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T1 EP7 (WYT)

Atualizado: 24 de jul.


O MARTELO INVERTIDO


PARTE 1


Daqui do por√£o dos meus pensamentos posso ter a liberdade de me apresentar como realmente sou.


Prazer, meu nome é Youssef.


Sou uma víbora, que de tempos em tempos precisa ferir os outros para se alimentar. Não só pela minha própria homeostase emocional, mas pelo equilíbrio de todo o mundo.


Meus dons s√£o necess√°rios para podar os excessos que as pessoas cometem.


Pode parecer chocante, mas só eu sei o bem por trás do mal que causo.


Não machuco por machucar. Ajo no limite do que é justo.


Nem menos nem mais.


(Estrondo grave)


PARTE 2


Todo dia acordo com este barulho.


Não é o ruído de construção civil como se poderia esperar.


√Č o som de "tanggu", um tambor chin√™s, tocado h√° duas quadras daqui por uma senhora chamada Hai Rong.


Moradora antiga, foi uma das primeiras a chegar na vila de imigrantes deste arquipélago do Pacífico.


Vive tentando achar meios cada vez mais ruidosos para tentar se recordar de seu país de origem.


Em outros tempos, eu j√° teria posto um fim assertivo no inc√īmodo que esta mulher me causa, mas aprendi com Hawise que, neste caso, √© mais prudente ter autocontrole.



PARTE 3


Visitei a casa de Hai Rong pela primeira vez quando eu ainda era aprendiz de marceneiro.


Vi seu amontoado de móveis, que praticamente não deixavam espaço livre para circulação.


Como se não bastassem as barreiras físicas, ela não me permitia nenhum silêncio para trabalhar em paz, derramando incontinências verbais repetitivas, que aprendi a fingir que escuto, concordando com a cabeça.


Sempre longas descri√ß√Ķes pretensiosas de cole√ß√Ķes de porcelana que seriam impercept√≠veis a pessoas simples como eu.


Sua sala conseguia ser mais desorganizada que meu galp√£o de sucatas nos piores dias.


Na ocasi√£o, tirei medidas para construir uma mesa, de inspira√ß√£o asi√°tica, baseada em escritos amarelados de seu av√ī, em mandarim antigo.


Tivemos que refazer o m√≥vel in√ļmeras vezes at√© que a cidad√£ finalmente resolvesse aprovar.


Sr. Hawise, meu mentor, dizia que este tipo de cliente deve ser bem tratado em dobro, pois sempre volta e paga acima da média.


PARTE 4


Hawise era um homem s√°bio, tirando o fato de ter-se deixado morrer de um jeito tolo, por excesso de fumo.


Tinha uma pequena biblioteca no porão desta marcenaria onde, nas horas vagas, debruçava-se em leituras, por entre a neblina de suas baforadas e pausas reflexivas para olhar o descampado na janela.


Ao fim do dia, sintetizava para mim algum ensinamento.


O jeito com que se dirigia a mim amortecia todo o meu desejo de violência.


Ele era √≥timo no trato com pessoas, neste campo minado do com√©rcio, onde o cliente quer se sentir muito mais especial do que √©, a ponto de, seduzido pelo bom tratamento que n√£o est√° acostumado a receber, possa compensar suas frustra√ß√Ķes gastando mais e mais. Pagam n√£o pelo produto, mas para serem acolhidos por pessoas servis, num lugar que s√≥ se prop√Ķe a atender seus desejos caprichosos.


Hawise era o sol, onde os clientes vinham se aquecer.


Eu era apenas a sombra, o braço auxiliar.


Não sei por que ele fez questão de fazer tanto por mim. Treinou-me na arte da madeira e deixou no testamento esta loja de herança para mim.



PARTE 5


O problema √© que herdei tamb√©m a conviv√™ncia com Hai Rong, esta senhora sedenta por bajula√ß√Ķes.


Quando vem aqui pede "aquele banquinho de sempre", que pressup√Ķe estar dispon√≠vel e limpo.


Senta no canto da sala para se deleitar me observando trabalhar para ela.


Repousa sacolas de compras no chão, abre um de seus leques e suspira, esperando que este sinal me faça correr imediatamente a seu encontro para guardar seus pertences atrás do balcão.


Espera também que eu lhe ofereça água com limão. Nem muito gelada nem muito quente.


Ela sabe do peso que tem no orçamento dessa loja, por isso comete seus pequenos abusos.


Quando me pergunta algo, é para que eu confirme sua visão de mundo e a deixe à vontade.


Quando minha resposta n√£o lhe interessa, me interrompe no meio, levanta a voz sem qualquer cerim√īnia e troca de assunto.


D√°-me gorjetas em notas amassadas, tiradas do fundo bolso, como quem atira migalhas aos pombos.


Tolero quase tudo da mania dessas pessoas, menos uma coisa:


PARTE 6


Dizer que errei o troco.


Ela sabe que eu n√£o erro.


Sou especialmente atento a esses detalhes.


Cheguei a conferir na sua frente, moeda por moeda, enquanto ela me encarava debruçada na beira do balcão.


Só pode ter alegado falha da minha parte para me humilhar, ver traços de constrangimento no meu rosto ou ouvir um "desculpa senhora", que alimentaria sua sensação de superioridade.


Hai Rong, como você é ingênua...


Se o Youssef aqui j√° fez o que fez com t√©cnica parca e est√īmago vazio, imagina o que posso fazer com toda a experi√™ncia adquirida nesses anos de talhos e cortes finos em madeira.


N√£o vou abrir exce√ß√Ķes s√≥ porque j√° passou dos 60 anos ou insiste em falar comigo desse jeito melodioso e hip√≥crita de madeira mole.


A justiça precisa ser cega. Igual para todos.



PARTE 7


No porão da marcenaria, guardo pequenos troféus de madeira, que produzi para lembrar das minhas conquistas, de quem eu sou de verdade.


Cada um deles representa um "grande troco" dado por mim, h√° anos atr√°s, em pessoas que incontestavelmente mereceram.


Esta aqui, por exemplo, é uma réplica do meu primeiro revide: quando construí uma armadilha de alçapão para prender um colega de bairro.


Mantive-o confinado por dois dias, um prazo que n√£o o mataria, mas o deixaria em p√Ęnico, na companhia de uma cobra n√£o venenosa e privado de √°gua e comida.


O rapaz nunca soube que fui eu.


√Č sempre melhor que ningu√©m saiba.


Sem culpados, sem nomes, sem vestígios.


A lição o deixou bem mais manso, tornando a convivência melhor para todos.


Parou de rir da minha pontaria quando eu martelava o prego no lugar errado.


Que era o certo a se fazer, nunca tive d√ļvida.


Mas o que me surpreendeu foi a sensação resplandecente de prazer que me tomou o corpo todo.


Eu havia destravado um poder pessoal que a vida cotidiana jamais me proporcionou.


Era como sentar no trono secreto do príncipe das trevas, de onde eu podia ser a fonte causadora do que eu quisesse.


Mas como todo grande dom traz um √īnus, eu jamais poderia revelar o meu poder e ser reconhecido pelo que fa√ßo de melhor.


Tudo bem, n√£o se pode ter tudo nessa vida.


Para uma pessoa sem grandes ambi√ß√Ķes, sempre arrastada pelos outros de l√° para c√°, j√° foi um achado expressivo. Uma vez provando do meu valor, eu n√£o abriria m√£o de senti-lo mais e mais vezes.


Me senti grato por ter descoberto o meu eixo, o meu centro.


Estava tão bem comigo mesmo que não precisei mais me apegar aos antigos vícios em entorpecentes juvenis.


Nunca falei dessas quest√Ķes com ningu√©m, nem mesmo com Hawise.


A marcenaria é uma meia verdade.


A outra metade é que eu uso a madeira para fazer o que convencionou-se chamar de vingança, mas eu prefiro chamar de reparo.


PARTE 8


O mar me trouxe a esta cidade aos 16 anos, depois de ter perdido toda a minha família numa tentativa de travessia migratória ilegal.


Na praia, esbarrei com um homem magro e calvo, que estava sentado numa pedra fumando cigarro. Era Hawise.


Ele esperava pelo abastecimento de madeira, mas o que chegou foi um jovem desgraçado, vindo de lugar nenhum, só com a roupa do corpo.


Contei-lhe as partes confess√°veis da minha hist√≥ria, omitindo o melhor de mim, esta minha capacidade secreta de arquitetar e executar puni√ß√Ķes corretivas, que j√° somavam seis naquela √©poca, um prod√≠gio para minha idade.


Suas sobrancelhas murcharam e seus olhos se perderam no mar, comovidos pela tragédia da minha solidão.


Tive a impressão de que sua cabeça havia se desdobrado em várias, abrindo-se como uma sanfona desconjuntada.


Consegui trazê-lo ao prumo quando peguei o cigarro que tinha caído e coloquei de volta em sua boca.


Perguntou-me se eu sabia fazer algum serviço.


Disse a verdade: não tenho estudos, só faço pequenos consertos em madeira.


Ele me levou até uma árvore de caule grosso, bem na entrada da região portuária e me disse que era tradição dos recém-chegados colocarem as mãos sobre ela, como num rito de boa sorte.


Disse que eu tivera a sorte de chegar num polo exportador de madeira e que ia me treinar para ser seu auxiliar.


Hawise ensinou-me, além da técnica, o perfeccionismo, a dedicação e a paz de espírito.


Influenciado por livros que tinha ganhado de presente de Hai Rong, ele dizia que, segundo a medicina chinesa, o elemento madeira poderia operar grandes mudanças quando bem manipulado.


Realmente. Neste novo contexto em que fui parar, eu não precisava mais lutar para ser respeitado ou fazer justiça com as próprias mãos.


Tudo o que nunca recebi, aquele sujeito me ofereceu de graça.


Mas como ele mesmo dizia, viver não é uma jornada estática.


No I-Ching, o chamado livro das muta√ß√Ķes, √© dito que a vida est√° constantemente recombinando seus padr√Ķes e nossas atitudes precisam mudar para acompanhar tal ritmo e conseguir vencer as batalhas que se apresentam.


Muitas coisas mudaram: hoje sou dono de um negócio, Hawise já se foi e você, Hai Hong, cruzou uma linha perigosa.


Ouço o chamado do meu dom, exigindo de mim que eu seja instrumento para consumar um grande troco.



PARTE 9


Nesta √©poca de outono, as flores ca√≠das sobre as √°guas formam um tapete de cores vivas e perfumadas. Perfeito para rotas rom√Ęnticas, homenagens p√≥s-morte ou o belo de um troco.


Disse a Hai Rong que lhe daria um presente, como forma de agradecimento por todos esses anos de confiança.


Dispus-me a construir gratuitamente um barco, ao estilo chinês, com os detalhes que ela quisesse. Com ele, faríamos um passeio para apreciar as matizes da estação.


Nunca a vi t√£o sorridente. Ela acompanhava o processo com inquietude, perguntando quantos dias faltavam para terminar.


Prolonguei os preparos intencionalmente, para que ela ficasse mais e mais ansiosa, perdendo a racionalidade e suscetível a não desconfiar de nada.


A justiça tem um sabor melhor quando degustada aos poucos.


√Č bom deixar que a dor se amplifique para que o prazer do al√≠vio seja maior.


Eu merecia um retorno triunfante aos braços do meu dom.


O plano era oferecê-la ao mar.


Eu aproveitaria o momento do passeio em que ela estivesse entretida com os próprios monólogos, de costas para mim, para desviar a rota sem que ela notasse.


No ponto certo, eu pularia na água e tiraria o lacre do casco do barco, que propositalmente tinha uma rachadura oculta, pronta para naufragá-lo progressivamente em direção a uma catarata, que desembocava num lago discreto encoberto por pedras, prestes a se congelar com a chegada do inverno.


Pouco acostumada que era em resolver coisas com as próprias mãos, jamais teria força para remar ou arriscar braçadas de resistência. Em nenhuma hipótese ela poderia sobreviver.


PARTE 10


Somando as várias pequenas mortes que ela gerou diminuindo os outros, o saldo devedor lógico é uma grande morte.


O karma, ou a justiça do universo, paga o que fazemos com a mesma moeda.


Se a natureza dá o troco e opera através de nós, que também somos natureza, por que não eu, detentor de um discernimento acima da média, não deva fazer esse trabalho? Pareceu-me razoável.


Até já atualizei meus troféus com o sétimo: uma réplica idêntica daquele barco.


Confesso que fiquei especialmente orgulhoso, o que me fez lembrar dos alertas de Hawise sobre meu ponto fraco ser a soberba e que jamais deveria alimentá-la, pois seria a porta de entrada para todos os outros vícios.


Ele tirou essa ideia de um pequeno texto medieval de autoria de Hugo de São Vítor, chamado "Cinco Setenários ", onde era argumentado que os 7 vícios capitais seriam progressivos:


Primeiro viria a soberba, quando a pessoa só reconhece o bem nela própria.


Como consequência viria a inveja, que é a não aceitação do bem no outro.


A sensação de injustiça por não ter o bem tal como o outro, levaria à ira.


Não encontrando mais sentido, viria a falta de vontade de viver sob forma de tristeza/preguiça.


Para compensar o vazio espiritual, o sujeito se concentraria em bens materiais, surgindo assim a avareza.


A descida seguinte seria engolir o m√°ximo de mat√©ria para acumul√°-la no est√īmago, atrav√©s da gula, v√≠cio que j√° estaria abaixo do n√≠vel dos animais, que s√≥ comem o necess√°rio.


Finalmente apareceria a lux√ļria, onde o homem desejaria a mat√©ria sem limites, de um jeito irracional, perdendo de vez a liberdade.


N√£o por acaso, este √ļltimo v√≠cio estava especialmente grifado a l√°pis no livro de Hawise: porque ele tinha uma rela√ß√£o extraconjugal com a florista do bairro.


Eu poderia ter adulterado a cama dos amantes para que desmontasse, fazendo o barulho da traição reverberar na cidade, mas eu gostava muito de Hawise para isso. Neste caso, deixei que a própria vida se encarregasse de lhe dar o troco sem as minhas mãos.


Talvez por vir dele, parecia-me simpática a contradição de um sábio incapaz de controlar os próprios desejos.


Suas cr√≠ticas a mim n√£o passavam de proje√ß√Ķes de suas fraquezas: ele padecia do que julgava ser o pior v√≠cio, a lux√ļria e queria dar li√ß√Ķes de moral me culpando pelo que julgava ser o menor v√≠cio, a soberba.


Eu sei o que faço. Na dose certa, meu orgulho é saudável. Chama-se autoestima.



PARTE 11


Minha rotina teria permanecido normal, não fossem os ponteiros do relógio da praça, que por ironia, estavam em manutenção, parados exatamente no mesmo horário em que dei o troco em Hai Rong.


Algo repuxou meu est√īmago. Um medo irracional daquela mulher voltar ofegante e encharcada, com o pesco√ßo pulsante como um sapo, arrastando-se lentamente at√© a minha casa.


Imaginá-la brotando na praia, no mesmo cenário da minha chegada a este lugar, me fez perceber uma semelhança óbvia, em meio às nossas divergências: éramos imigrantes.


Eu da Turquia , Hawise da Alemanha, Hai Rong da China.


Tínhamos a mesma dor de não poder falar mais em nossas nossas línguas nativas.


Sobrepusemos nossos passados com culturas que n√£o nos pertenciam e nas quais s√≥ poder√≠amos navegar √† margem, cada um com seus dem√īnios pessoais secretos e intransfer√≠veis.


Se ela ainda estivesse entre n√≥s, nesse frio que preludia o inverno, passaria assobiando can√ß√Ķes orientais com as m√£os apertadas nos bolsos do casaco vermelho.


Senti o perfume de pe√īnias.


Era a florista, que passou por mim transtornada, querendo saber notícias de Hai Rong.


Sem que eu precisasse responder, ela mesma emendou em prantos, dizendo saber que a vizinha chinesa se via deslocada, solitária e há tempos pensava em suicídio.


Que contava repetidamente as mesmas histórias e mostrava os mesmos objetos, na esperança de achar um interlocutor para sua ancestralidade perdida.


Que minha madeira trazia a sensação de acolhimento para seus afetos inexistentes.


Aquelas revela√ß√Ķes perturbaram a paz que eu achava ter conquistado ap√≥s ter lhe dado o meu troco.


Voltei à marcenaria e virei a placa para "fechado".


PARTE 12


Hai Rong renascia em mim sob outras formas, emaranhando-se em meu pensamento para tentar me quebrar, como uma serpente passando a língua por dentro dos meus ouvidos.


O mal-estar diminuiu quando me ocupei folheando os arquivos nos arm√°rios de Hawise. Met√≥dico que era, ele guardava todos os pedidos e anota√ß√Ķes relacionadas aos clientes.


Na pasta de Hai Rong, localizei um esboço do que parecia ser um martelo invertido.


As p√°ginas seguintes continham orienta√ß√Ķes detalhadas de um passo a passo de como construi-lo, traduzido do chin√™s por Hawise.


Tal trabalho tinha sido cancelado em razão de "falta de conhecimento para construir um objeto tão peculiar", segundo a nota de rodapé.


Naquele momento, n√£o pude decifrar o que era.


Era estrangeiro demais, diferente demais da minha realidade, tal qual a dona do pedido.


Estranho perceber que eu n√£o conhecia nada da pessoa com quem mais convivi desde a morte de Hawise.


Se as motiva√ß√Ķes dela me escapavam, com que direito eu poderia ter feito justi√ßa, sem saber o que se passava do seu lado da moeda? O que viveu antes de chegar aqui?


Tomado de ódio pela possibilidade de logo eu ter errado a proporção do revide, soquei a cama até a madeira trincar.



PARTE 13


Amarrei uma corda a uma ripa de madeira para formar um improvisado arco de violino.


Sentei na cama, apoiei a base de um serrote nos p√©s, inclinei levemente a l√Ęmina com as m√£os e passei o arco, extraindo um som assustador, com o qual tentei tocar a m√ļsica que ela assobiava.


Soou especialmente cortante para mim. Saudades de ouvir aqueles tamancos pedantes se arrastando por este piso.


Repeti a melodia ao ponto de conseguir toc√°-la de olhos fechados, o que me conduziu a um estado de sonho l√ļcido.


Numa extensa planície branca mental, revivi a cena da minha chegada, porém com personagens diferentes: ao invés de Hawise esperando na pedra, era eu. E ao invés de mim saindo do mar, era Hai Rong, que repetia insistentemente a palavra "ehru".


Evidente: o que estava no papel n√£o era um martelo invertido e sim a silhueta de um ehru.


Lembrei dela comentando algo sobre este instrumento conhecido como violino chinês, de apenas duas cordas, cujo som comovente remetia à voz humana.


Na minha terra, tínhamos também a nossa versão do violino: o kemençe. Já havia construído e tocado alguns com meu pai. Não seria impossível que eu também conseguisse fazer um ehru.


Todo o material necessário estava disponível no galpão. A pele de cobra poderia ser tirada do estofado e o ébano poderia ser obtido desmontando o móvel de cabeceira.


Enquanto eu trabalhava dia e noite para abrandar a minha culpa, percebi que estava produzindo, pela primeira vez, um anti-troféu, pois não tinha a intenção de lembrar de meus feitos e sim de lembrar de alguém.


PARTE 14


Pus-me a aprender a domar aquele instrumento.


Acrescentei à melodia do assobio algumas notas novas, tal qual uma parceria póstuma.


√Ä nossa m√ļsica, somavam-se os batuques sincopados do granizo sobre a janela e os sons dos sinos do rel√≥gio central, cujos ponteiros voltaram a girar e anunciavam a chegada do inverno.


Se o perd√£o n√£o me podia mais ser concedido, fiz o que estava a meu alcance: enrolei cuidadosamente o ehru num cobertor de l√£ e o levei para o local onde ela certamente estaria neste momento: a taverna.


Por entre o tilintar do meu queixo e o murm√ļrio do vento, √© como se a voz de Hawise soprasse no meu ouvido:


"Você se provou honrado, Youseff . Faça como Orfeu e mude o curso das águas com a sua lira".


Cheguei ao bar e todos me olharam intrigados.


N√£o disse nada, para que o som da minha voz, fartamente contaminada pelo timbre do passado, n√£o influenciasse mais o presente.


Minhas mãos trêmulas de frio geraram as primeiras notas.


A janela de madeira ressoava fortemente, estimulada pela m√ļsica, como se pranteasse em un√≠ssono.


Pude ver o fundo do mar nos olhos dos outros, como se eu acabasse de ter traduzido a dor infinita de Hai Rong, que continha uma parte da dor de cada um ali presente.


Fiz um gesto de agradecimento e me retirei.


Fui até a praia.



PARTE 15


Olhei para o c√©u em dire√ß√£o √†s milh√Ķes de estrelas. Perguntei-me quantas delas estariam servindo de falsas guias para falsos dons.


Fiz um voto de silêncio: a partir de agora só falaria pelos dedos e a fricção do arco naquelas duas cordas de seda.


Percebi que justo a pessoa que mais odiei na vida foi a respons√°vel por me fazer construir o que me salvaria de mim mesmo.


E que a dor da culpa provavelmente é equivalente à do afogamento.


Levantei o cobertor para "beliscar" uma das cordas do ehru com o dedo, olhei para baixo e vi que algo tinha se atracado na minha canela.


PARTE 16


Era o casaco de Hai Rong.


Torci-o para tirar o excesso de √°gua, enquanto meditava sobre o fato do mar ter trazido de volta o que nele despejei.


Ele fez a justiça.


Virei-me em dire√ß√£o √† grande √°rvore de entrada do porto e notei marcas √ļmidas.


Pegadas apontavam para a fachada do bar, onde havia sulcos delineados na neve, como se alguém tivesse recostado a cabeça na parede, bem em direção aonde toquei o ehru há alguns minutos.


Os rastros prosseguiam at√© a porta da marcenaria, onde havia este ideograma chin√™s desenhado com os dedos sobre a neve: šļÜ, que significa "mudan√ßa de estado".


Do alto de um monte branco olhei o horizonte, absorto pela √ļnica luz que jamais achei que veria novamente:


A da casa de Hai Rong acesa.


Estava ela lá. E até hoje está.


√Č natural que fiquemos distantes por algum tempo, pensando em como nos refaremos um diante do outro.


Mas havia uma trégua implícita.


O fato desse retorno n√£o ter amortecido em nada o meu desejo de paz me leva a crer que a minha homeostase emocional havia encontrado outro caminho.


Os juros abusivos e corre√ß√Ķes inflacion√°rias entre meu ego e o de Hai Rong j√° estavam pagos.


Com notas musicais.


FIM

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