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T1 EP7 (WYT)

Atualizado: 24 de jul. de 2023


O MARTELO INVERTIDO


PARTE 1


Daqui do porão dos meus pensamentos posso ter a liberdade de me apresentar como realmente sou.


Prazer, meu nome é Youssef.


Sou uma víbora, que de tempos em tempos precisa ferir os outros para se alimentar. Não só pela minha própria homeostase emocional, mas pelo equilíbrio de todo o mundo.


Meus dons são necessários para podar os excessos que as pessoas cometem.


Pode parecer chocante, mas só eu sei o bem por trás do mal que causo.


Não machuco por machucar. Ajo no limite do que é justo.


Nem menos nem mais.


(Estrondo grave)


PARTE 2


Todo dia acordo com este barulho.


Não é o ruído de construção civil como se poderia esperar.


É o som de "tanggu", um tambor chinês, tocado há duas quadras daqui por uma senhora chamada Hai Rong.


Moradora antiga, foi uma das primeiras a chegar na vila de imigrantes deste arquipélago do Pacífico.


Vive tentando achar meios cada vez mais ruidosos para tentar se recordar de seu país de origem.


Em outros tempos, eu já teria posto um fim assertivo no incômodo que esta mulher me causa, mas aprendi com Hawise que, neste caso, é mais prudente ter autocontrole.



PARTE 3


Visitei a casa de Hai Rong pela primeira vez quando eu ainda era aprendiz de marceneiro.


Vi seu amontoado de móveis, que praticamente não deixavam espaço livre para circulação.


Como se não bastassem as barreiras físicas, ela não me permitia nenhum silêncio para trabalhar em paz, derramando incontinências verbais repetitivas, que aprendi a fingir que escuto, concordando com a cabeça.


Sempre longas descrições pretensiosas de coleções de porcelana que seriam imperceptíveis a pessoas simples como eu.


Sua sala conseguia ser mais desorganizada que meu galpão de sucatas nos piores dias.


Na ocasião, tirei medidas para construir uma mesa, de inspiração asiática, baseada em escritos amarelados de seu avô, em mandarim antigo.


Tivemos que refazer o móvel inúmeras vezes até que a cidadã finalmente resolvesse aprovar.


Sr. Hawise, meu mentor, dizia que este tipo de cliente deve ser bem tratado em dobro, pois sempre volta e paga acima da média.


PARTE 4


Hawise era um homem sábio, tirando o fato de ter-se deixado morrer de um jeito tolo, por excesso de fumo.


Tinha uma pequena biblioteca no porão desta marcenaria onde, nas horas vagas, debruçava-se em leituras, por entre a neblina de suas baforadas e pausas reflexivas para olhar o descampado na janela.


Ao fim do dia, sintetizava para mim algum ensinamento.


O jeito com que se dirigia a mim amortecia todo o meu desejo de violência.


Ele era ótimo no trato com pessoas, neste campo minado do comércio, onde o cliente quer se sentir muito mais especial do que é, a ponto de, seduzido pelo bom tratamento que não está acostumado a receber, possa compensar suas frustrações gastando mais e mais. Pagam não pelo produto, mas para serem acolhidos por pessoas servis, num lugar que só se propõe a atender seus desejos caprichosos.


Hawise era o sol, onde os clientes vinham se aquecer.


Eu era apenas a sombra, o braço auxiliar.


Não sei por que ele fez questão de fazer tanto por mim. Treinou-me na arte da madeira e deixou no testamento esta loja de herança para mim.



PARTE 5


O problema é que herdei também a convivência com Hai Rong, esta senhora sedenta por bajulações.


Quando vem aqui pede "aquele banquinho de sempre", que pressupõe estar disponível e limpo.


Senta no canto da sala para se deleitar me observando trabalhar para ela.


Repousa sacolas de compras no chão, abre um de seus leques e suspira, esperando que este sinal me faça correr imediatamente a seu encontro para guardar seus pertences atrás do balcão.


Espera também que eu lhe ofereça água com limão. Nem muito gelada nem muito quente.


Ela sabe do peso que tem no orçamento dessa loja, por isso comete seus pequenos abusos.


Quando me pergunta algo, é para que eu confirme sua visão de mundo e a deixe à vontade.


Quando minha resposta não lhe interessa, me interrompe no meio, levanta a voz sem qualquer cerimônia e troca de assunto.


Dá-me gorjetas em notas amassadas, tiradas do fundo bolso, como quem atira migalhas aos pombos.


Tolero quase tudo da mania dessas pessoas, menos uma coisa:


PARTE 6


Dizer que errei o troco.


Ela sabe que eu não erro.


Sou especialmente atento a esses detalhes.


Cheguei a conferir na sua frente, moeda por moeda, enquanto ela me encarava debruçada na beira do balcão.


Só pode ter alegado falha da minha parte para me humilhar, ver traços de constrangimento no meu rosto ou ouvir um "desculpa senhora", que alimentaria sua sensação de superioridade.


Hai Rong, como você é ingênua...


Se o Youssef aqui já fez o que fez com técnica parca e estômago vazio, imagina o que posso fazer com toda a experiência adquirida nesses anos de talhos e cortes finos em madeira.


Não vou abrir exceções só porque já passou dos 60 anos ou insiste em falar comigo desse jeito melodioso e hipócrita de madeira mole.


A justiça precisa ser cega. Igual para todos.



PARTE 7


No porão da marcenaria, guardo pequenos troféus de madeira, que produzi para lembrar das minhas conquistas, de quem eu sou de verdade.


Cada um deles representa um "grande troco" dado por mim, há anos atrás, em pessoas que incontestavelmente mereceram.


Esta aqui, por exemplo, é uma réplica do meu primeiro revide: quando construí uma armadilha de alçapão para prender um colega de bairro.


Mantive-o confinado por dois dias, um prazo que não o mataria, mas o deixaria em pânico, na companhia de uma cobra não venenosa e privado de água e comida.


O rapaz nunca soube que fui eu.


É sempre melhor que ninguém saiba.


Sem culpados, sem nomes, sem vestígios.


A lição o deixou bem mais manso, tornando a convivência melhor para todos.


Parou de rir da minha pontaria quando eu martelava o prego no lugar errado.


Que era o certo a se fazer, nunca tive dúvida.


Mas o que me surpreendeu foi a sensação resplandecente de prazer que me tomou o corpo todo.


Eu havia destravado um poder pessoal que a vida cotidiana jamais me proporcionou.


Era como sentar no trono secreto do príncipe das trevas, de onde eu podia ser a fonte causadora do que eu quisesse.


Mas como todo grande dom traz um ônus, eu jamais poderia revelar o meu poder e ser reconhecido pelo que faço de melhor.


Tudo bem, não se pode ter tudo nessa vida.


Para uma pessoa sem grandes ambições, sempre arrastada pelos outros de lá para cá, já foi um achado expressivo. Uma vez provando do meu valor, eu não abriria mão de senti-lo mais e mais vezes.


Me senti grato por ter descoberto o meu eixo, o meu centro.


Estava tão bem comigo mesmo que não precisei mais me apegar aos antigos vícios em entorpecentes juvenis.


Nunca falei dessas questões com ninguém, nem mesmo com Hawise.


A marcenaria é uma meia verdade.


A outra metade é que eu uso a madeira para fazer o que convencionou-se chamar de vingança, mas eu prefiro chamar de reparo.


PARTE 8


O mar me trouxe a esta cidade aos 16 anos, depois de ter perdido toda a minha família numa tentativa de travessia migratória ilegal.


Na praia, esbarrei com um homem magro e calvo, que estava sentado numa pedra fumando cigarro. Era Hawise.


Ele esperava pelo abastecimento de madeira, mas o que chegou foi um jovem desgraçado, vindo de lugar nenhum, só com a roupa do corpo.


Contei-lhe as partes confessáveis da minha história, omitindo o melhor de mim, esta minha capacidade secreta de arquitetar e executar punições corretivas, que já somavam seis naquela época, um prodígio para minha idade.


Suas sobrancelhas murcharam e seus olhos se perderam no mar, comovidos pela tragédia da minha solidão.


Tive a impressão de que sua cabeça havia se desdobrado em várias, abrindo-se como uma sanfona desconjuntada.


Consegui trazê-lo ao prumo quando peguei o cigarro que tinha caído e coloquei de volta em sua boca.


Perguntou-me se eu sabia fazer algum serviço.


Disse a verdade: não tenho estudos, só faço pequenos consertos em madeira.


Ele me levou até uma árvore de caule grosso, bem na entrada da região portuária e me disse que era tradição dos recém-chegados colocarem as mãos sobre ela, como num rito de boa sorte.


Disse que eu tivera a sorte de chegar num polo exportador de madeira e que ia me treinar para ser seu auxiliar.


Hawise ensinou-me, além da técnica, o perfeccionismo, a dedicação e a paz de espírito.


Influenciado por livros que tinha ganhado de presente de Hai Rong, ele dizia que, segundo a medicina chinesa, o elemento madeira poderia operar grandes mudanças quando bem manipulado.


Realmente. Neste novo contexto em que fui parar, eu não precisava mais lutar para ser respeitado ou fazer justiça com as próprias mãos.


Tudo o que nunca recebi, aquele sujeito me ofereceu de graça.


Mas como ele mesmo dizia, viver não é uma jornada estática.


No I-Ching, o chamado livro das mutações, é dito que a vida está constantemente recombinando seus padrões e nossas atitudes precisam mudar para acompanhar tal ritmo e conseguir vencer as batalhas que se apresentam.


Muitas coisas mudaram: hoje sou dono de um negócio, Hawise já se foi e você, Hai Hong, cruzou uma linha perigosa.


Ouço o chamado do meu dom, exigindo de mim que eu seja instrumento para consumar um grande troco.



PARTE 9


Nesta época de outono, as flores caídas sobre as águas formam um tapete de cores vivas e perfumadas. Perfeito para rotas românticas, homenagens pós-morte ou o belo de um troco.


Disse a Hai Rong que lhe daria um presente, como forma de agradecimento por todos esses anos de confiança.


Dispus-me a construir gratuitamente um barco, ao estilo chinês, com os detalhes que ela quisesse. Com ele, faríamos um passeio para apreciar as matizes da estação.


Nunca a vi tão sorridente. Ela acompanhava o processo com inquietude, perguntando quantos dias faltavam para terminar.


Prolonguei os preparos intencionalmente, para que ela ficasse mais e mais ansiosa, perdendo a racionalidade e suscetível a não desconfiar de nada.


A justiça tem um sabor melhor quando degustada aos poucos.


É bom deixar que a dor se amplifique para que o prazer do alívio seja maior.


Eu merecia um retorno triunfante aos braços do meu dom.


O plano era oferecê-la ao mar.


Eu aproveitaria o momento do passeio em que ela estivesse entretida com os próprios monólogos, de costas para mim, para desviar a rota sem que ela notasse.


No ponto certo, eu pularia na água e tiraria o lacre do casco do barco, que propositalmente tinha uma rachadura oculta, pronta para naufragá-lo progressivamente em direção a uma catarata, que desembocava num lago discreto encoberto por pedras, prestes a se congelar com a chegada do inverno.


Pouco acostumada que era em resolver coisas com as próprias mãos, jamais teria força para remar ou arriscar braçadas de resistência. Em nenhuma hipótese ela poderia sobreviver.


PARTE 10


Somando as várias pequenas mortes que ela gerou diminuindo os outros, o saldo devedor lógico é uma grande morte.


O karma, ou a justiça do universo, paga o que fazemos com a mesma moeda.


Se a natureza dá o troco e opera através de nós, que também somos natureza, por que não eu, detentor de um discernimento acima da média, não deva fazer esse trabalho? Pareceu-me razoável.


Até já atualizei meus troféus com o sétimo: uma réplica idêntica daquele barco.


Confesso que fiquei especialmente orgulhoso, o que me fez lembrar dos alertas de Hawise sobre meu ponto fraco ser a soberba e que jamais deveria alimentá-la, pois seria a porta de entrada para todos os outros vícios.


Ele tirou essa ideia de um pequeno texto medieval de autoria de Hugo de São Vítor, chamado "Cinco Setenários ", onde era argumentado que os 7 vícios capitais seriam progressivos:


Primeiro viria a soberba, quando a pessoa só reconhece o bem nela própria.


Como consequência viria a inveja, que é a não aceitação do bem no outro.


A sensação de injustiça por não ter o bem tal como o outro, levaria à ira.


Não encontrando mais sentido, viria a falta de vontade de viver sob forma de tristeza/preguiça.


Para compensar o vazio espiritual, o sujeito se concentraria em bens materiais, surgindo assim a avareza.


A descida seguinte seria engolir o máximo de matéria para acumulá-la no estômago, através da gula, vício que já estaria abaixo do nível dos animais, que só comem o necessário.


Finalmente apareceria a luxúria, onde o homem desejaria a matéria sem limites, de um jeito irracional, perdendo de vez a liberdade.


Não por acaso, este último vício estava especialmente grifado a lápis no livro de Hawise: porque ele tinha uma relação extraconjugal com a florista do bairro.


Eu poderia ter adulterado a cama dos amantes para que desmontasse, fazendo o barulho da traição reverberar na cidade, mas eu gostava muito de Hawise para isso. Neste caso, deixei que a própria vida se encarregasse de lhe dar o troco sem as minhas mãos.


Talvez por vir dele, parecia-me simpática a contradição de um sábio incapaz de controlar os próprios desejos.


Suas críticas a mim não passavam de projeções de suas fraquezas: ele padecia do que julgava ser o pior vício, a luxúria e queria dar lições de moral me culpando pelo que julgava ser o menor vício, a soberba.


Eu sei o que faço. Na dose certa, meu orgulho é saudável. Chama-se autoestima.



PARTE 11


Minha rotina teria permanecido normal, não fossem os ponteiros do relógio da praça, que por ironia, estavam em manutenção, parados exatamente no mesmo horário em que dei o troco em Hai Rong.


Algo repuxou meu estômago. Um medo irracional daquela mulher voltar ofegante e encharcada, com o pescoço pulsante como um sapo, arrastando-se lentamente até a minha casa.


Imaginá-la brotando na praia, no mesmo cenário da minha chegada a este lugar, me fez perceber uma semelhança óbvia, em meio às nossas divergências: éramos imigrantes.


Eu da Turquia , Hawise da Alemanha, Hai Rong da China.


Tínhamos a mesma dor de não poder falar mais em nossas nossas línguas nativas.


Sobrepusemos nossos passados com culturas que não nos pertenciam e nas quais só poderíamos navegar à margem, cada um com seus demônios pessoais secretos e intransferíveis.


Se ela ainda estivesse entre nós, nesse frio que preludia o inverno, passaria assobiando canções orientais com as mãos apertadas nos bolsos do casaco vermelho.


Senti o perfume de peônias.


Era a florista, que passou por mim transtornada, querendo saber notícias de Hai Rong.


Sem que eu precisasse responder, ela mesma emendou em prantos, dizendo saber que a vizinha chinesa se via deslocada, solitária e há tempos pensava em suicídio.


Que contava repetidamente as mesmas histórias e mostrava os mesmos objetos, na esperança de achar um interlocutor para sua ancestralidade perdida.


Que minha madeira trazia a sensação de acolhimento para seus afetos inexistentes.


Aquelas revelações perturbaram a paz que eu achava ter conquistado após ter lhe dado o meu troco.


Voltei à marcenaria e virei a placa para "fechado".


PARTE 12


Hai Rong renascia em mim sob outras formas, emaranhando-se em meu pensamento para tentar me quebrar, como uma serpente passando a língua por dentro dos meus ouvidos.


O mal-estar diminuiu quando me ocupei folheando os arquivos nos armários de Hawise. Metódico que era, ele guardava todos os pedidos e anotações relacionadas aos clientes.


Na pasta de Hai Rong, localizei um esboço do que parecia ser um martelo invertido.


As páginas seguintes continham orientações detalhadas de um passo a passo de como construi-lo, traduzido do chinês por Hawise.


Tal trabalho tinha sido cancelado em razão de "falta de conhecimento para construir um objeto tão peculiar", segundo a nota de rodapé.


Naquele momento, não pude decifrar o que era.


Era estrangeiro demais, diferente demais da minha realidade, tal qual a dona do pedido.


Estranho perceber que eu não conhecia nada da pessoa com quem mais convivi desde a morte de Hawise.


Se as motivações dela me escapavam, com que direito eu poderia ter feito justiça, sem saber o que se passava do seu lado da moeda? O que viveu antes de chegar aqui?


Tomado de ódio pela possibilidade de logo eu ter errado a proporção do revide, soquei a cama até a madeira trincar.



PARTE 13


Amarrei uma corda a uma ripa de madeira para formar um improvisado arco de violino.


Sentei na cama, apoiei a base de um serrote nos pés, inclinei levemente a lâmina com as mãos e passei o arco, extraindo um som assustador, com o qual tentei tocar a música que ela assobiava.


Soou especialmente cortante para mim. Saudades de ouvir aqueles tamancos pedantes se arrastando por este piso.


Repeti a melodia ao ponto de conseguir tocá-la de olhos fechados, o que me conduziu a um estado de sonho lúcido.


Numa extensa planície branca mental, revivi a cena da minha chegada, porém com personagens diferentes: ao invés de Hawise esperando na pedra, era eu. E ao invés de mim saindo do mar, era Hai Rong, que repetia insistentemente a palavra "ehru".


Evidente: o que estava no papel não era um martelo invertido e sim a silhueta de um ehru.


Lembrei dela comentando algo sobre este instrumento conhecido como violino chinês, de apenas duas cordas, cujo som comovente remetia à voz humana.


Na minha terra, tínhamos também a nossa versão do violino: o kemençe. Já havia construído e tocado alguns com meu pai. Não seria impossível que eu também conseguisse fazer um ehru.


Todo o material necessário estava disponível no galpão. A pele de cobra poderia ser tirada do estofado e o ébano poderia ser obtido desmontando o móvel de cabeceira.


Enquanto eu trabalhava dia e noite para abrandar a minha culpa, percebi que estava produzindo, pela primeira vez, um anti-troféu, pois não tinha a intenção de lembrar de meus feitos e sim de lembrar de alguém.


PARTE 14


Pus-me a aprender a domar aquele instrumento.


Acrescentei à melodia do assobio algumas notas novas, tal qual uma parceria póstuma.


À nossa música, somavam-se os batuques sincopados do granizo sobre a janela e os sons dos sinos do relógio central, cujos ponteiros voltaram a girar e anunciavam a chegada do inverno.


Se o perdão não me podia mais ser concedido, fiz o que estava a meu alcance: enrolei cuidadosamente o ehru num cobertor de lã e o levei para o local onde ela certamente estaria neste momento: a taverna.


Por entre o tilintar do meu queixo e o murmúrio do vento, é como se a voz de Hawise soprasse no meu ouvido:


"Você se provou honrado, Youseff . Faça como Orfeu e mude o curso das águas com a sua lira".


Cheguei ao bar e todos me olharam intrigados.


Não disse nada, para que o som da minha voz, fartamente contaminada pelo timbre do passado, não influenciasse mais o presente.


Minhas mãos trêmulas de frio geraram as primeiras notas.


A janela de madeira ressoava fortemente, estimulada pela música, como se pranteasse em uníssono.


Pude ver o fundo do mar nos olhos dos outros, como se eu acabasse de ter traduzido a dor infinita de Hai Rong, que continha uma parte da dor de cada um ali presente.


Fiz um gesto de agradecimento e me retirei.


Fui até a praia.



PARTE 15


Olhei para o céu em direção às milhões de estrelas. Perguntei-me quantas delas estariam servindo de falsas guias para falsos dons.


Fiz um voto de silêncio: a partir de agora só falaria pelos dedos e a fricção do arco naquelas duas cordas de seda.


Percebi que justo a pessoa que mais odiei na vida foi a responsável por me fazer construir o que me salvaria de mim mesmo.


E que a dor da culpa provavelmente é equivalente à do afogamento.


Levantei o cobertor para "beliscar" uma das cordas do ehru com o dedo, olhei para baixo e vi que algo tinha se atracado na minha canela.


PARTE 16


Era o casaco de Hai Rong.


Torci-o para tirar o excesso de água, enquanto meditava sobre o fato do mar ter trazido de volta o que nele despejei.


Ele fez a justiça.


Virei-me em direção à grande árvore de entrada do porto e notei marcas úmidas.


Pegadas apontavam para a fachada do bar, onde havia sulcos delineados na neve, como se alguém tivesse recostado a cabeça na parede, bem em direção aonde toquei o ehru há alguns minutos.


Os rastros prosseguiam até a porta da marcenaria, onde havia este ideograma chinês desenhado com os dedos sobre a neve: 了, que significa "mudança de estado".


Do alto de um monte branco olhei o horizonte, absorto pela única luz que jamais achei que veria novamente:


A da casa de Hai Rong acesa.


Estava ela lá. E até hoje está.


É natural que fiquemos distantes por algum tempo, pensando em como nos refaremos um diante do outro.


Mas havia uma trégua implícita.


O fato desse retorno não ter amortecido em nada o meu desejo de paz me leva a crer que a minha homeostase emocional havia encontrado outro caminho.


Os juros abusivos e correções inflacionárias entre meu ego e o de Hai Rong já estavam pagos.


Com notas musicais.


FIM

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