido sobre as costas do homem.


ALANA: Vou dar alguns pontos.


HOMEM: Você sabe fazer isso?


ALANA: É um bom momento para testar sua teoria. Confie. Confie mesmo. Não tenha resistências em relação a mim senão pode resultar em infecção, quem sabe.


O homem fecha os olhos e sente a dor da ponta da agulha.


ALANA: Parece que deu certo.


HOMEM: Você aceita comer alguma coisa enquanto decide como vai seguir sua viagem daqui para frente?


ALANA: Sim, se não for torta de ricota com passas... Algo das suas compras conseguiu sobreviver ao acidente?


HOMEM: Sim. Sobrou macarrão com molho de tomate.


ALANA: Era o cardápio da última refeição que tentei fazer em casa.


HOMEM: Ótimo. Vamos fazer essa refeição que não aconteceu.


O homem vai até a pequena copa da clínica, onde há um fogão de duas bocas.


Alana esquenta a água para a massa enquanto ele prepara o molho.


Ele coloca um anel de cebola no anelar de Alana e o conduz até os cílios dela, que trêmulos, tentam expulsar o incômodo medo de amar.


HOMEM: Relaxa. A cebola está bem próxima aos seus olhos e você não está lacrimejando. Nem sempre anéis de cebola fazem os olhos arderem.


ALANA: O que você tem em mente? Vamos comer um prato de macarrão como na cena do filme "Dama e Vagabundo" e viveremos felizes para sempre?


HOMEM: Não, eu não sou tão destruído a ponto de me considerar um vagabundo.


ALANA: É, também nunca fui uma dama.


HOMEM: E não acredito mais em "para sempre", apenas em momentos que dão uma amostra singela do que é a eternidade.


ALANA: É estranho. Eu sei reconhecer quando alguém está mentindo e você definitivamente não está.


HOMEM: Se esse momento improvável aconteceu é que nós dois estamos disponíveis para isso.


ALANA: Disponíveis para viver um acidente na estrada?


HOMEM: Não apenas acidente. Acidente seguido de salvamento.


Ele passa as mãos na nuca dela, levanta seus cabelos e sussura ao pé do ouvido.


HOMEM: Fica... Vem me investigar.


Os dois largam as panelas e se beijam.


A água do macarrão começa a ferver.


ALANA: Espera. Vou caminhar um pouco lá fora e já volto. Preciso tomar ar fresco.



PARTE 58


Acho que estou começando a sentir um pedaço do amor. É algo capaz de perfurar as fortalezas que levei a vida inteira para formar, achando estar construindo algo sólido para ser alguém na sociedade.


Já é hora de dispensar esses enfeites natalinos.


Talvez o amor não possa ser construído nem encontrado, porque ele já é.


E sendo uma coisa pronta, cabe tentarmos fluir através dele.


Eu permito que a lua estoure seu ouro na minha cabeça. Já estou pronta.


Eu permito que sejam abertos os meus quartos escuros, ora soldados com minhas proteções intelectuais e apegos.


O amuleto de Hamsa de tia Ana era só uma metáfora do meu próprio amuleto interno.


Aquele que ao longo de todos estes anos impediu que as violências potenciais que me rondam se concretizassem.


Acho que havia uma parte amável em mim que me protegia do pior.


Sendo assim, todos os homens estranhos que me assombraram nada mais foram que reflexo da maneira negativa com que eu definia racionalmente os afetos: ambíguos, monstruosos, danosos, traiçoeiros.


Se eu quebrar o resto de hino fúnebre que sepulta o amor em mim, aí está a chave para ligar o disjuntor.


Porque eu sou uma lâmpada, parte do fio de pisca-pisca da raça humana. Com dificuldade de reter a luz por muito tempo. Frequentemente com mau contato. Mas me dispondo a tentar. Tentar fazer com que o amor passe por mim e se expanda.


Estou vivendo algo importante esta noite, preciso exteriorizar de algum jeito.


PARTE 59


Alana pega o celular de reserva, que guardava para eventuais situações emergenciais:


MÃE: Alô? Quem é?

ALANA: (suspira).Eu te amo.

MÃE: Quem é que ama quem, meu Deus? Quem que está falando? É golpe, é isso?

ALANA: Sou eu, mãe.

MÃE: Alana?

ALANA: Sim. O verdadeiro Natal só aconteceu hoje para mim, depois da hora.

MÃE: Alana, acorda, o Natal já passou. E eu não esqueci do que você fez. Tem noção do trabalho que me deu achar um ferreiro em pleno feriado para soltar seu primo da escada? Nós denunciamos você por roubo e prestamos depoimento. Você está sendo procurada. Não devia estar me ligando.

ALANA: Só queria que soubesse que, independente das nossas divergências, eu permito que você revele o seu melhor pra mim. Sempre te vi como uma pessoa ruim e quero te libertar das minhas piores expectativas.

MÃE: Quem tem que mudar aqui é você, não sou eu não.

ALANA: Entendo o seu lado, mas não deixe de medicar o pai. Eu sei que alguma parte de você sabe que isso é o mais certo a se fazer.

MÃE: Eu já não te disse que ele está tomando o remédio? Que história é essa agora?

ALANA: Está faltando remédio no depósito. Eu vi.

MÃE: Não está não.


(Alana abre o vídeo da câmera do celular)


ALANA: Mãe, eu não estou contra você. Não vou falar para ninguém o que descobri, só estou te pedindo para você não deixar o pai morrer em nome do seu orgulho.

MÃE: Que olhar é esse, Alana?

ALANA: Olhar?

MÃE: Você está com amor nos olhos. (choro). Onde você está, minha filha?

ALANA: Longe, mãe. Muito, longe.

PARTE 60


Alana caminha de volta para a clínica, trepidando as pontas dos dedos na grade do canil.


Os cães assistem seus passos sem emitir qualquer ruído.


O tapete da entrada diz "Boas Vindas" com letras legíveis e nada desbotadas.


Da janela da rua, ela vê o homem despejando o molho na massa e montando os pratos.


Há tempos não presenciava uma mesa posta para dois.


Alana tira da bolsa o último item de seu passado que ainda traz consigo: a bola da árvore de Natal, remanescente da invasão do seu antigo apartamento.


Pendura o artefato num vaso de plantas da entrada da clínica e contempla, no reflexo do espelho curvo da bola, sua mão ampliando-se imensamente de tamanho.


Caso encerrado. Já estou pronta para receber algo maior.

FIM


Este texto surgiu da conexão de ways. Leia aqui.







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